domingo, 24 de dezembro de 2017

Boas Festas



Finalmente, chegamos a mais um final de ano. Estamos nos preparando para as festas, com árvores, luzes, enfeites, presentes, banquetes, corridas para os shopping centers - como sempre ocorre todos os anos. Enchemos as caixas postais dos nossos familiares, amigos e colegas com os nossos votos de boas festas, com muita paz, felicidade, saúde e prosperidade. Declaramos a nossa esperança de um mundo de paz e união para os próximos anos.

Como acontece todos os anos, meu lado cético questiona se estes desejos tem alguma consistência ou se não passam de palavras vazias. Será que realmente acreditamos em tudo aquilo que desejamos a eles? Será que os nossos desejos realmente fazem alguma diferença?

Para dizer a verdade, um dia eu acreditei que deveria lutar por um mundo perfeito, um mundo cheio de paz e felicidade. Na minha juventude, cresci ouvindo canções que nos convidavam a sonhar e a lutar por este sonho. Uma destas canções tornou-se uma espécie de hino para a minha geração. A tradução desta música para o português é mais ou menos o seguinte:

Imagine um mundo sem paraíso 

É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós 
E acima de nos exista somente o céu.
Imagine todas as pessoas vivendo somente para o hoje.

Imagine um mundo sem país

Não é difícil de fazê-lo
Nada pela qual morrer ou matar
E também nenhuma religião.
Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz, você....

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas não sou o único.
Espero que um dia você possa juntar-se a nós 
E o mundo será como um.

Imagine um mundo sem posses

Eu imagino se você pode fazê-lo
Nem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas compartilhando todo o mundo, você....

Com estes versos, toda uma geração imaginou uma utopia de um mundo sem ódio, sem ganância e sem guerras, um mundo tão perfeito que não mais seria necessário crer que existiria um paraíso em um lugar além do céu. Acreditamos que, se lutássemos por este ideal, um dia veríamos um mundo transformado, mais justo, mais harmonioso, mais fraterno. 

Passaram-se 46 anos desde que John Lennon compôs a canção Imagine. Como podemos descrever no que o mundo se tornou? O que é o nosso mundo, o nosso país, a nossa comunidade e a nossa família após tantos anos de luta?

O mundo continua cheio de ganância e fome. A pobreza continua afligindo mais da metade da população mundial e os ricos continuam se tornando cada vez mais ricos - incluindo os ricos que abraçaram o ideal de igualdade. Homens públicos que pregavam justiça social e distribuição de renda acabaram tornando-se tiranos que escravizaram o povo e se enriqueceram à custa dele.

O mundo não se tornou um. Mais do que nunca, o mundo está fragmentado, e as divisões parecem estar se tornando cada vez mais extremas. Ricos contra pobres, empregadores contra empregados, brancos contra negros, homens contra mulheres, heterossexuais contra LGBT, direita contra esquerda, liberais contra conservadores, corinthianos contra anti-corinthianos - tudo parece ser motivo de discussões e  ofensas pessoais. Ao ler os posts das redes sociais e dos grupos de WhatsApp, eu vejo como estas divisões estão se tornando cada vez mais amargas e irreconciliáveis.

O mundo não se tornou uma irmandade de pessoas felizes e em paz umas com as outras. Notícias de guerras, de massacres, de perseguições e de atrocidades multiplicam-se pelo mundo. No Brasil, o nível de violência aumenta a cada dia, a ponto de atingir níveis insuportáveis para o cidadão comum. Na Europa e nos Estados Unidos, não se passa mais de uma semana sem que se leia notícias sobre algum atentado terrorista. Milhões de pessoas tiveram de sair de seu país de origem para fugir de uma guerra no Oriente Médio.

Mais do que nunca, o mundo tem causas pelas quais as pessoas tem matado e morrido, tanto as relacionadas com religiões como as relacionadas com ideologias. Não faltam homens-bomba dispostos a explodir a si mesmos e a outros ao seu redor para declarar a sua fidelidade a uma causa. Culpamos a religião e o nacionalismo como os causadores de todas as guerras, mas esquecemos que o nosso próprio sonho tornou-se uma causa pela qual as pessoas fazem manifestações, invadem escolas e propriedades alheias, destroem pontos de ônibus e agências bancárias, picham os muros da cidade e até mesmo matam e morrem. Criamos uma nova "religião" com esta utopia. 

Finalmente, eu vejo um mundo com pouca esperança. Parece-me que o desmoronamento desta utopia deixou um vazio em nós e transformou-nos em céticos, desconfiados de qualquer um que ainda nos convide a sonhar por um mundo melhor. Hoje, não mais acreditamos que podemos mudar o mundo - cremos que a única saída é a fuga. Dizemos que a saída para o Brasil é o aeroporto de Cumbica, mas não encontramos no mundo um lugar que não esteja com problemas. A mesma desesperança propaga-se para o nível pessoal: preferimos fugir dos problemas que temos no nosso dia-a-dia do ao invés de enfrentá-los. Fugimos da nossa comunidade, da nossa família, do nosso casamento e até mesmo da nossa vida - porque não temos esperança.

O que houve de errado com este sonho? Por que o mundo se tornou exatamente o oposto do que imaginávamos?

A minha opinião é que sonhamos com um mundo perfeito e removemos o único elemento de perfeição deste mundo. Declaramos que a religião e a crença em um céu e um inferno não só eram inúteis, mas também eram obstáculos à concretização deste ideal. Buscamos de todas as formas eliminar tudo o que remetesse ao Cristianismo no espaço público, e proclamamos aos quatro cantos da terra que "Deus estava morto". Com isso, cortamos a raiz da árvore e penduramos frutas de plástico nos galhos, com a esperança de que um dia elas se tornassem frutas de verdade.

O fato é que, se existe algo de errado com o mundo, este algo sou eu. Não adianta lutar por um mundo melhor sem antes lutarmos para sermos pessoas melhores. Também, não podemos nos tornar pessoas melhores sem estarmos conectados àquele que nos faz pessoas melhores. O maior problema do mundo é que estamos desconectados de Deus, o único que pode trazer o bem a este mundo.

Hoje é noite de Natal, uma data comemorada pelos cristãos do mundo todo como o nascimento de Jesus Cristo. Para nós, Jesus foi a concretização de uma promessa de Deus de trazer o seu filho para restaurar o mundo ao que deveria ter sido. Para nós, Jesus é o início e o fim de tudo: diante dele, até mesmo as melhores coisas que este mundo tem a nos oferecer são - como disse o apóstolo Paulo - esterco. Para nós, a paz sem Cristo é monótona e entediante, a alegria sem Cristo é vazia e sem vida, o amor sem Cristo é superficial e passageiro e a prosperidade sem Cristo só produz orgulho e ganância. Como uma porção de notas musicais sem um compositor que as organize para formar uma bela peça de música, assim são todas estas coisas que desejamos aos outros se não desejarmos Jesus a eles.

Por isso, o meu voto para este final de ano não é para que vocês tenham paz, alegria, felicidade, harmonia, saúde, prosperidade e realização. Meu voto é para que vocês recordem e se encantem com a mais bela história de amor da história da humanidade.

Lembrem-se da promessa de um Messias feita para o povo judeu, cinco séculos antes do Natal.

Lembrem-se de que Deus usou uma jovem adolescente para trazer o Filho de Deus ao mundo, uma jovem cuja única qualificação foi ter sido obediente a seu Senhor sem se importar com as consequências.

Lembrem-se de como Jesus se identificou com os miseráveis, ao nascer em um local sem as menores condições para um parto.

Lembrem-se de como as boas-novas foram anunciadas em primeira mão a um grupo de pastores sem nenhum valor para a sociedade, com direito a um coro de anjos.

Lembrem-se de como as boas-novas chegaram até mesmo a um lugar remoto, de onde um grupo de sábios seguiu uma estrela até encontrar o rei que havia acabado de nascer, para oferecer-lhe presentes.

Lembrem-se de como Jesus se identificou com os refugiados, quando sua família for forçada a fugir para o Egito diante das ordens de Herodes de matar todos os bebês de Belém.

Lembrem-se de que o bebê que nasceu no Natal cresceu, tornou-se homem e viveu entre nós. Lembrem-se de que, por onde passou, trouxe vida, esperança e cura. Lembrem-se de que, para nos reconciliar com Deus, ele entregou a sua vida em uma cruz. Lembrem-se de que, mesmo tendo morrido, ressuscitou e trouxe-nos a verdadeira esperança.

Meu desejo é que, ao lembrar desta história, a semente da "esperança viva" nasça e germine no coração de vocês, e que ela cresça e produza frutos de amor, alegria, paz, paciência, bondade e fidelidade - frutos que sejam bons, saborosos, e que abençoem as pessoas ao seu redor, onde quer que vocês estejam.

Meu desejo é que, sem alarde, o amor de Cristo continue a transformar o mundo - uma vida por vez.

Feliz Natal!