segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A fé é para os fracos

Para muitas pessoas, a religião é uma muleta para as pessoas fracas que não podem andar com as suas próprias pernas. Essas pessoas precisariam acreditar em algum poder sobrenatural para poder aceitar e enfrentar os problemas da vida. De uma certa forma, Deus seria uma invenção dessas pessoas e, uma vez que essas pessoas aprendessem a lutar pelos seus direitos para melhorar as suas condições de vida sem a ajuda de uma crença, Deus estaria morto. Para eles, tudo o que não é material não seria real, e que aquilo que vivemos no dia-a-dia seria toda a realidade. Finalmente, eles acreditariam que todas as mazelas deste mundo serão superadas com alguma invenção humana, como a tecnologia, a engenharia social, ou a luta de classes.

Por muito tempo, essa era a minha opinião. Com uma boa dose de arrogância, eu acreditava ser capaz de viver sem precisar buscar força e consolo na religião, pois eu entendia que eu era forte, que eu suportaria qualquer coisa, e que poderia enfrentar a realidade como ela era, sem precisar acreditar em um Deus fictício, fruto da minha imaginação.

Isso foi há anos atrás, quando eu era jovem e acreditava que eu podia fazer tudo. Depois de algum tempo de vida, eu continuo com a mesma opinião sobre a religião, mesmo mudando radicalmente a minha posição em relação a esse assunto.

Por exemplo, hoje não olho mais com desprezo as pessoas que precisam de Deus: muito pelo contrário, eu admiro aqueles que tem a coragem de admitir que tem fraquezas e que precisam de ajuda de alguém maior que elas para superar seus problemas, algo que eu tenho dificuldades de admitir. Neste aspecto, eu concordo com a premissa do grupo dos Alcoólicos Anônimos de que o primeiro passo para combater um vício é admitir o fracasso em tentar combatê-la com as suas próprias forças.

Eu observo que, normalmente, as pessoas que afirmam a inexistência de Deus são bem-sucedidas, tem formação intelectual acima da média, têm vida confortável e não passam por necessidades extremas. O ateísmo é como um jantar em um restaurante de alto padrão, acessível apenas para os que tem condições de desfrutá-las, seja por terem um histórico privilegiado, seja por serem dotados de uma inteligência ou de uma força de vontade acima do normal. Para os meros mortais, sobra a opção mais barata, a de buscar esperança, força e consolo em algo que não podem ver, ouvir ou sentir. Enquanto vivermos em um mundo onde existe injustiça, sofrimento e doença, sempre haverá religião. É natural que alguém que não tenha condições de pagar para ter acesso ao melhor que a medicina possa oferecer recorra ao "médico dos médicos", e que alguém que não possa pagar um bom advogado para defender a sua causa clame ao Deus de justiça para julgar a sua causa, mesmo que Deus não prometa cura ou justiça instantânea.

Uma vida confortável nesse mundo pode dar-me a impressão de que Deus não existe, ou que pelo menos não é necessário para mim. Porém, existe um evento na nossa vida que expõe a fragilidade de todos nós, sem exceção: a morte. Por mais biologicamente natural que a morte seja, algo dentro de nós não vê a morte com naturalidade. Desejamos continuar vivendo, prolongar a nossa vida o máximo possível e nunca morrer. Temos o desejo de ser eternos, e este desejo nos coloca como pessoas indefesas diante da morte. Todo o dinheiro, inteligência ou vontade humana não serão nada diante do fato de que um dia pararemos de respirar, o coração parará de bater, e a vida deixará de existir. De uma certa forma, todos nós somos fracos.

Há também a afirmação de que Deus foi criação nossa. Eu vejo que esta afirmação tem fundamento, pois as pessoas tendem a escolher o deus que mais lhe convêm, como se tivessem criado um deus "à sua imagem e semelhança". Porém hoje eu vejo de uma outra maneira. Acho mais consistente crer que nós buscamos a um  "deus" porque "o Deus" fez o homem "à sua imagem e semelhança", que deseja encontrar-se com algo além desse mundo, como um exilado que anseia por sua terra natal. Vejo também que o "deus" que cada um cria para si mesmo é uma projeção distorcida do Deus que nos criou, como uma lembrança vaga que eu tenho de um parente que morreu quando eu era pequeno. Prefiro crer que sofremos uma espécie de amnésia espiritual: sentimos falta de alguma coisa, mas não sabemos lembrar exatamente do quê.

Finalmente, juntei-me ao time dos fracos. Percebi que não conseguia lidar com as dificuldades e as tragédias da vida. Percebi que eu não conseguia vencer a timidez, o desânimo e a depressão. Percebi que eu precisava de ajuda. Percebi que precisava crer em alguém que fosse maior que a realidade que eu podia perceber pelos meus cinco sentidos. Tornei-me um aleijado e precisei de muletas para andar.

Por mais que isso tenha parecido uma tragédia, não foi. Em Jesus Cristo, encontrei muito mais que uma muleta: encontrei a parte que me faltava para tornar-me uma pessoa completa. Encontrei recursos que me permitiram fazer muito mais do que eu faria se eu andasse perfeitamente. Encontrei forças para combater a timidez, para encontrar ânimo em situações difíceis, para viver com alegria, para falar e escrever sobre coisas além da minha compreensão. De uma certa forma, eu ecoo as palavras de Paulo: "o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza ... quando estou fraco, então sou forte".

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Para que igreja?

Introdução

Com algum constrangimento, eu confesso que sou parte de um grupo que está crescendo bastante no Brasil ultimamente: o de pessoas que se consideram evangélicas sem estar filiadas a nenhuma igreja, conhecidas como "sem-igreja".

É difícil tentar explicar como eu cheguei a este ponto. Não acredito que eu não precise de igreja. Não acho que a minha peregrinação tenha de ser solitária. Creio que a convivência com pessoas que tenham o mesmo Deus e Pai seja indispensável para exercitar a maior virtude cristã: o amor. Não há como amar nem ser amado se não houver pessoas ao meu redor. Posso aprender tudo sobre a vida cristã lendo livros, louvar a Deus com as músicas gravadas no MP3 e dispensar os cultos da igreja, mas nunca poderei praticar o que eu aprendo se não estiver inserido em uma comunidade.

Nesse sentido, eu creio que a igreja seja indispensável. O meu problema tem sido associar a igreja que eu necessito àquela igreja que tem um prédio, um santuário, alguns cultos durante a semana e alguns membros. Admito que a igreja tem sido o aspecto mais difícil nesses anos de peregrinação. Após frequentar inúmeras igrejas e me envolver em algumas delas, chego à conclusão de que existe algo de muito errado comigo ou existe algo muito errado com as igrejas. Talvez as duas coisas.

A "igreja" ideal

Eu não nasci em lar evangélico e não fui frequentador de igreja na infância. Por isso, a minha primeira idéia do que era igreja era o que eu lia na Bíblia.

Eu via na igreja a possibilidade de revolucionar o mundo. De uma certa forma, a igreja era para mim uma utopia que poderia tornar-se realidade se ela compreendesse e exercesse o seu papel neste mundo. Afinal de contas, isso já aconteceu pelo menos em um momento da história. De acordo com o livros de Atos dos Apóstolos, cinquenta dias após a ressurreição de Jesus milhares de pessoas arrependeram-se de seus pecados e resolveram seguir a Cristo. Em uma demonstração nítida do caráter da pessoa que decidiram seguir, os que tinham muito voluntariamente venderam suas propriedades para que os seus "irmãos" pobres não passassem necessidade. Eles encontravam-se todos os dias para partir o pão e adorar a Deus. A igreja conquistava a admiração das pessoas de fora, pelo amor que demonstravam um pelo outro e por aquilo que Deus estava fazendo entre eles. Por isso, mesmo com as perseguições, o número de pessoas dispostas a seguir a Cristo crescia naturalmente, sem que a igreja precisasse se esforçar para convencer os outros a fazê-lo. A igreja não era perfeita, como atestam os incidentes registrados no mesmo livro; no entanto, ela abalou os alicerces do império mais poderoso daquela época a partir de um grupo de 40 pessoas.

Eu também via a igreja como o "corpo de Cristo". Embora este termo tenha virado um jargão entre os evangélicos, eu costumava levar esta expressão a sério. A igreja era a boca, os pés, as mãos, o olhos e os ouvidos de Cristo. Se alguém quisesse saber como Cristo era, como ele se expressava e como ele acolhia as pessoas, deveria ir à igreja para ver isso em seus membros. Assim como acontecia com Jesus quando ele viveu entre nós, a igreja deveria atrair os "pecadores" que estavam cansados e sobrecarregados pelos seus pecados e ser odiada por religiosos que viam a sua hipocrisia sendo exposta por ela. Na igreja, pessoas rejeitadas pela sociedade seriam acolhidas e amadas; pessoas doentes seriam cuidadas e curadas; pessoas cansadas encontrariam repouso, assim como em Cristo.

A igreja também seria uma "família". Eu esperava que isso fosse mais do que um outro jargão. Em uma família de verdade, a palavra "compartilhar" tem um sentido muito mais profundo. Compartilhamos do mesmo teto, do mesmo banheiro, dos mesmos brinquedos, das mesmas refeições. Muitas vezes até bebemos do mesmo copo e enxugamos na mesma toalha. Se um de nós fica doente, normalmente os outros também acabam adquirindo a mesma doença. Quando um membro da família está mal, todos são afetados. Quando eu era sustentado pelos meus pais, não fazia muito sentido dizer que eu era mais rico ou mais pobre que o meu irmão: todos éramos igualmente ricos ou pobres, e eram os meus pais que decidiam como distribuir a renda da casa de forma a suprir a necessidade de todos. Esta era a ilustração de família que vinha à minha mente quando se falava de igreja como a família de Deus.

Finalmente, eu via a igreja como um grupo que tinha a "missão" de espalhar a mensagem de Cristo para todos os cantos da terra, e esta "missão" seria a razão da igreja existir. Enquanto tenho uma tarefa prioritária a cumprir no meu trabalho, eu tento me concentrar na tarefa e evito desperdiçar tempo e energia em qualquer outra coisa que me distraia do objetivo principal. Da mesma forma, em um batalhão do exército, todos os recursos e esforços devem estar focalizados no cumprimento da sua missão. Não faria sentido que somente uns "gatos pingados" fossem para a frente de batalha por iniciativa própria e sem nenhuma cobertura do restante da batalhão. Também não faria sentido gastar a maior parte do orçamento embelezando o prédio do quartel-general.

A "igreja" real

Mesmo tendo esta idéia de igreja, eu sabia que as igrejas não eram perfeitas. Na época em que eu iniciei a minha carreira na fé, muitas igrejas evangélicas já eram acusadas de charlatanismo, de lavagem cerebral, e de usarem a fé dos fiéis para ganho pessoal de seus líderes. Eu sabia, portanto, que nem todas as igrejas levavam as coisas de Deus "a sério", e que eu deveria escolher muito bem a igreja que eu frequentaria. Por outro lado, eu também, entendia que a igreja não era frequentada por pessoas perfeitas e que, portanto, não podia ser perfeita. Sabia também que a igreja era como um campo de trigo cheio de joios, em que pessoas que amavam a Deus e desejavam servi-lo misturavam-se com pessoas que estavam frequentando a igreja por motivos mais egoístas. Por isso, eu também não deveria ser muito exigente.

O contraste entre a minha idéia de igreja e a igreja real chocou-me no início: a igreja real não parecia ser nem sombra daquilo que eu imaginava que deveria ser. Eu a descrevia como uma versão religiosa dos clubes, das sociedades, das empresas e dos mercados que eu via no mundo que me cercava, nada capaz de virar o mundo de pernas para o ar. Às vezes, eu questionava se a igreja como descrita na Bíblia estava passando por um momento único, que nunca mais se repetiria; ou se a minha interpretação do livro de Atos dos Apóstolos  tinha sido romântica e fora da realidade.

Mesmo assim, eu realmente acreditava que seria possível ver uma igreja ao menos um pouco mais parecida com o que eu imaginava que deveria ser, talvez estimulado pelos livros que falavam de "avivamento". Eu imaginava que, se eu jejuasse, orasse, buscasse, chorasse e pedisse que Deus mudasse a situação, o seu Espírito faria o seu trabalho, os crentes seriam despertados e voltaríamos a ser igreja de verdade. Obviamente, nada acontecia, mas eu também não tinha disciplina para fazer tudo o que eu achava que seria necessário para ser ouvido por Deus. Com isso, eu não sabia se eu não tinha me esforçado o suficiente ou se Deus não quis ouvir os meu clamores.

A minha busca por "igreja"

Durante esses vinte e poucos anos, eu envolvi-me em igrejas de vários tipos. Frequentei igrejas minúsculas e igrejas gigantes; igrejas cujos cultos pareciam velório e igrejas cujos cultos pareciam concertos de rock; igrejas em que não se permitia bater palmas e igrejas onde todos gritavam ao mesmo tempo; igrejas que apresentavam mais citações de intelectuais que a Bíblia, e igrejas que abominavam qualquer outro livro que não fosse a Bíblia. Frequentei igrejas de alemães, de japoneses, de americanos brancos, de americanos negros e de brasileiros imigrantes.

Em todas elas, a minha experiência na igreja era mais ou menos a mesma. Inicialmente, eu era um estranho que desejava entrar em um grupo de pessoas que, a princípio, eram meus "irmãos". Eu frequentava os cultos, tentava me envolver com as atividades da igreja, entregava-me de corpo e alma, e aprendia a amar as pessoas que estavam ali. Mesmo assim, eu sentia que algo muito importante estava faltando ali. Aquilo não era a igreja que eu imaginava que deveria ser. Depois de algum tempo tentando mudar alguma coisa, eu chegava à conclusão que o meu esforço era inútil e solitário. Diante desta constatação, eu ficava dividido entre continuar em uma igreja que nunca mudaria ou procurar outra onde eu tivesse alguma esperança. Às vezes eu tentava aceitar a situação, dizendo para mim mesmo que não existe igreja perfeita, mas isso não me consolava. Depois de algum tempo sentindo-me infeliz, eu saía da igreja pela porta dos fundos, frustrado.

Após passar por isso igreja após igreja, a minha expectativa em relação à igreja também foi diminuindo aos poucos. No início, eu desejava uma igreja que abalasse os alicerces do mundo. Depois, eu me satisfazia com uma igreja "do meu estilo". Depois, eu me satisfazia em estar em uma comunidade onde eu pudesse amar e ser amado. Hoje, não espero muita coisa da igreja, qualquer uma serve. Como agora não tenho expectativa nenhuma, não há mais motivo para continuar desperdiçando meu tempo e recursos em atividades que não têm mais sentido para mim. Mesmo que, por insistência de minha esposa, eu vá à igreja de vez em quando, desapareceu em mim o desejo de participar, de pertencer, de amar, de me doar para a igreja.

Ainda preciso de igreja

Isso não quer dizer que eu não precise de igreja: eu creio que parte da minha frieza espiritual deve-se ao fato de não estar envolvido com alguma comunidade onde eu possa partir o pão, compartilhar a minha vida, adorar a Deus e aprender a ser mais humano.

O meu temperamento não me ajuda nesse processo. As pessoas normalmente vêem-me como uma pessoa fechada, de poucas palavras e de difícil aproximação, e eu concordo com eles. Por outro lado, provavelmente são essas pessoas "difíceis" que mais precisam de amor e aceitação. Enquanto uma parte de mim acha que é inútil frequentar a igreja, outra parte sabe que eu nunca serei plenamente feliz se não fizer parte de uma comunidade onde eu possa ver o amor de Cristo na prática.