quinta-feira, 9 de maio de 2013

A origem das espécies

Há alguns dias atrás, eu li a reportagem de uma bióloga que estava surpresa por constatar que a teoria que explica a origem das espécies pela seleção natural, elaborada por Charles Darwin, ainda era tão controversa depois de três séculos. Para ela, a teoria da seleção natural deveria ser tão amplamente aceita como a lei da gravidade, por exemplo. Dentre os comentários que eu li sobre a reportagem, alguém chegou a comentar que os que levam a teoria de "design inteligente" a sério eram ignorantes ou mal-intencionados, tão óbvia era a validade da lei da seleção natural.

Para dizer a verdade, eu considero a teoria de Darwin correta, talvez mais por "fé" do que por convicção. Como não consigo compreendê-las completamente, eu considero que a grande maioria dos cientistas que são mais inteligentes e tem mais conhecimento na área aceitam-na como verdadeira. Eu também concordo que não se deva ensinar nas escolas teorias científicas que, no momento, não são levadas a sério pela maioria dos cientistas, mesmo que elas provem serem verdadeiras no futuro.

No entanto, eu não concordo com os que consideram ignorantes ou de má-fé os que questionam o "darwinismo" como explicação científica para a origem das espécies. Talvez eu não concorde porque eu me considero parte destes "ignorantes". Para mim, existem algumas teorias das ciências naturais que eu aceito naturalmente, pois sei que funciona no nosso dia-a-dia e podemos "provar" em laboratório se necessário. Este é o caso, por exemplo, das leis de Newton, da lei da gravidade, das leis de eletro-magnetismo ou das leis da termodinâmica. Outras teorias estão além da minha compreensão e do meu bom-senso; por isso, nós, os leigos, resolvemos aceitá-las como verdadeiras por confiar em outros cientistas que estudaram o assunto mais profundamente. Este é o caso daquela leis da Física Quântica e da Relatividade. Eu enquadro a lei da seleção natural no segundo grupo.

O meu primeiro problema com a teoria da seleção natural é científico: não consigo conceber como este ou qualquer outro mecanismo natural poderia gerar algo tão complexo como um homem a partir de uma sopa de proteínas. Para mim, nem em bilhões de anos isso seria possível.

Obviamente, eu não vejo problemas em aceitar o fenômeno da seleção natural: ela está claramente presente na natureza. Não podemos tomar antibiótico por pouco tempo, pois isso irá selecionar as bactérias que serão resistentes ao antibiótico. Quando há a ameaça de um predador, somente os mais preparados para se defender sobreviverão. Se o clima muda drasticamente, os que não podem se adaptar à nova realidade morrerão. O meu problema é compreender como este mecanismo poderia gerar alguma espécie nova.

Eu ainda não consigo construir alguma analogia com a qual eu possa comparar o processo de evolução. Por exemplo, como montar um relógio a partir da matéria-prima, através de algum processo de seleção? Talvez primeiro eu a submeteria a uma tempestade elétrica que, de alguma forma, tornaria a matéria-prima capaz de se multiplicar. Assumiria que, no processo de multiplicação, a forma de alguns pedaços teria alguma variação em torno do original por algum processo aleatório. Depois, modificaria o meio ambiente para que somente os pedaços que estiverem mais próximos a um certo formato sobrevivam e continuem se multiplicando. Este processo seria desenvolvido até que todos os pedaços estejam moldados. Depois, juntam-se os pedaços e manipula-se o meio ambiente novamente para que somente os pedaços que se encaixarem sobrevivam. Daí, repete-se o processo até que todas as peças estejam encaixadas e o relógio formado.

Por mais absurdo que pareça este processo, eu ainda o acharia válido. No entanto, mesmo neste caso o processo de seleção não foi natural: o foi monitorado por uma inteligência externa. Mais difícil é imaginar como o mesmo processo poderia acontecer como algo natural, sem interferência de alguém que manipulasse o ambiente. Em um processo natural, é difícil associar adaptabilidade à complexidade: na maioria das vezes, as duas qualidades são antagônicas (por exemplo, as baratas parecem ser mais adaptáveis a ambientes adversos que o urso panda). Eu vejo que algumas alterações no ambiente poderiam por algum acaso produzir espécies mas evoluídas, mas a maioria delas provavelmente produziria espécies menos evoluídas. Na média, a complexidade dos seres vivos deveria diminuir ao invés de aumentar.

O meu segundo problema é filosófico: o processo de seleção natural vale também para nós, seres humanos? Temos de nos submeter ao mesmo mecanismo para tornarmos uma espécie mais evoluída? Existem evidências de que a seleção natural existe também entre nós, seres humanos. Diante das adversidades da vida, os mais capacitados sobrevivem, e os mais fracos são abandonados. É esta uma evidência de que a espécie humana está evoluindo para algo mais complexo, ou uma evidência de que nós estamos decaindo e voltando a ser animais? Poderíamos dizer, como Nietzsche, que virtudes cristãs como a compaixão, a bondade, a graça e o amor são empecilhos para que a espécie humana evolua?

O meu terceiro problema é moral: eu assumo que a teoria de seleção natural inferiria que existem "sub-espécies" que estão mais evoluídas que outras. Isso significaria que algumas raças são mais avançadas que outras, como dizem os movimentos sociais que defendem o racismo? Existiria alguma base científica para se considerar que todas as raças são iguais e devem ser tratadas igualmente?

O meu quarto problema é o teológico: não consigo ver o processo de seleção natural como um mecanismo criado por um Deus que se diz perfeito. A competição pela sobrevivência na natureza parece para mim mais o resultado da queda do homem que algo projetado por Deus, tanto que a Nova Terra é descrita na Bíblia como um lugar onde o leão descansará ao lado de um cordeiro. Uma sociedade em que os mais adaptados à realidade sobrevivem e os mais fracos morrem pode até ser um processo natural de seleção, mas não parece ser a vontade e o desejo de um Deus que defende a causa do pobre, do órfão e da viúva.

O meu quinto problema é no sentido prático: eu questiono se esta teoria trouxe algum resultado prático para a humanidade. Podemos utilizar algum processo de seleção artificial ou de manipulação genética, mas não pudemos produzir nenhuma espécie nova ainda: talvez, mesmo com interferência humana, ainda precisemos esperar pelo menos alguns milhões de anos. Também, não vejo como a genética não poderia continuar se desenvolvendo da mesma forma sem sabermos que as espécies são criadas por um processo de seleção natural. Não quero dizer com isso que esta teoria não tenha nenhuma importância, uma vez que existe em cada um de nós o questionamento sobre "de onde viemos". Mesmo assim, a minha impressão é que ela trouxe mais consequências na área filosófica do que em termos práticos.

Mesmo com todos estes questionamentos, sei que a maioria dos cientistas, filósofos e teólogos já se debruçaram sobre eles e conseguiram ter uma resposta convincente: o problema provavelmente está na minha limitação intelectual. No entanto, o meu ponto é que esta teoria não é tão óbvia assim, pelo menos não para mim. Eu compreendo as pessoas que vêem com incredulidade a teoria da origem das espécies. Nós, pessoas leigas que conhecem apenas a biologia da escola, estudamos a complexidade de uma célula, observamos a delicadeza de uma borboleta, sentimo-nos pequenos diante da majestade de uma sequoia, maravilhamo-nos diante da grandeza de uma baleia, espantamo-nos ao conhecer o funcionamento do nosso corpo, e perguntamos: como tudo isso pode ter acontecido sem que alguém tenha criado tudo isso? Como tudo isso seria fruto de algo aleatório e impessoal? Não é muito mais fácil acreditar que alguém criou o homem de uma maneira parecida como um engenheiro constrói um robô? Não é mais fácil acreditar que alguém pintou as asas de uma borboleta da mesma forma que um artista pinta um quadro? Não é mais fácil acreditar que as células conseguem se reproduzir porque alguém as programou para isso, de maneira parecida como um programador que faz um aplicativo para celular?

Confesso que gostaria de compreender por que esta teoria parece tão óbvia para a maioria das pessoas. Para mim não é ...