segunda-feira, 14 de abril de 2014

O nome de Jesus

Eu li um livro muito interessante há dez anos atrás, chamado Blue Like Jazz, de Donald Miller (não sei se ele já foi traduzido para o português). Trata-se de um testemunho da vida espiritual do autor do livro, em uma linguagem incomum: os personagens fumavam, bebiam, drogavam-se e falavam palavrões, ao mesmo que abordavam profundamente vários aspectos da espiritualidade cristã.

Mesmo assim, este seria somente um dos muitos livros que eu já havia lido antes. Como poucos livros, porém, um trecho de seu testemunho chamou-me atenção a ponto de eu lembrar-me dele, mesmo dez anos depois. Estou traduzindo essa história abaixo:

"Um conhecido meu que se chamava Alan andou pelo país fazendo perguntas sobre líderes de ministérios. Ele visitou igrejas bem-sucedidas e perguntou aos pastores o que eles estavam fazendo, e por que o que eles estavam fazendo estava funcionando. Parecia tudo muito chato, exceto por uma visita que ele fez a um homem chamado Bill Bright, presidente de um grande ministério. Alan disse que ele era um homem grande, cheio de vida, que ouvia sem desviar os seus olhos. Alan fez algumas perguntas. Eu não sei quais eram, mas no final ele perguntou ao Dr. Bright o que Jesus significava para ele. Alan disse que o Dr. Bright não pôde responder a pergunta. Ele disse que o Dr. Bright simplesmente começou a chorar. Ele sentou em sua cadeira grande atrás de sua mesa grande e chorou.

Quando Alan contou essa história eu tentei imaginar como seria amar a Jesus daquela maneira. Honestamente, eu fiquei pensando se aquele tal de Bill Bright só estava louco, ou se ele realmente conhecia Jesus pessoalmente, tão bem que ele choraria só em mencionar o seu nome. Então, eu soube que eu gostaria de conhecer Jesus daquela maneira, com o meu coração, e não apenas com a minha mente. Eu senti que aquilo seria a chave para alguma coisa."

Eu também senti isso. Sempre achei que algo estava faltando em minha vida, algo que me fizesse chorar só em mencionar o nome de Jesus. Para dizer a verdade, eu já senti as lágrimas correrem dos meus olhos em alguns momentos especiais: ao ouvir uma cantata de páscoa ou assistir os sofrimentos de Cristo no filme A Paixão de Cristo, por exemplo. No entanto, se me perguntassem o que Jesus significava para mim e eu não estivesse assistindo a cenas fortes, eu provavelmente responderia calmamente, talvez até de uma forma descontraída.

O terceiro mandamento diz que não devemos tomar o nome de Deus em vão. Eu sempre interpretei esse mandamento como se o nome de Deus devesse ser guardado em um depósito, da qual só poderia ser retirado e utilizado nos momentos sagrados, em que estivéssemos realmente querendo clamar o seu nome. Pecado seria, por exemplo, se exclamássemos "Meu Deus!" ou "Jesus Cristo!" ao vermos o arroz queimado ou o pneu do nosso carro furado. Nos tempos antigos, a cada vez que o nome de Deus precisava ser mencionado, os judeus tinham de passar por um ritual complexo de purificação a fim de não profanar o seu nome. Era tão pouco pronunciado que não se sabe mais a sua pronúncia: somente as consoantes foram preservadas.

Hoje, eu vejo esse mandamento de outra forma. Eu creio que, quando Deus mencionou esse mandamento, ele queria que o seu povo fosse tão ligado a ele que a própria menção de seu nome movesse as suas entranhas. Ele queria que as lágrimas começassem a sair de seus olhos, que as suas vozes ficassem embargadas e que seus corpos tremessem, só de pronunciar o seu nome.

Afinal de contas, aquele povo era somente um punhado de homens desprezíveis, escravos de um poderoso império. De repente, o Deus de seus antepassados resolve agir e, espetacularmente, liberta esse povo da escravidão. Ele envia pragas para o império egípcios até dobrar a vontade do Faraó. Ele parte o mar ao meio e faz seu povo passar pelo mar, para depois afogar os seus perseguidores. Ele guia o seu povo no meio do deserto, suprindo-os com alimento e água. Ele adota esse povo para ser a menina dos seus olhos. O que fazer diante de um Deus desse, senão ser movido somente pela menção de seu nome?

No entanto, a ingratidão e a indiferença que Deus sofreu com o povo que ele amou é a mesma ingratidão e a mesmo indiferença que eu na maioria das vezes dispenso a Jesus. Eu já perdi as contas dos números de vezes em que eu cantava sobre Jesus em um minuto e esquecia o que havia cantado no minuto seguinte. Quantas vezes eu orei "em nome de Jesus" como se esse nome fosse uma palavra mágica que abriria as portas dos céus? Quantas vezes eu mencionei o nome de Jesus casualmente, como se esse nome não fizesse muita diferença na minha vida?

Talvez essa atitude seja simplesmente por eu ter vivido muito pouco com ele. Existe uma história bastante contada nos púlpitos das igrejas: um orador e um senhor idoso foram declamar o salmo do bom pastor. O orador, utilizando-se de todas as técnicas de oratória, declamou o salmo com tanta eloquência que arrancou aplausos da platéia. Já o senhor idoso declamou o mesmo salmo com a voz trêmula e baixa, como se estivesse se dirigindo a uma outra pessoa. No final do salmo, muitos ouvintes estavam com lágrimas nos olhos. O orador conhecia o salmo do bom pastor, mas o senhor idoso conhecia o bom pastor do salmo. Ao meu ver, não há como andar com ele, aprender com ele, conversar com ele e seguir os seus passos sem apreciá-lo, amá-lo e respeitá-lo profundamente.

Para dizer a verdade, talvez falte recordar o que Jesus já fez comigo e meditar sobre o que ele está fazendo comigo agora ...

Lembro-me da época em que eu estava estudando na faculdade, vazio por dentro por constatar que tudo o que eu persegui a minha vida toda não passava de um punhado de vento. Lembro-me de como Jesus me buscou e batalhou contra as minhas convicções, até que eu, vencido e derrotado, entreguei-me a ele, meio que a contragosto.

Lembro-me de como, estranhamente, brotou alegria e paz da minha derrota, de como o meu vazio foi preenchido e de como descobri nele um novo propósito na minha vida.

Lembro-me de como me eu apaixonei por Jesus, desejando tornar-me seu discípulo, aprender com ele, andar com ele e dar a minha vida por ele. Lembro-me da época em que eu desejei abrir mão da minha carreira profissional para servi-lo.

Lembro-me de quando eu senti-me frustrado quando os meus planos de servi-lo não deram certo, e de quando ouvi o eco das palavras de Jesus: "alegre-se não porque os demônios submetem-se a você, mas porque o seu nome está escrito no Livro da Vida". O seu amor por mim era mais importante que o meu serviço para ele.

Lembro-me dos momentos em que, como uma criança mimada, eu dei as costas para ele por não conseguir algo que eu desejava muito, quando ouvi mais uma vez a sua palavra: "a minha graça te basta". Eu já tinha tudo o que precisava.

Lembro-me de quando eu lutava dolorosamente contra uma tentação, e busquei em Jesus as forças para resistir. Muitas vezes eu caí, mas pude apoiar-me nele para levantar e continuar lutando.

Lembro-me dos momentos em que eu estive sozinho em uma terra estranha, sem amigos que pudessem me compreender, em que a minha única fonte de apoio e consolo estava em Jesus. A ele eu expunha a minha angústia, a minha dor, o meu sentimento de rejeição, e até mesmo a minha raiva.

Lembro-me de quando eu estive no limite das minhas forças por causa das pressões em casa e no trabalho, e de quando descobri que o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza. Pois quando estou fraco, aí é que estou forte.

Lembro-me de quando eu, decepcionado com igrejas e com tudo o mais que dizia fazer as coisas em "nome de Cristo", afastei-me do convívio com outras pessoas que criam no mesmo Cristo, e de como Jesus, gentilmente, tem conduzindo-me de volta à sua casa.

Certamente, a minha história ainda não está completa. Há muitas experiências ainda a serem vividas, muitos capítulos a serem escritos e muitos quilômetros para andar com ele. Há ainda muitos lugares escuros que precisam ser iluminados pela sua luz, e sujeiras que precisam ser limpas. Há muito ainda para aprender a viver plenamente da sua graça, e há muito mais para aprender a confiar plenamente nele. Mesmo assim, o pouco que eu já vivi com ele deveria ser o suficiente para que o meu coração batesse mais forte, os meus pés tremessem, as lágrimas caíssem dos meus olhos e eu não conseguisse mais falar, só de mencionar o nome de Jesus.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O mal dentro de mim

Neste último mês eu terminei de assistir a série Breaking Bad pela internet. Para os que nunca ouviram falar, esta foi uma série de TV, bastante elogiada pela crítica, que conta a história de um professor de química que recebe a notícia de que está com câncer terminal e, por isso, resolve usar o seu conhecimento de química para fabricar uma droga sintética chamada metanfetamina.

Eu comecei a assistir o programa por curiosidade: gostaria de saber o que fazia essa série ter tantos admiradores. Ao assisti-la, comecei a incomodar-me com o modo como eu estava me envolvendo com a história: de fato, eu estava torcendo pelo protagonista. Eu estava tão envolvido com o drama do "cozinheiro" que algo dentro de mim aplaudia quando ele acumulava dinheiro com a fabricação das drogas, festejava quando ele assassinava um traficante, respirava aliviado quando ele escapava de uma armadilha e alegrava-me quando ele conseguia enganar um policial. Eu percebia que, à medida em que a série progredia, o professor de química tornava-se cada vez mais vingativo, violento, avarento, arrogante e manipulador. No entanto, eu estava tão envolvido com a história que eu já não me importava mais com a justiça nem com as vítimas que eram afetadas pelos seus crimes.

Após terminar de assistir a série, parei para pensar no quão diabólico eu era. Provavelmente, se eu estivesse na situação do personagem da história, eu não seria capaz de fazer o que ele fez ... ou seria? Teria eu algum potencial para o mal, que poderia ser ativado por alguma circunstância em que eu já não teria mais nada a ganhar sendo uma pessoa de bem?

Creio que um dos encantos da série tem a ver com o modo como o mal é retratado. Na série, o mal tem história, tem rosto, tem dramas pessoais e tem motivações, e isso faz com que nos identifiquemos profundamente com ele. O mal na vida real nunca é retratado inicialmente como um ser horripilante de cor vermelha com chifres na cabeça. O personagem da série iniciou a sua carreira de crimes com uma causa nobre: prover condições para a sua família se sustentar após a sua morte. Nós também racionalizamos o mal que cometemos para aplacar a nossa consciência: depredamos lojas e bancos porque lutamos pela justiça social, traímos o nosso cônjuge porque a nossa vida sexual está insatisfatória, aceitamos subornos porque todo o mundo faz isso, roubamos porque somos vítimas de uma sociedade injusta.

Na verdade, se realmente investigarmos a nossa consciência, chegaremos à conclusão de que o mal nos é atraente e sedutor. No final da história, o personagem reconhece que ele não cometeu todos aqueles crimes por causa da família: ele estava realmente gostando de praticar o mal. Da mesma forma, conheço amigos que confessaram ter roubado coisas em supermercados e bares que eles teriam perfeitas condições de pagar: eles roubavam simplesmente pelo prazer de roubar. O mal faz-nos sentir vivos e poderosos, acima dos mortais que são impedidos, pela consciência ou pelo medo, de fazê-lo. Aparentemente, a vida de uma pessoa honesta definhando para a morte é mais entediante e desinteressante que a de um indivíduo que "chuta o balde", resolve entrar na carreira do crime e envolve-se em uma vida cheia de aventuras e perigos.

Mesmo assim, recusamos a admitir para nós mesmos e para os outros que fazemos o mal. Temos a tendência de esconder o mal que existe em nós, como se o nosso subconsciente tivesse uma fossa onde depositamos tudo o que existe de errado dentro de nós e lacramos para que nunca mais seja aberta. Adão e Eva cobriram a sua vergonha com folhas de figos: com o tempo, as nossas táticas para esconder a nossa parte podre tornaram-se muito mais sofisticadas. Escondemo-nos por trás de máscaras que tentam mostrar a outras pessoas somente aquilo que queremos que elas vejam em nós. Transformamo-nos sepulcros caiados: brancos e impecáveis por fora e podres por dentro. Amamos mais a escuridão que a luz, pois a escuridão permite-nos esconder aquilo que não queremos mostrar aos outros.

No entanto, cobrir o mal não nos faz pessoas boas. Muito pelo contrário, o mal é uma doença degenerativa que se alastra pela nossa alma e contamina todas as áreas da nossa vida se não for tratada a tempo. Eu compararia o pecado com o câncer: o pecado que é iniciado com um pequeno "malfeito" pode transformar-se em crime hediondo, se não for tratado e removido. O professor que começou fabricando drogas matou um traficante pela primeira vez para se defender; mais tarde, atropelou dois outros traficantes para salvar seu companheiro; após mais alguns capítulos, explodiu um quarto onde estava um chefe do tráfico de drogas, mandou matar um punhado de traficantes de dentro das prisões para queima de arquivo e, finalmente, dizimou uma quadrilha inteira. Não só os crimes tornaram-se cada vez mais graves: à medida em que a série progredia, notava-se uma mudança progressiva no caráter do protagonista. um trabalhador simples, honesto e altruísta estava, aos poucos, sendo transformado em um traficante egoísta, cruel, vingativo, ganancioso, insaciável e presunçoso: ele estava tornando-se o próprio filho do diabo. Da mesma forma, vejo-me obrigado a combater o mal dentro de mim constantemente. Quando eu percebo, por exemplo, que fiz um comentário maldoso sobre uma pessoa que me fez algum mal, sei que esse comentário "inocente" pode transformar-me em um sádico que tem prazer em destruir a vida de outras pessoas através do veneno que eu injeto através das minhas palavras. O pecado cometido no Jardim do Éden não foi meramente um pequeno ato de desobediência a Deus: ele foi uma pequena semente que germinou, cresceu e transformou-se no mal como conhecemos neste mundo.

A maior tragédia do mal é que ela sempre cobra a sua fatura. O preço de se fazer o mal não está explícito no contrato que assinamos ao vender a nossa alma, mas ele existe. Na série, os crimes cometidos pelo químico afetaram não só a vida dele, mas também a de todas as pessoas ao seu redor. A sua esposa envolveu-se em um esquema de lavagem de dinheiro, o seu cunhado foi morto pela quadrilha que trabalhava para ele, e o seu filho denunciou-o à polícia. A família pela qual ele estava cometendo crimes foi destruída como consequência de seus atos. Mais grave e doloroso que o câncer de pulmão que ele tinha em seu corpo foi o câncer do pecado que ele deixou tomar conta de sua alma.

De fato, o apóstolo Paulo escreveu que o mal realmente tem um preço: a morte. Eu já havia escrito anteriormente que nós não fomos criados para morrer; portanto, a morte foi o preço cobrado pelo mal que escolhemos fazer. Mesmo assim, creio que a morte é muito mais que o cessar das nossas atividades vitais: nos textos bíblicos, a vida e a morte têm mais a ver com o nosso destino na eternidade. Existem várias formas de se ver a morte eterna, mais conhecida como o inferno. Com o risco de ser simplista demais, a minha visão de inferno é a de um estado onde as pessoas sofrem por estarem consumidas pelo desejo de fazer o mal, mas sem a alegria, o entusiasmo e a sensação de poder que ele trazia. Assim como os dependentes de drogas, elas tornaram-se reféns do mal que, lentamente, foi atraindo-os a uma armadilha da qual não podem mais escapar.

A Bíblia conta uma história de um personagem que também envolveu-se profundamente com o mal. Um rei, no ponto mais alto de seu reinado, vê uma mulher pela sacada e, mesmo sabendo que é a esposa de um dos seus mais leais soldados, resolve adulterá-la. Quando ela engravida, o rei tenta de todas as formas fazer com que o soldado deite-se com ela para encobrir o motivo da gravidez. Quando essa tentativa falha, ele envia o soldado para a frente de batalha, à mercê de seus inimigos, para que morresse. Com o assassinato do marido, a mulher casou-se com o rei.

O nome desse rei era Davi, o homem segundo o coração de Deus. Eu imagino que, se ele foi capaz de cometer uma atrocidade dessas, por que eu, que estou tão longe de ser "segundo o coração de Deus", poderia pensar que isso nunca aconteceria comigo? De qualquer forma, um dia ele foi confrontado pelo seu pecado e arrependeu-se amargamente pelo que havia feito. Mais tarde, ele confessou em um de seus salmos que o mal não era mesmo tão prazeroso como se imaginava:

"Enquanto escondi os meus pecados, 
o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite 
a tua mão pesava sobre mim; 
minha força foi se esgotando 
como em tempo de seca."

Na minha caminhada, eu aprendi que o peso da mão de Deus sobre mim quando eu faço o mal é a maior prova do seu cuidado e do seu amor por mim. Quando o meu corpo geme e a minha alma se desfalece quando eu cometo algum pecado, há esperança para mim de escapar das armadilhas do inferno. Através da dor, eu posso voltar atrás, confessar o mal que estava fazendo, confiar no perdão de Deus e recomeçar a caminhada de onde e me desviei.

Dessa forma, aos trancos e barrancos, chamuscado por todos os lados por causa dos pecados que cometi, mancando de tanto tropeçar nas decisões tolas que eu tomei, e atingido por várias setas inflamadas do inimigo por não preparar-me o suficiente para proteger-me dos perigos, eu pretendo chegar até o meu destino final carregando aquilo que eu tenho de mais precioso: a vida de Cristo em mim. Foi Cristo que fez-me ver que há muito mais encanto, alegria, poder e plenitude em fazer o bem do que viver em uma vida de pecados. Por isso, creio que esta esperança é o que irá conduzir-me à eternidade, mesmo tendo eu o mal dentro de mim.