segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Feliz Ano Novo!
São Paulo, 31 de dezembro de 2012
A minha parte favorita da celebração do ano-novo são os fogos de artifício. Eu sempre fui fascinado com eles, desde que eu ajudava a vendê-los na loja de meus pais, na minha infância. O fogo era algo extremamente perigoso, e eu sempre via este perigo próximo de nós, que vendíamos estes fogos: devíamos estar sempre alertas para não acontecer algum acidente. Mesmo assim, eu ficava impressionado com a obra de arte que poderia ser feito com algo tão perigoso e mortal como o fogo: uma bombinha é empurrada para o alto e depois se explode, espalhando luzes coloridas que caem do céu como um buquê de flores se abrindo; um vulcão que sofre uma erupção, clareando a noite com uma luz branca e derramando bolas multicoloridas; uma varetinha se acende com uma luz verde e faíscas, tudo isso simplesmente me encantava. A obra de arte durava muito pouco tempo, e desaparecia em alguns minutos, mas era mágico enquanto durava.
Existe uma outra parte de mim, no entanto, que considera todo este espetáculo simplesmente uma queima de dinheiro. Com tantas coisas tão mais importantes e necessárias neste mundo, não seria racional que a gente desperdiçasse dinheiro com estas coisas. Afinal de contas, é algo que demora somente alguns minutos, e depois acaba. E as pessoas que estão passando fome?
Esta parte de mim também acha ridículas todas estas promessas de ano-novo. De uma certa maneira, eu cansei-me deste ciclo que sempre se repete, ano após ano: aproxima-se o final do ano, vemos que nada de significativo mudou, fazemos novas promessas, tentamos cumprir estas promessas por algumas semanas, desistimos e, após algumas semanas, esquecemos que fizemos as promessas. Prometemos passar mais tempo com a família, orar e ler a Bíblia regularmente, fazer mais exercícios físicos, comer alimentos mais saudáveis. No final do ano, vemos que nada das nossas promessas que fizemos no início do ano tornou-se realidade.
Estranho também é o ritual que realizamos para passar o ano. Alguns comem sopa de lentilha, outros dão três pulos no mar, outros comem uvas brancas para que o ano novo seja melhor que o antigo. Uns são menos supersticiosos e simplesmente desejam um bom ano novo para todos. O que existe de comum entre nós, no entanto, é a esperança. Por pior que tenha sido o ano que passou, repleto de guerras, tragédias, dificuldades econômicas, corrupção e crimes, temos a esperança de que tudo isso se reverta no ano que vem. Saudamos o novo ano com uma esperança renovada, desejando que, contra todas as previsões, ela seja cheia de paz, prosperidade e saúde. Entra ano, sai ano, nós passamos por este ritual, mesmo sabendo que, em sua essência, a realidade continuará sendo a mesma: haverá guerras, pessoas inocentes serão vítimas de violência, pessoas continuarão empobrecendo para alimentar a ganância de poucos, e políticos corruptos continuarão a desviar recursos que deveriam ser destinados a cuidar da saúde das pessoas. Na maioria das vezes, somos vítimas de outras pessoas, e não da sorte.
Esta parte de mim é o que a maioria das pessoas chama de chata e rabugenta: a que vê tudo racionalmente, a que deixou de se encantar com as coisas da vida, a que despreza a esperança dos outros, achando-a falsa e vazia.
Eu confesso que eu não gosto desse lado de mim. Ela foi e tem sido útil para mim, mas eu temo que isso me faça menos humano. É uma máquina que vê a realidade com uma calculadora: nós, por outro lado, deveríamos ser capazes de nos encantarmos, de apaixonarmos, de amarmos, de chorarmos, de termos raiva, tristeza e alegria. Ás vezes, deveríamos ser como a criança que se encanta com um show de fogos de artifício ou com um show de mágicas. Deveríamos ser como o jovem que sonha com um mundo melhor e acredita que ele pode mudá-lo, mesmo que tudo ao redor prove o contrário. De vez em quando, deveríamos ser extravagantes, como a mulher que comprou um perfume que valia um ano de trabalho para derramar sobre os pés de seu mestre, sem pensar nesse ato como um desperdício.
Pois esse é o meu desejo para mim mesmo, para o próximo ano... eu desejo tornar-me mais humano. Desejo aprender a amar e a deixar ser amado, Quero saber sonhar, acreditar e ter esperança no futuro. Quero voltar a me encantar com as coisas simples dessa vida e a ver algo mais nesta vida do que o custo e o benefício das coisas. Quero olhar as pessoas ao meu redor mais como seres humanos, e menos como coisas que posso usar para alcançar os nossos objetivos.
Em termos globais, o ano de 2013 provavelmente será tão ou mais difícil que o ano que passou. A economia está mal em quase todo o mundo, a violência está aumentando e a corrupção na política não para de nos surpreender. Mas isso realmente não deveria ser o nosso foco. Como todos os outros, eu desejo que, no ano de 2013, realizemos os nossos sonhos, tenhamos muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender. Mas eu desejo também que sejamos mais amantes, mais amigos, mais solidários, mais compassivos, mais humanos e mais vivos.
Feliz Ano Novo!
Hélio Fujimoto.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Feliz natal!
Suwon, 25 de dezembro de 2012
Esta mensagem de natal provavelmente vai soar meio melancólico porque eu não estou realmente no clima de natal. Sem a correria para procurar o presente perfeito para os nossos amigos e familiares, sem ceia de natal, sem árvores de natal, e sem estar junto às pessoas que eu mais amo...
Aqui na Coréia do Sul, as pessoas celebram o natal, mas a celebração é muito mais modesta. É possível perceber árvores de natal, lojas cheias e músicas natalinas em alguns lugares, mas não chega a ser a loucura que eu vi nos Estados Unidos e no Brasil. Não se fala muito em Papai Noel, é possível fazer compras tranquilamente, as decorações não são tão exuberantes, e muitas pessoas trabalham neste feriado. Creio que, por causa desta discrição, os cristãos coreanos talvez estejam mais próximos do sentido original do natal que os nossos irmãos brasileiros ou americanos.
Hoje em dia, é necessário um esforço muito grande para buscar o propósito original da celebração do Natal. No meio da correria que impomos a nós mesmos para decorar a casa, comprar presentes, preparar a ceia, ensaiar os coros de natal, assistir as apresentações e viajar para ver os familiares, nós facilmente perdemos o propósito de toda esta correria. A celebração do nascimento de Jesus é um assunto secundário diante de tantas outras prioridades para o final do ano. De uma certa forma, eu preferiria que nós, cristãos, desistíssemos de celebrar o nascimento de Jesus no final do ano, e procurássemos outra data para celebrar. Poderíamos até questionar se é realmente necessária uma data para isso: Afinal de contas, quem sabe exatamente em que data Jesus nasceu?
Mesmo assim, eu ainda vejo o Natal como um dia especial. Esta data é mais significativa aqui, no Hemisfério Norte, onde o Natal coincide com a época em que os dias são mais curtos e as noites mais longas. No inverno, a vida é mais difícil, as pessoas mais fechadas, mal-humoradas e deprimidas.
A escuridão desta época do ano simboliza a escuridão deste mundo. Normalmente, tentamos enxergar este mundo de uma maneira positiva, como se o progresso econômico e tecnológico fossem resolver os problemas da humanidade. Quando vemos o que acontece ao redor de nós, vemos que estes problemas continuam existindo: guerras, fome, violência e corrupção. Tornamo-nos cada vez mais solitários e isolados de outras pessoas, cada vez amando menos e sendo cada vez menos amados.
A escuridão que existe em cada um de nós tem o nome de pecado. O pecado não é apenas fazer alguma coisa que eu não deveria fazer. O pecado é a minha recusa em me submeter àquele que me criou e me deu a opção de segui-lo ou de viver a minha própria vida sem ele. O resultado desta rebelião foi a escuridão que vemos neste mundo dirigido por nós mesmos.
Foi neste contexto que Jesus nasceu. O nascimento de Jesus foi a resposta de Deus à nossa rebelião: ele não nos deixaria à nossa própria sorte, ele nos ofereceria uma salvação. Os cristãos crêem que o nascimento de Jesus foi talvez o maior milagre de todos: um Deus todo-poderoso resolve se transformar em um ser humano como nós. Ele nasceu como um bebê, teve uma família e cresceu como nós. Ele experimentou a alegria, a tristeza, a raiva, a angústia e a tentação como nós. Ele foi rejeitado, abandonado e condenado como nós às vezes somos. Mesmo assim, ele foi um homem especial: pudemos ver a Deus, a quem ele chamava de Pai, através daquilo que ele fez, ensinou e viveu. Jesus foi a luz neste mundo.
O Natal, portanto, é a estrela que é mais visível quando tudo está escuro. Quando a escuridão é maior, a vida é mais difícil, as pessoas estão mais deprimidas e a nossa carência é mais acentuada, o natal inspira algumas pessoas a pensarem além de si mesmos: ele dão de si mesmos para ajudar os mais necessitados, para dar palavras de encorajamento e para dar esperança aos que não tem esperança. Damos cartões e presentes aos outros para lembrar que nõs não estamos sozinhos neste mundo, mas temos pessoas ao nosso lado a quem queremos demonstrar o nosso amor e afeto. Acendemos luzes à noite para lembrar que haverá esperança, mesmo quando tudo estiver escuro.
Por isso, eu vejo o Natal como uma data para que eu lembre do que Jesus foi para mim: assim como a história é dividida entre antes e depois de Cristo, a minha história também está dividida entre o antes e o depois de Cristo. Um dia, Cristo nasceu em minha vida, e a minha vida não foi mais a mesma. O "Deus Forte, o Maravilhoso conselheiro, o Pai da Eternidade e o Príncipe da Paz" fez em mim o que ele tem feito a todos os que decidiram segui-lo: deu uma nova esperança, uma nova luz, uma nova vida, um novo propósito.
Por isso, quero desejar a todos vocês um Feliz Natal. Que este mesmo Jesus Cristo também seja a luz, a salvação e a esperança para as tuas vidas.
Um abraço
Hélio.
domingo, 16 de dezembro de 2012
Reflexões sobre o idealismo
Suwon, 15 de dezembro de 2012
Eu me considero um idealista... e isso, para mim, é mais uma desvantagem do que uma vantagem.
O desejo de buscar algo maior, mais alto e além da realidade em que eu vivo sempre foi uma paixão minha. Talvez instintivamente, eu sempre soube que o mundo não é perfeito, mesmo que não soubesse claramente a definição de perfeição.
Algumas pessoas conseguem conviver com esta realidade sem ter conflitos internos, simplesmente aceitando que o mundo é assim mesmo, e que o jeito é tentar viver aqui da melhor maneira possível. Eu não sou assim: existe algo dentro de mim que deseja consertar as coisas, mudar o que está errado e transformar este mundo em um lugar melhor para se viver. Algo dentro de mim também não se contenta com uma melhoria aqui e ali, como se isso fosse somente uma maquiagem para dar a impressão de que o mundo é menos ruim que ele realmente é. Eu anseio por um mundo ideal.
Eu sei que o mundo ideal não existe, e provavelmente nunca vai existir. A própria essência do mundo está corrompida, e eu concordo quando o apóstolo João diz que "o mundo jaz no Maligno". Com isso não quero dizer que não existem coisas boas neste mundo: o que quero dizer é que tudo neste mundo está corrompido pelo mal, mesmo as coisas que são intrinsicamente boas. A riqueza transforma-se em ganância, o poder em tirania, o sexo em pornografia, o patriotismo em xenofobia, a religião em fanatismo.
Mesmo assim, não consigo me conformar com isso. Preciso fazer alguma coisa. Preciso mudar.
Antes, porém, eu preciso olhar-me no espelho. Eu sou parte desse mundo, e a mesma corrupção que existe neste mundo existe dentro de mim. Muitas coisas que eu sei que eu deveria fazer eu não faço, e muitas que eu sei que não deveria fazer eu faço. Há uma força irresistível dentro de mim que me compele a buscar somente satisfazer o meu ego. Mesmo os gestos mais nobres que eu tento fazer vêm misturados com um pouco de egoísmo e arrogância. O Hélio que existe dentro de mim me incomoda mais do que este mundo: não sou o que eu desejo ser, e não sei se um dia eu serei.
Eu entendo que, a não ser que eu me transforme, não há como transformar o mundo. Alguns filósofos tem argumentado que é a sociedade que corrompe o homem. Por isso, fizeram um trabalho de engenharia social que transformaria o homem a partir da mudança de regime econômico: entendo que foi o que tentaram fazer com o regime socialista, implementado em vários países no século passado. O problema foi que as pessoas não mudaram: homens no poder continuavam sendo homens corrompidos, que usaram o seu poder absoluto para tornar-se tiranos absolutos; homens que antes trabalhavam para ganhar dinheiro não ganharam uma motivação mais nobre para continuar trabalhando, e só trabalharam à força. O regime não gerou compaixão nem solidariedade entre os cidadãos. Os países que se inspiraram em uma utopia para tentar estabelecer o céu na terra tornaram-se mais semelhantes a um inferno na terra. Por mais que eu me simpatizasse com a idéia de uma sociedade igualitária, eu tive de deixar esta ideologia de lado.
Foi nesse contexto que eu encontrei em Jesus Cristo aquilo que eu buscava. É difícil explicar como um homem que viveu há mais de 2000 anos poderia causar um impacto tão grande em minha vida, ao ponto de satisfazer o meu anseio por significado. Mesmo assim, vou tentar.
A minha parte preferida na Bíblia é a dos evangelhos, onde se descreve o nascimento, a vida, os ensinamentos, a morte e a ressurreição de Jesus. Eu lia a Bíblia nos meus tempos de escola fundamental, mas eu tive uma percepção diferente quando eu comecei a ler os evangelhos na minha época de faculdade. A vida de Jesus era a vida que eu queria viver. Era Jesus a quem eu queria seguir. A minha vida não mais estaria realizada se eu fosse bem-sucedido profissionalmente, se eu tivesse um carro novo e uma casa grande, se eu viajasse para algum lugar exótico, se eu tivesse uma família perfeita, ou se eu ganhasse bastante dinheiro. A minha vida seria completa se eu vivesse como ele.
Na minha opinião, mesmo sem ter tido todas estas coisas que fariam a maioria das pessoas felizes, Jesus viveu a vida mais intensamente que qualquer homem que eu tenha conhecido. Ele riu, chorou, repreendeu, zangou-se e angustiou-se como nós, mas ele amou mais apaixonadamente que qualquer um de nós. Ele não viu se a pessoa era rica ou pobre, santa ou pecadora, respeitável ou rejeitada pela sociedade. Ele os amou simplesmente por serem pessoas. Ele expôs a hipocrisia dos que se diziam representantes de Deus, mas acolheu os que eram chamados de pecadores. Ele tocou na vida das pessoas e elas foram curadas, não só fisicamente, mas mentalmente e espiritualmente. Ele se convidou para jantar com um cobrador de impostos corrupto: o convite não só foi aceito, como também este cobrador mudou completamente de vida. Pessoas doentes tocavam-no, e ele não se tornava doente: elas é que ficavam saudáveis. O que ele ensinou a seus discípulos tem inspirado até homens que resolveram não segui-lo.
Paradoxalmente, Jesus é a antítese do que o mundo diz que é a boa vida. Creio que, se Jesus viesse neste mundo agora, seria considerado um idiota, que rejeitou uma proposta de receber todas as riquezas e reinos deste mundo, que fugiu da popularidade, que pregou que devíamos perdoar os inimigos, dar a outra face, andar mais uma milha, acumular tesouros no céu ao invés de juntar na terra, que chamou de felizes os que eram pobres, sofredores, sedentos e perseguidos. Para a maioria das pessoas, viver aquilo que Jesus pregou seria um insanidade.
Também, creio que Jesus não seria benvindo na maioria das igrejas: ele provavelmente se encheria de ira ao ver o que chamam de "casa de Deus" se transformar em um "covil de ladrões"; provavelmente começaria a desmascarar a nossa aparência de santidade e nos chamaria de "sepulcros caiados"; provavelmente diria que a prostituta que trabalha do outro lado da igreja estaria mais perto de Deus que os frequentadores dela; se fosse possível, nós o crucificaríamos também.
Olhando imparcialmente a vida de Jesus, veríamos mais como uma tragédia do que uma vida digna de ser vivida. Mesmo assim, foi ali que a minha alma encontrou a resposta. Ele era a perfeição. Esta ele a quem eu estava desejando. Era ele a quem eu deveria buscar o resto de minha vida.
A minha maior dificuldade não foi a de começar a viver seguindo este novo ideal. A dificuldade foi encontrar a pessoa de Jesus neste ideal. A diferença entre Jesus e qualquer outra religião ou ideologia é que Jesus é uma pessoa que nasceu, viveu, morreu e, segundo os cristãos, ressuscitou. Mais que seguidor, ele quer que eu seja um amigo dele. Na busca por um ideal, eu muitas vezes negligenciei o relacionamento, pois tenho mais facilidade de lidar com idéias do que com pessoas. Jesus viveu a vida perfeita, mas não desprezou os que não conseguiam viver como ele, nem rejeitou os que fracassaram em segui-lo. Ele estabeleceu um ideal para a sua igreja, que seria o corpo de Cristo enquanto ele não estivesse mais aqui, mas não a destruiu por estar fracassando em sua missão.
Havia um elemento na vida de Jesus que me faltava, por não ser algo que eu poderia adquirir com algum esforço: a graça, o amor incondicional que perdoa, que tolera, que dá o que os outros não merecem. Eu preciso de graça para que não seja rejeitado por ter o meu coração sujo; preciso de graça para continuar a buscar a perfeição sem esquecer das pessoas que estão ao meu redor; preciso de graça para amar os que não conseguem enxergar a vida da mesma maneira que eu; preciso de graça para começar a viver como Jesus viveu.
Hoje, eu vejo que, mais que tentar viver a vida perfeita, eu preciso viver na graça. Preciso ver tudo como um presente de alguém que me ama ao invés de simplesmente o fruto do meu próprio esforço. Preciso sentir a liberdade de não precisar ser perfeito para ser amado e acolhido. Preciso experimentar dia a dia a convivência com um amigo que me ama muito e ser transformado com esta convivência. É permanecendo nele, e não buscando a perfeiçao, que eu poderei chegar mais perto de uma vida plena e abundante.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Reflexôes de 2002 [parte 1}
Há alguns meses eu estava arrumando o meu apartamento quando eu encontrei um caderno que eu usava para escrever as minhas reflexões sobre as minhas experiências pessoais. Eu fiquei admirado pela pessoa que havia escrito tudo aquilo: ele simplesmente não parecia ser eu mesmo, há dez anos atrás. O que ele escreveu tem sido uma inspiração para mim que, durante estes dez anos, parece ter perdido o rumo e está andando a esmo, sem saber para onde e para que.
Muitas coisas aconteceram desde que eu recebi a Cristo, em 1992, até a época em que eu escrevi estas reflexões. Entre os crentes, diz-se que o fato de eu ter recebido a Cristo em algum dia da minha vida já faz de mim uma pessoa salva, que irá para o céu quando sair desse mundo. Eu também cria desta forma, mas hoje eu vejo que a minha decisão em 1992 foi apenas um começo de uma jornada por um caminho estreito e difícil, cheio de perigos, seduções e dificuldades além da nossa capacidade de transpor. Muitas vezes, nós tropeçamos, os amigos e irmãos nos decepcionam, as promessas de Deus às vezes parecem não ter sentido, e os nossos sonhos são frustrados. A cada dia, um pouco de nós morre e vemos o quanto é vazia a nossa auto-confiança. Por outro lado, esta jornada revela surpresas que não esperamos: mesmo não estando conscientes disso, somos cuidados por Deus. Nos momentos difíceis, amigos andam ao nosso lado e ajudam a carregar o nosso fardo. Quando estamos feridos e cansados demais para continuar, um desconhecido aparece inesperadamente para nos acudir. Quando os nossos sonhos morrem, Deus coloca outros, mais altos, mais sublimes, para sonharmos.
Creio que a nossa atitude perante as dificuldades da vida está relacionada com a nossa essência. Para a maioria das pessoas, as dificuldades da vida endurecem o coração assim como a terra batida é dura por ter sido muito pisada. No entanto, algumas pessoas possuem uma "fragrância" dentro de si que só é exalada quando é quebrada, assim como um vidro de perfume: tornam-se doces, amáveis e compassivas. Creio também que essa essência é a própria vida nova que recebemos de Deus, que irá se manifestar no momento certo se cuidarmos bem dela. Muitas vezes eu me pergunto o que as dificuldades que eu tenho passado tem feito comigo, e estou chegando à conclusão de que está endurecendo o meu coração, pois essa nova vida parece estar definhando.
Por isso, relembrar de como eu pensava há dez anos atrás é tão importante para mim agora. Apesar de estar desorientado, eu ainda podia vislumbrar uma esperança à minha frente para continuar seguindo em frente. Esta esperança parece perdida hoje, e eu preciso desesperadamente reencontrá-la, para que a minha vida deixe de ser vazia e sem nada para oferecer a este mundo carente de esperança.
Boa leitura.
***
Até agora, não sei dizer se a transformação que ocorreu em minha vida desde que eu fui morar nos Estados Unidos em 1997 foi para melhor ou para pior.
É verdade que eu amadureci: aprendi a viver sozinho, a lidar melhor com a rejeição, a não acreditar em tudo o que os outros falam, a ser mais assertivo e a ter opiniões mais fortes.
Mas eu sinto que algo essencial no meu relacionamento com Deus foi perdido nesse processo. Depois de experiências amargas que tive com pessoas e com igrejas, Deus passou a parecer menos poderoso, menos sábio ou, pior, menos amoroso e gracioso do que eu imaginava que ele fosse.
A minha mente ainda crê em um Deus que é tudo o que a sua palavra diz, e que é muito mais do que eu possa imaginar. Já no meu coração, eu sei que há um limite para a confiança. Se não, por que eu tremo de medo e evito qualquer um que se dirige a mim para pedir alguma coisa? Não é Deus quem me protege? Eu realmente acredito nisso, ou não? Por que eu não consigo mais romper essa barreira e alcançar estas pessoas com o amor de Cristo?
Seria isso o que as pessoas chamam de "maturidade cristã"? Isso, para mim, é o simples abandono do primeiro amor: eu era criança, tornei-me adulto e independente, e preciso tornar-me uma criança novamente.
***
O meu propósito de vida era o de fazer diferença na vida dos que estão ao meu redor. Queria que a minha vida os inspirasse a buscar a Deus e preencher o vazio que eles tinham. Queria fazer discípulos e colocar neles um desejo de seguir o Senhor a qualquer custo.
Tive experiências amargas ao tentar cumprir este propósito. Algumas pessoas em quem "investi" o meu tempo, o meu dinheiro, as minhas orações e até alguns fios de cabelo não permaneceram: a maioria abandonou a igreja, e outros preferiram continuar a viver as suas vidas como se Deus não existisse. Enfim, o resultado foi zero.
Após sofrer com essa decepção, eu cheguei à conclusão de que o problema era que a minha atitude que estava errada. Via-me como alguém que iria ser "usado por Deus" para transformar outras vidas. Só não via os outros como pessoas que também poderiam edificar a minha vida, que também poderiam inspirar-me a buscar a Deus. Eu via-me como um "salvador da pátria" para eles e eles rejeitaram.
***
De uma certa forma, as minhas "obras de misericórdia" tinham sido um movimento de cima para baixo. Eu via-me como um "homem decente" que estava com pena daqueles mendigos de meninos de rua. Então, eu ia, comprava comida, conversava com eles, e saía de lá "orgulhoso" por ter sido misericordioso com eles. Acho que está na hora de eu fazer estas obras com outra atitude.
Certa vez, Cristo afirmou que "todas as vezes que fizerdes a um desses pequeninos, a mim estarão fazendo". A Madre Teresa interpretava esta afirmação literalmente. Ela via Jesus em todos os mendigos, leprosos e moradores de rua, e servir ao Rei dos Reis significava servi-los com amor e alegria. Somos simples servos destas pessoas, e eu não estou simplesmente demostrar minha bondade para com eles. Ao servi-los, estamos fazendo aquilo que é o nosso maior privilégio: servir o meu Senhor.
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Quando eu era criança, eu sonhava em ser lembrado por ter feito algo grandioso para a humanidade. Acho que eu tinha alguma mania de grandeza.
Hoje, no dia em que eu morrer, quero ser lembrado não como alguém que fez uma fortuna, que construiu impérios, que fez grandes coisas, que levou multidões para Cristo, e nem mesmo como alguém que foi um bom empregado, um bom filho, um bom marido, um bom pai ou um bom membro de igreja.
Eu quero simplesmente ser lembrado como o "discípulo a quem Jesus amou", e que foi profundamente transformado por esse amor.
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Por muito tempo, eu tenho crido que o "amor ao dinheiro é a raiz de todos os males". O amor ao dinheiro, não o dinheiro em si, é a raiz de todos os males. Eu ainda penso assim, mas creio que há mais um detalhe.
Assim como dizem que o poder corrompe o homem, creio que o dinheiro também corrompe. As pessoas que (como eu?) têm demais tem a tendência de confiar naquilo que elas tem, e também de ficar dependentes dele. Um bom exemplo disso é a tecnologia: muitos já não conseguem viver sem um telefone celular, algo que não fazia nenhuma falta às pessoas que viviam há dez anos atrás sem ele. Ao invés de simplificar as nossas vidas, ela está complicando e fazendo-nos dependentes delas.
Tenho a impressão de que, quanto mais eu tenho, mais complicada a minha vida fica. Tenho de gastar vários dias para declarar o imposto de renda e alguns cabelos brancos preocupando-me com as aplicações que tenho no banco. Mas o que mais tem-me afetado é que a distância com as pessoas também aumentou. O medo de ser assaltado, de ser enganado e de tomarem aquilo que eu tenho tem afetado até mesmo o meu relacionamento com a minha esposa. Dentro de mim, eu sinto o "deus dinheiro" ocupando uma posição cada vez maior na minha lista de prioridades.
Com tudo isso que está acontecendo comigo, eu tenho visto com outros olhos o que Jesus disse ao jovem rico: "Venda tudo o que você tem, dê aos pobres, e terás um tesouro no céu". Talvez, para o meu próprio bem, eu devesse eliminar de vez esse ídolo da minha vida, se é que isso é possível. De uma certa forma, eu anseio por uma vida mais simples, com a única preocupação de "buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça". Afinal de contas, esta é a única coisa que vai durar eternamente.
Muitos amigos consideram-me avarento, "pão-duro", e muitas vezes a minha esposa reclama que eu sou muito pouco generoso comigo mesmo (por outro lado, muitas vezes eu exijo dela a minha frugalidade). Eu concordo com os meus amigos em parte: o que eu tenho é um presente de Deus, que eu deveria desfrutar e, de vez em quando, usá-lo para acudir as pessoas ao meu redor. Alguns corrigir-me-iam, dizendo que 90% é meu. No entanto, eu tenho um grande problema com isso: não acho que o consumismo é o remédio para a minha avareza. Que direito tenho eu de ter um monte de coisas que eu mal uso, de pagar para que os outros me sirvam, e viver com extravagância, enquanto a maioria da população mundial tem dificuldades para ter o que comer? Creio que, mesmo sendo avarento, se cada um dos bilhões de habitantes que vivem nesse planeta consumissem a mesma quantidade de coisas que eu consumo, os recursos deste planeta se esgotariam em poucos anos.
Gostaria de não ter a consciência me acusando quando eu me dou um presente com o fruto do meu trabalho, mas no momento eu tenho problemas com isso.
Introdução
Suwon, 14 de dezembro de 2012
Uma das minhas promessas para o ano que vem será o de compartilhar em um blog as reflexões sobre a minha caminhada nesta vida.
Há muito tempo desejei fazer algo desse tipo. Uma das razões para eu escrever é que eu me expresso melhor escrevendo do que conversando. Eu invejo as pessoas que conseguem construir amizades facilmente e sentem-se à vontade para simplesmente conversar. Eu não sou assim: sou retraído quando estou no meio de pessoas estranhas e tenho dificuldades de expressar verbalmente os meus sentimentos até mesmo com as pessoas que conheço bem. Sinto-me isolado do mundo, sem ter com quem compartilhar as coisas que estão na parte mais profunda da minha alma. Ao mesmo tempo que eu anseio por relacionamentos, o meu temperamento afasta-me deles.
Neste blog, às vezes vou escrever coisas que parecerão muito "religiosas", principalmente para os que não tem muita familiaridade com o "evangeliquês". Quando escrever sobre isso, tentarei não usar termos deste idioma, embora saiba que muitas vezes isso será inevitável. Espero que isso não intimide os que não tem fluência. Mesmo assim, creio que o meu relacionamento com Deus é uma parte importante (se não a mais importante) da minha essência. Mesmo antes de ter a convicção da minha fé, eu sentia algo faltando na minha vida, que não podia ser preenchida com dinheiro, nem com conhecimento, nem com diversão, nem com nada que este mundo poderia me oferecer. Eu sentia um vazio do tamanho de Deus, como dizia o filósofo Pascal. Ao folhear o meu diário de faculdade, eu percebia o quanto eu tinha fome de Deus, antes mesmo de considerar me filiar a alguma religião ou de frequentar alguma igreja.
Também, o meu objetivo aqui não é dar aulas de religião ou providenciar frases de efeito que poderão ser compartilhadas nas redes sociais. Eu não gostaria de ter seguidores, mas de amigos que caminhem junto comigo, que me dêem palavras de consolo quando eu estiver escrevendo coisas muito deprimentes, e que me dê encorajamento para continuar em frente, mesmo desanimado. A minha caminhada com Deus não deveria ser solitária como está sendo agora. Ela deveria ser feita em grupo, onde companheiros de caminhada andam juntos, dividem as cargas, ajudam nas dificuldades dos outros, encorajam-se mutuamente, e até mesmo carregam o seu companheiro quando ele não tem mais forças para continuar. Uma das cenas mais emocionantes do último filme da trilogia "O Senhor dos anéis", foi quando Sam, vendo que o seu companheiro Frodo sucumbir diante do fardo de levar o anel até o local onde ele seria destruído, disse que não poderia carregar o anel pelo seu amigo, mas que podia carregá-lo. Será que algo desse tipo seria possível em uma realidade como a nossa, onde cada um vive para si, e onde nem a igreja parece ser um ambiente propício para se desenvolver relacionamentos assim? Gostaria que fosse.
Mesmo assim, não quero colocar um fardo para os leitores, cobrando deles algo que eu mesmo não poderia oferecer no momento. Para os que simplesmente desejam ler o que eu escrevi, o meu último pedido: descartem tudo o que não fizer sentido para vocês, ou o que for motivo de escândalo ou contendas. Também não desejo fazer disso um painel de discussões sobre teologia ou sobre a existência ou não de Deus. Tudo o que eu quero é expor o que está no meu coração.
Boa leitura.
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