terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz 2015

Uma visão objetiva do ano que passou concluiria que este foi um ano para o Brasil esquecer. Ele começou com greves e manifestações que invariavelmente terminavam em quebra-quebra. A grande maioria das obras de infraestrutura para a Copa do Mundo não terminaram nem seis meses depois de a Copa ter terminado, e os próprios estádios ficaram por nossa conta. A seleção brasileira foi humilhada na Copa do Mundo, sofrendo a maior goleada de todos os tempos dentro de seu próprio quintal. As eleições foram uma das mais sujas de todos os tempos, e mostrou um país dividido ao meio, com a metade dos eleitores prevendo uma catástrofe para o país com a reeleição da atual presidente. Para terminar o ano, uma conjunção de má administração,  evidências de corrupções bilionárias e interferência política colocaram a maior empresa do Brasil de joelhos. A economia dá sinais de estagnação, e o custo de vida continua subindo. A região Sudeste está sofrendo com a falta d'água, e existe ainda o risco de falta de energia elétrica. A quantidade de notícias ruins é tão abundante que é difícil olhar para o ano que passou com algum saudosismo.

A minha vida particular também não foi muito tranquila, Eu comecei o ano perdendo a minha única avó viva, após passar vários meses acamada. Foi uma morte que causou alívio e tristeza ao mesmo tempo, pois eu tinha boas lembranças dela, principalmente durante a minha infância. Logo depois, meu pai teve de ser internado para retirar um tumor no estômago, e ali ficou por quase três meses por conta de complicações decorrentes da cirurgia, um período difícil e desgastante para ele e para toda a família, da qual ainda está se recuperando. Da mesma forma, a vida familiar foi bastante conturbada, fruto talvez de todo o desgaste que sofremos. Tantos foram os gastos inesperados que tivemos que chegamos ao final de ano sem condições de fazer uma festa nem de viajar para descansar.

Ainda assim, eu tenho muitos motivos para olhar com alegria o ano que passou, até mais que nos anos anteriores. Não houve nenhum ano em que eu não tenha passado por dificuldades de algum tipo. No entanto, no meu íntimo, eu considerava que eu poderia dar conta de todas elas, com a minha própria capacidade, com as minhas próprias forças. Este ano foi diferente, pois eu já havia chegado ao limite: vi-me afogado nos meus problemas e dificuldades. Eu havia visto a morte próxima de minha família, e sabia que deveria pensar o que eu deveria fazer se tivesse de enfrentar a minha própria morte. O cuidado que tivemos de dispensar ao meu pai me fez pensar o que eu faria se fosse eu o paciente. O ano de 2014 foi especial porque eu comecei a enxergar a minha vida de outro ângulo. Comecei a desistir de depender de minhas próprias forças e de descansar, sabendo que não preciso depender somente de mim. Comecei a desejar parar um pouco para refletir sobre o que estou fazendo com a minha vida.

Dizem que as dificuldades e provações que sofremos aproxima-nos mais de Deus. Isso pode não ser verdade em todos os casos, mas para o ano de 2014 foi isso exatamente o que me aconteceu. Após um longo período de isolamento, voltei a frequentar e a me envolver em uma igreja, embora ainda timidamente. Tive saudades daqueles dias em que eu cantava para Deus com toda a alegria, mesmo que ele fosse a única plateia. Desejei voltar aos momentos em que eu buscava na palavra de Deus a orientação, a inspiração e o consolo que eu precisava a cada dia. Voltei a sonhar com o dia em que eu teria uma única preocupação na vida: o de agradar e o de servir aquele que me salvou e que deu a sua vida por mim.

Uma das afirmações mais conhecidas da Bíblia é a de que "o justo viverá pela fé". Viver pela fé é olhar a vida e o mundo com um olhar que vai além da realidade descrita nos jornais e nos programas de televisão. Viver pela fé significa que podemos enfrentar as provações, as aflições e o sofrimento com confiança, sabendo que não estamos sozinhos.

Creio que vamos precisar viver pela fé no ano novo. Mais uma vez, uma análise objetiva do que 2015 nos espera não me traz uma conclusão muito animadora. Os preços já têm data marcada para aumentar, assim como os impostos. A economia continuará se encolhendo, e o número de desempregados continuará aumentando. Os problemas sociais continuarão a atormentar o país, e veremos mais pobreza nas ruas. O país entrará num processo de degradação da democracia, na qual o governo usará de todos o seu poder para calar os que se opõem a ele.

Olhar para este cenário pode ser desanimador, mas não para quem vive pela fé. Esta frase foi mencionada pela primeira vez em um cenário muito pior que esse. Um profeta havia recebido de Deus uma mensagem que revelava dias difíceis, e não paz e prosperidade para o seu povo. O povo de Judá estava se tornando um povo violento, que desprezava a justiça. Por isso, o reino de Judá seria sitiado pelo temível exército da Babilônia, seria derrotado por eles e seria destruído. Alguns seriam levados cativos para Babilônia, outros passariam fome na terra, a ponto de começarem a praticar canibalismo. Diante a angústia do profeta, Deus respondeu que "o justo viveria pela fé", e que os próprios babilônios estariam sujeitos à justiça de Deus pelas atrocidades que cometeriam. Diante do vislumbre da perfeição e da justiça de Deus, a angústia de profeta transformou-se em um belo cântico de fé:

"Mesmo não florescendo a figueira,
não havendo uvas nas videiras;
mesmo falhando a safra de azeitonas,
não havendo produção de alimento nas lavouras,
nem ovelhas no curral
nem bois nos estábulos,
ainda assim eu exultarei no Senhor
e me alegrarei no Deus de minha salvação."

De fato, saúde, dinheiro e tranquilidade são coisas que todos nós desejamos, para nós mesmos e para os nossos amigos. No entanto, encontrar a paz de Deus que permanece mesmo que tudo desmorone ao nosso redor é o melhor que eu posso desejar para o ano de 2015.

Que vocês tenham um Feliz Ano Novo.

Helio.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Feliz Natal


Aos meus familiares, colegas e amigos,

Eu tenho de confessar que a época de Natal traz-me mais sentimentos de melancolia que de paz, amor e alegria. Não me sinto com vontade de enfeitar a casa com árvores, luzes e enfeites - tanto brilho, tanto trabalho, tanto dinheiro gasto para desmontar tudo no mês seguinte. Comprar presentes é uma tortura - problemas para estacionar, lojas lotadas, pés cansados, simplesmente para cumprir uma obrigação social. Como disse uma consultora de finanças, "às vezes, você compra o que não quer, com dinheiro que você não tem, para dar a quem você não está nem aí". Os happy hours promovidos pelos empregadores parecem mais um show de hipocrisia: chefes que desprezam seus subordinados e subordinados que odeiam seus chefes e falam mal deles o ano todo se abraçam e trocam elogios, como se tudo estivesse bom e maravilhoso. O Papai Noel há muito deixou de ser um símbolo da fantasia e da esperança de justiça e bondade para esse mundo - hoje, é mais uma vitrine para estimular os compradores a gastar mais nas lojas. A alegria, o amor e a paz que o Natal proclama parecem ser como as bolas de Natal: bonitas por fora e ocas por dentro. A alegria geralmente é só uma máscara prestes a cair quando toda a festa terminar, o amor é um sentimento passageiro que se apaga em poucos dias, e a paz já termina no dia seguinte, quando voltamos ao trabalho.

A história que originou o Natal, em princípio, também não me inspira muita alegria. Um anjo aparece a uma jovem adolescente, dizendo que ela teria um filho, mesmo sendo virgem. Essa jovem ainda não era casada e, por isso, provavelmente seria marginalizada pela vizinhança. O noivo estava prestes a deixá-la por isso, mas o anjo também falou a ele em um sonho, instruindo-o para casar com ela. Perto do dia do parto, os dois são obrigados a viajar vários quilômetros para chegar à cidade de seus antepassados, em Belém. Nesta cidade, procuram um lugar para dar à luz, mas só encontram um estábulo para fazer o parto. Quando Jesus nasceu, improvisaram um comedouro dos animais como berço. Quando levaram-no ao templo para circuncidá-lo, um ancião diz à mãe de Jesus que uma espada iria atravessar a sua alma, prenunciando assim o fim que o seu filho iria levar. Voltando a Belém, encontram-se com um grupo de ricos turistas estrangeiros, que haviam antes procurado o "Rei dos Judeus" no palácio de um rei cruel e sanguinário. Este rei então manda matar todos os bebês da cidade para eliminar qualquer ameaça ao seu trono. A família, então, é obrigada a se exilar em um país estrangeiro por alguns anos. A história do Natal foi uma história de dificuldades, privações e tragédias, muito mais que de paz, amor e alegria.

Felizmente, a Bíblia não se limita a uma narrativa crua dos fatos. No meio desta história de dificuldades e tragédias, existem algumas notas dissonantes de alegria, manifestações discretas do sobrenatural e pequenas luzes de esperança. O bebê que iria nascer era o próprio filho de Deus. Ele iria revolucionar o mundo, não através de um levante político, mas com a transformação de corações - um por vez. Ele seria chamado "o Deus conosco", e mostraria a nós que, através dele, seríamos reconciliados com Deus. Ele seria chamado "o Deus que salva", pois, através de sua morte, ele nos salvaria dos nossos pecados. Ele seria chamado "o Ungido de Deus", pois ele restauraria a paz nesta terra.

Para mim, o mais impressionante nessa narrativa do Natal não foram os milagres e as aparições sobrenaturais, mas o fato de que alguns personagens creram em um mero bebê. Apesar de todo o sofrimento que iria passar, a mãe de Jesus entoou um dos cânticos mais belos da Bíblia - "A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador". Seu marido, mesmo ao custo de sua reputação, resolveu acreditar no sonho e cumprir as ordens de um anjo. Uma parente de Maria, também grávida, sentiu o seu bebê se mexer ao ouvir a saudação de Maria e chamou-a de "bendita entre as mulheres". Um ancião do templo viu o bebê pela primeira vez, e começou a dizer que já poderia descansar em paz. Os magos viram em uma estrela errante o sinal de que algo maravilhoso estava por vir.

Da mesma forma, de uma maneira misteriosa, este jovem cético, crítico, teimoso e incrédulo encontrou em Jesus Cristo tudo o que ele estava buscando a vida toda: a verdadeira alegria, que persiste mesmo nos dias mais sombrios; o amor abundante, que é capaz de cobrir todos os seus pecados; a paz que poderia ter mesmo quando tudo estiver desmoronando à sua volta. Ao ouvir que Jesus poderia transformar a sua vida, este jovem relutantemente abriu o seu coração e encontrou-se com o seu Salvador. Mesmo não tendo visto nem ouvido nada espetacular, ele simplesmente soube que ali estava a resposta para tudo o que a sua alma buscava. Em Jesus ele passou a confiar, de Jesus ele passou a aprender, a Jesus ele passou a servir.

Por isso, é este o Natal que realmente enche o meu coração de amor, paz e alegria. O Natal dos enfeites, dos presentes, das festas, dos banquetes e do Papai Noel dá-me a sensação de ilusão e falsidade. O Natal de Jesus Cristo encontrou o amor, a paz e a alegria no meio da realidade deste mundo, onde os vizinhos têm veneno na língua, as pessoas fecham a porta para um casal de jovens que precisam de ajuda, o povo é capaz de pedir a crucificação de um inocente, e um governante abre mão de qualquer meio para se manter no poder.

Obviamente, o Natal não é o fim da história. Desde que Jesus nasceu, o mal ainda reina neste mundo: pessoas matam umas às outras, crianças são abandonadas, jovens se escravizam nas drogas e a corrupção parece não ter fim. Da mesma forma, a cada dia tenho de lutar contra a raiva, o orgulho, a falsidade, a inveja e a indiferença que teimam em alojar-se em meu coração. No entanto, o Natal trouxe esperança para mim. No Natal, Deus demonstrou que não me abandonou em meus pecados. No Natal, Deus mostrou-me que estaria disposto a dar o seu filho para me resgatar. No Natal, Deus deu-me a certeza de que nada me separaria de seu amor. No Natal, Deus deu-me a expectativa de que, um dia, tudo o que está errado neste mundo terá um fim, de que o "Rei dos Reis" reinará para sempre - e onde o amor, a alegria e a paz serão eternos.

É com essa palavra que eu gostaria de desejar a todos vocês um Feliz Natal.

Um grande abraço,

Helio.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Radical

Há algumas semanas atrás, um pastor indiano veio pregar na igreja. Ele era de uma família de empresários, havia estudado em uma universidade renomada da Inglaterra e pastoreava uma igreja frequentada pela elite da Índia. Em um certo momento, ele sentiu-se chamado por Deus para viver dentro de uma favela, para anunciar o reino de Deus aos pobres e ver este reino transformando a vida da comunidade. Eu normalmente me incomodo com essas histórias de vida: sinto-me como se o meu "cristianismo" fosse medíocre, como se eu devesse fazer mais do que simplesmente trabalhar para sustentar a minha família, como se eu me sentisse compelido a abraçar a minha fé até as últimas consequências. No entanto, no final da pregação, um dos pastores da igreja fechou o culto dizendo que nem todos são chamados para viver no meio de uma favela. Respirei aliviado, pois poderia continuar na minha mediocridade até que Deus me chamasse para fazer algo parecido.

Um outro missionário teve uma trajetória de vida semelhante: em um certo momento de seu ministério, ele decidiu abrir mão de um bom emprego e vendeu o seu apartamento para alugar uma casa onde ele abrigaria as pessoas que ele veria nas ruas da cidade precisando de ajuda. Ele havia colocado sem-tetos, mendigos, drogados, prostitutas e travestis para dormir no mesmo teto que ele e sua família. Ao ouvir pela primeira vez a sua história, eu fiquei imaginando como seria viver dessa maneira. Ao notar a reação das pessoas da igreja, eu ouvi comentários sobre a sua coragem ou a sua linguagem incomum - própria de quem convive com pessoas desse tipo - mas nunca ouvi alguém dizendo que desejava viver como ele.

Em meados do século passado, um homem decidiu levar o mandamento de dar a outra face a sério. Ele ousou enfrentar um dos impérios mais poderosos de sua época somente através da força de seu espírito. Mahatma Gandhi lutou pela independência da Índia sem fazer uso de violência. Quando ele era agredido, ele não revidava: ao contrário, mostrava-se disponível para ser agredido novamente. Contra todas as possibilidades, a sua tática funcionou: a Índia tornou-se independente do Império Britânico. Eu pensava que a pregação do Sermão do Monte não se aplicava a nós até conhecer a biografia desse homem. No entanto, nem mesmo os cristãos tem nele um exemplo de vida: para muitos de nós, Gandhi é somente um homem que vai para o inferno porque rejeitou os dogmas do Cristianismo.

George Miller foi um missionário que trabalhou na Inglaterra no início do século 19. Ele fundou dezenas de escolas e orfanatos que abençoaram milhares de jovens e órfãos, além de contribuir com centenas de missionários por todo o mundo. No entanto, ele foi mais notável pela forma como ele sustentou o seu ministério. Ele não era sustentado por nenhuma igreja ou denominação. Ele nunca entrou em dívidas. Ele não compartilhava as suas necessidades materiais com ninguém, e nunca pediu dinheiro para ninguém: ele dependia exclusivamente da oração para obter o seu sustento. Muitas vezes, a resposta de suas orações vinha de alguém a quem Deus havia tocado para ofertar exatamente o que o missionário precisava para aquele dia. Ele nunca retinha o que recebia: tudo o que recebia e não era necessário para o seu ministério era repassado para outros missionários. Quando eu li a biografia de George Miller, imaginei se esse método realmente funcionava para qualquer um que tivesse a coragem de utilizá-lo. Certo dia, eu li uma reportagem sobre levantamento de sustento para os ministérios, e um líder foi questionado sobre os métodos de George Miller. "Isso simplesmente não funciona", foi a resposta deste líder.

Um das episódios mais tocantes na história das missões foi o lendário zelo missionário dos irmãos morávios, uma pequena denominação que, nos século 18 e 19 espalhou missionários por todo o mundo. Conta a história que alguns destes missionários se venderam como escravos para poder compartilhar o evangelho com os escravos. Ao ouvir essas histórias de desprendimento e coragem, eu tento imaginar o que significaria ser um missionário como eles foram. Hoje em dia, a realidade é muito diferente: o missionário só sai do país se tiver todo o sustento levantado. Quando ele se move para país pobre, vive um padrão de vida melhor que as pessoas a quem ele está servindo. Quando o país entra em guerra, eles normalmente são os primeiros a fugir para um local mais seguro. Histórias como aquelas dos irmãos morávios parecem coisas do passado.

Diz a Bíblia que, quando a igreja foi iniciada, ninguém considerava somente seu os bens que tinham, mas compartilhavam tudo o que possuíam. Ninguém tinha demais nem de menos, pois os que tinham muito dividiam o que tinham com o que tinham pouco. Alguns chegavam a vender as suas propriedades e colocar o valor da venda nas mãos dos apóstolos, para que fossem distribuídas entre os mais pobres. Esta comunidade seria o sonho de todo comunista, com a diferença de que ela foi possível não por causa de uma engenharia social, mas simplesmente pelo poder do Espírito de Deus, que colocou no coração de cada membro o poder de refletir o amor sacrificial de Cristo no modo como amavam uns aos outros. Quando eu lia esta história no livro de Atos dos Apóstolos, eu imaginava se isso poderia acontecer um dia. No entanto, um amigo colocou a minha expectativa por água abaixo. Segundo ele, ao vender as suas propriedades, estes cristãos perderam os meios de produção. Por isso, quando a fome veio, alguns anos depois, a igreja de Jerusalém empobreceu e precisou pedir ajuda a outras igrejas: em outras palavras, a comunidade da igreja primitiva faliu. Felizmente, a igreja recobrou o bom-senso e aperfeiçoou o seu sistema até chegar ao modelo que temos hoje: cada um considera somente seu o que tem, alguns tem demais, outros tem de menos, e as doações à igreja são mais semelhantes ao pagamento de condomínio que a uma real distribuição de renda.

As seis histórias acima são exemplos de um conflito que existe dentro do meu ser. Eu fico dividido entre dois valores aparentemente contraditórios, que competem pela minha atenção. Na maior parte do tempo, eu sou conservador e moderado. Gosto muito da palavra "bom-senso", e tento ser equilibrado em todas as minhas ações. Na dúvida, prefiro confiar naquilo que está funcionando do que tomar alguma atitude extrema. Dificilmente eu faria alguma coisa que os outros considerassem loucura.

Por outro lado, eu sou estranhamente atraído para o radicalismo. Tenho a impressão de que viver somente naquilo que é moderado significa ser uma pessoa morna e medíocre, que não tem opiniões fortes e que vive em cima do muro. Sinto que eu deveria abraçar uma causa até as últimas consequências se eu quisesse viver de verdade. Para dizer a verdade, foi o radicalismo de Jesus, e não o seu bom-senso, que me atraiu a ele e me compeliu a segui-lo.

Quando leio os evangelhos, eu não vejo um Jesus equilibrado e moderado. Eu vejo um Jesus radical. Ele deixou a sua glória para viver entre nós. Ele nunca teve nenhum bem, e em tudo dependia da provisão de seu Pai e da ajuda dos outros. Ele irou-se a ponto de acusar os fariseus publicamente de hipócritas e até mesmo de derrubar as barracas de vendas na frente do templo. Ele comeu com os piores tipos de pessoa. Ele nos amou até as últimas consequências, e deu a sua própria vida para nos salvar. Definitivamente, isso é viver radicalmente.

Os seus ensinamentos aos discípulos também não são exatamente regidos pelo bom-senso. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres. Se alguém amar mais o pai, a mãe, a mulher, os filhos, os irmãos e irmãs, e até a sua própria vida mais que a mim não pode ser meu discípulo. Deves perdoar teu irmão setenta vezes sete. Se chamar o seu irmão de "louco" estará condenado ao fogo do inferno. O caminho largo é o que leva à perdição e são muitos os que passam por ela. Se o teu olho te faz pecar, arranca-o e jogue fora. Se alguém te agredir em uma face, oferece-lhe a outra. Amem os seus inimigos e orem pelos que os perseguem. A minha impressão é que Jesus queria que os seus discípulos o seguissem também no seu radicalismo.

A biografia de muitos seguidores de Jesus refletiu exatamente esse radicalismo. Apesar de alguns deles serem aclamados como heróis da fé hoje, eram tidos como loucos e radicais na época em que viveram, até mesmo por seus "irmãos". Tenho a impressão de que, se vivessem hoje, também seriam vistos como exóticos, perturbadores e ameaçadores do status quo. Talvez até fossem perseguidos por aqueles que se dizem cristãos.

Para dizer a verdade, talvez o próprio Jesus não seria exatamente bem recebido em nossas igrejas. A presença de Jesus trouxe mais perturbação que paz para as instituições religiosas da época, e creio que causaria a mesma perturbação se ele viesse hoje. De uma certa forma, o Jesus descrito nos evangelhos traz perturbação para mim: a sua vida mostra a mediocridade, a escuridão e o vazio da minha vida, e isso me incomoda muito. A sua presença faz-me sentir um fariseu dos tempos modernos.

O que acontece, no entanto, é que eu tento domesticar esse Jesus radical. Eu tento manipulá-lo até que ele se torne o Jesus manso, suave, que não me confronta nem faz sentir-me desconfortável.

O Jesus domesticado pode dizer que temos de renunciar a tudo o que temos para segui-lo, mas não tem problema se continuarmos com aquilo que renunciamos. Podemos continuar com o nosso emprego, nossa casa, nosso carro e as nossas mordomias: provavelmente nunca precisaremos nos desfazer dele. Muito pelo contrário, Jesus até mesmo multiplicará o que temos.

O Jesus domesticado pode dizer que devemos amar a ele mais que a nossa família, mas nunca nos pedirá para escolhermos entre ele e a nossa família. Afinal de contas, a família é um projeto de Deus e sempre devemos amá-la.

O Jesus domesticado dirá que coloquemos diante de Deus as nossas necessidades, mas não há problema se dependermos primeiro do nosso trabalho ou de outras pessoas. Viver somente pela fé sem usar os recursos que nos estão disponíveis é fanatismo.

O Jesus domesticado dirá para não acumularmos tesouros na terra, mas ele não verá nenhum problema se tivermos uma caderneta de poupança ou pagarmos para ter uma aposentadoria. Afinal de contas, não poupar para o futuro seria uma irresponsabilidade.

O Jesus domesticado dirá para darmos a outra face, mas poderemos nos defender dos nossos inimigos. Não precisamos ser pisados pelos outros, e devemos lutar pelos nossos direitos.

O Jesus domesticado dirá que a sua graça pode dar perdão a qualquer pecador, mas podemos considerar alguns pecados mais aceitáveis que outros e acolher apenas os que tiverem cometido pecados mais aceitáveis.

O Jesus domesticado dirá que devemos amar uns aos outros como ele nos amou, mas não precisamos nos envolver demais com a vida e os problemas dos nossos irmãos: apenas um abraço e um aperto de mão de vez em quando já é o suficiente.

Seguir este Jesus domesticado é bastante confortável e faz-me sentir bem comigo mesmo ... mas de vez em quando eu questiono se esse Jesus é o mesmo que viveu há dois mil anos atrás, pregando e vivendo o evangelho da cruz. Não estaria seguindo e adorando um ídolo criado pela minha imaginação? Não estaria seguindo pelo caminho largo que leva à perdição? Não estaria vivendo como um cristão morno, nem frio nem quente? Não estaria Jesus a ponto de me vomitar?

Quando eu penso sobre isso, refugio-me na graça de Deus. Sei que, por mais que eu deseje tornar-me um discípulo de Jesus, há muitos obstáculos em meu coração para serem removidos. Preciso aprender a enxergar que tudo aquilo que eu tenho de valor neste mundo - meu emprego, meus títulos, meus bens, meu conhecimento, minha reputação, minha saúde, minha família e minha vida - são lixo diante do privilégio de seguir a Jesus e viver como ele. Como o homem que encontrou um tesouro em um terreno e depois deu tudo o que tinha para comprar o terreno, eu preciso ser convencido de que a recompensa de seguir a Cristo é tão valiosa que valeria a pena vender tudo o que eu tenho para ter essa honra. Mas isso não é fácil para uma pessoa orgulhosa e obstinada como eu. Mesmo que eu tente tornar-me radical, eu o faria com presunção, como se eu tentasse provar a mim mesmo daquilo que eu sou capaz de fazer. Jesus quer que eu trilhe um outro caminho. Ele quer primeiro me quebrantar, mostrando-me que, sem ele, eu nada posso fazer. Depois, ele quer mostrar-me sua graça, ensinando-me que, mesmo falhando, eu ainda assim sou amado e perdoado. Depois, ele quer mostrar-me que eu posso confiar nele: não preciso ter medo do que possa acontecer comigo, pois nada poderá me separar de seu amor. Finalmente, ele dirá: siga-me. Quando isso acontecer, eu saberei que o meu Deus é fiel e que nada neste mundo é mais importante que estar ao seu lado: por isso, eu porei a minha mão no arado, serei radical por amor a Cristo, e não mais olharei para trás.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O nome de Jesus

Eu li um livro muito interessante há dez anos atrás, chamado Blue Like Jazz, de Donald Miller (não sei se ele já foi traduzido para o português). Trata-se de um testemunho da vida espiritual do autor do livro, em uma linguagem incomum: os personagens fumavam, bebiam, drogavam-se e falavam palavrões, ao mesmo que abordavam profundamente vários aspectos da espiritualidade cristã.

Mesmo assim, este seria somente um dos muitos livros que eu já havia lido antes. Como poucos livros, porém, um trecho de seu testemunho chamou-me atenção a ponto de eu lembrar-me dele, mesmo dez anos depois. Estou traduzindo essa história abaixo:

"Um conhecido meu que se chamava Alan andou pelo país fazendo perguntas sobre líderes de ministérios. Ele visitou igrejas bem-sucedidas e perguntou aos pastores o que eles estavam fazendo, e por que o que eles estavam fazendo estava funcionando. Parecia tudo muito chato, exceto por uma visita que ele fez a um homem chamado Bill Bright, presidente de um grande ministério. Alan disse que ele era um homem grande, cheio de vida, que ouvia sem desviar os seus olhos. Alan fez algumas perguntas. Eu não sei quais eram, mas no final ele perguntou ao Dr. Bright o que Jesus significava para ele. Alan disse que o Dr. Bright não pôde responder a pergunta. Ele disse que o Dr. Bright simplesmente começou a chorar. Ele sentou em sua cadeira grande atrás de sua mesa grande e chorou.

Quando Alan contou essa história eu tentei imaginar como seria amar a Jesus daquela maneira. Honestamente, eu fiquei pensando se aquele tal de Bill Bright só estava louco, ou se ele realmente conhecia Jesus pessoalmente, tão bem que ele choraria só em mencionar o seu nome. Então, eu soube que eu gostaria de conhecer Jesus daquela maneira, com o meu coração, e não apenas com a minha mente. Eu senti que aquilo seria a chave para alguma coisa."

Eu também senti isso. Sempre achei que algo estava faltando em minha vida, algo que me fizesse chorar só em mencionar o nome de Jesus. Para dizer a verdade, eu já senti as lágrimas correrem dos meus olhos em alguns momentos especiais: ao ouvir uma cantata de páscoa ou assistir os sofrimentos de Cristo no filme A Paixão de Cristo, por exemplo. No entanto, se me perguntassem o que Jesus significava para mim e eu não estivesse assistindo a cenas fortes, eu provavelmente responderia calmamente, talvez até de uma forma descontraída.

O terceiro mandamento diz que não devemos tomar o nome de Deus em vão. Eu sempre interpretei esse mandamento como se o nome de Deus devesse ser guardado em um depósito, da qual só poderia ser retirado e utilizado nos momentos sagrados, em que estivéssemos realmente querendo clamar o seu nome. Pecado seria, por exemplo, se exclamássemos "Meu Deus!" ou "Jesus Cristo!" ao vermos o arroz queimado ou o pneu do nosso carro furado. Nos tempos antigos, a cada vez que o nome de Deus precisava ser mencionado, os judeus tinham de passar por um ritual complexo de purificação a fim de não profanar o seu nome. Era tão pouco pronunciado que não se sabe mais a sua pronúncia: somente as consoantes foram preservadas.

Hoje, eu vejo esse mandamento de outra forma. Eu creio que, quando Deus mencionou esse mandamento, ele queria que o seu povo fosse tão ligado a ele que a própria menção de seu nome movesse as suas entranhas. Ele queria que as lágrimas começassem a sair de seus olhos, que as suas vozes ficassem embargadas e que seus corpos tremessem, só de pronunciar o seu nome.

Afinal de contas, aquele povo era somente um punhado de homens desprezíveis, escravos de um poderoso império. De repente, o Deus de seus antepassados resolve agir e, espetacularmente, liberta esse povo da escravidão. Ele envia pragas para o império egípcios até dobrar a vontade do Faraó. Ele parte o mar ao meio e faz seu povo passar pelo mar, para depois afogar os seus perseguidores. Ele guia o seu povo no meio do deserto, suprindo-os com alimento e água. Ele adota esse povo para ser a menina dos seus olhos. O que fazer diante de um Deus desse, senão ser movido somente pela menção de seu nome?

No entanto, a ingratidão e a indiferença que Deus sofreu com o povo que ele amou é a mesma ingratidão e a mesmo indiferença que eu na maioria das vezes dispenso a Jesus. Eu já perdi as contas dos números de vezes em que eu cantava sobre Jesus em um minuto e esquecia o que havia cantado no minuto seguinte. Quantas vezes eu orei "em nome de Jesus" como se esse nome fosse uma palavra mágica que abriria as portas dos céus? Quantas vezes eu mencionei o nome de Jesus casualmente, como se esse nome não fizesse muita diferença na minha vida?

Talvez essa atitude seja simplesmente por eu ter vivido muito pouco com ele. Existe uma história bastante contada nos púlpitos das igrejas: um orador e um senhor idoso foram declamar o salmo do bom pastor. O orador, utilizando-se de todas as técnicas de oratória, declamou o salmo com tanta eloquência que arrancou aplausos da platéia. Já o senhor idoso declamou o mesmo salmo com a voz trêmula e baixa, como se estivesse se dirigindo a uma outra pessoa. No final do salmo, muitos ouvintes estavam com lágrimas nos olhos. O orador conhecia o salmo do bom pastor, mas o senhor idoso conhecia o bom pastor do salmo. Ao meu ver, não há como andar com ele, aprender com ele, conversar com ele e seguir os seus passos sem apreciá-lo, amá-lo e respeitá-lo profundamente.

Para dizer a verdade, talvez falte recordar o que Jesus já fez comigo e meditar sobre o que ele está fazendo comigo agora ...

Lembro-me da época em que eu estava estudando na faculdade, vazio por dentro por constatar que tudo o que eu persegui a minha vida toda não passava de um punhado de vento. Lembro-me de como Jesus me buscou e batalhou contra as minhas convicções, até que eu, vencido e derrotado, entreguei-me a ele, meio que a contragosto.

Lembro-me de como, estranhamente, brotou alegria e paz da minha derrota, de como o meu vazio foi preenchido e de como descobri nele um novo propósito na minha vida.

Lembro-me de como me eu apaixonei por Jesus, desejando tornar-me seu discípulo, aprender com ele, andar com ele e dar a minha vida por ele. Lembro-me da época em que eu desejei abrir mão da minha carreira profissional para servi-lo.

Lembro-me de quando eu senti-me frustrado quando os meus planos de servi-lo não deram certo, e de quando ouvi o eco das palavras de Jesus: "alegre-se não porque os demônios submetem-se a você, mas porque o seu nome está escrito no Livro da Vida". O seu amor por mim era mais importante que o meu serviço para ele.

Lembro-me dos momentos em que, como uma criança mimada, eu dei as costas para ele por não conseguir algo que eu desejava muito, quando ouvi mais uma vez a sua palavra: "a minha graça te basta". Eu já tinha tudo o que precisava.

Lembro-me de quando eu lutava dolorosamente contra uma tentação, e busquei em Jesus as forças para resistir. Muitas vezes eu caí, mas pude apoiar-me nele para levantar e continuar lutando.

Lembro-me dos momentos em que eu estive sozinho em uma terra estranha, sem amigos que pudessem me compreender, em que a minha única fonte de apoio e consolo estava em Jesus. A ele eu expunha a minha angústia, a minha dor, o meu sentimento de rejeição, e até mesmo a minha raiva.

Lembro-me de quando eu estive no limite das minhas forças por causa das pressões em casa e no trabalho, e de quando descobri que o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza. Pois quando estou fraco, aí é que estou forte.

Lembro-me de quando eu, decepcionado com igrejas e com tudo o mais que dizia fazer as coisas em "nome de Cristo", afastei-me do convívio com outras pessoas que criam no mesmo Cristo, e de como Jesus, gentilmente, tem conduzindo-me de volta à sua casa.

Certamente, a minha história ainda não está completa. Há muitas experiências ainda a serem vividas, muitos capítulos a serem escritos e muitos quilômetros para andar com ele. Há ainda muitos lugares escuros que precisam ser iluminados pela sua luz, e sujeiras que precisam ser limpas. Há muito ainda para aprender a viver plenamente da sua graça, e há muito mais para aprender a confiar plenamente nele. Mesmo assim, o pouco que eu já vivi com ele deveria ser o suficiente para que o meu coração batesse mais forte, os meus pés tremessem, as lágrimas caíssem dos meus olhos e eu não conseguisse mais falar, só de mencionar o nome de Jesus.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O mal dentro de mim

Neste último mês eu terminei de assistir a série Breaking Bad pela internet. Para os que nunca ouviram falar, esta foi uma série de TV, bastante elogiada pela crítica, que conta a história de um professor de química que recebe a notícia de que está com câncer terminal e, por isso, resolve usar o seu conhecimento de química para fabricar uma droga sintética chamada metanfetamina.

Eu comecei a assistir o programa por curiosidade: gostaria de saber o que fazia essa série ter tantos admiradores. Ao assisti-la, comecei a incomodar-me com o modo como eu estava me envolvendo com a história: de fato, eu estava torcendo pelo protagonista. Eu estava tão envolvido com o drama do "cozinheiro" que algo dentro de mim aplaudia quando ele acumulava dinheiro com a fabricação das drogas, festejava quando ele assassinava um traficante, respirava aliviado quando ele escapava de uma armadilha e alegrava-me quando ele conseguia enganar um policial. Eu percebia que, à medida em que a série progredia, o professor de química tornava-se cada vez mais vingativo, violento, avarento, arrogante e manipulador. No entanto, eu estava tão envolvido com a história que eu já não me importava mais com a justiça nem com as vítimas que eram afetadas pelos seus crimes.

Após terminar de assistir a série, parei para pensar no quão diabólico eu era. Provavelmente, se eu estivesse na situação do personagem da história, eu não seria capaz de fazer o que ele fez ... ou seria? Teria eu algum potencial para o mal, que poderia ser ativado por alguma circunstância em que eu já não teria mais nada a ganhar sendo uma pessoa de bem?

Creio que um dos encantos da série tem a ver com o modo como o mal é retratado. Na série, o mal tem história, tem rosto, tem dramas pessoais e tem motivações, e isso faz com que nos identifiquemos profundamente com ele. O mal na vida real nunca é retratado inicialmente como um ser horripilante de cor vermelha com chifres na cabeça. O personagem da série iniciou a sua carreira de crimes com uma causa nobre: prover condições para a sua família se sustentar após a sua morte. Nós também racionalizamos o mal que cometemos para aplacar a nossa consciência: depredamos lojas e bancos porque lutamos pela justiça social, traímos o nosso cônjuge porque a nossa vida sexual está insatisfatória, aceitamos subornos porque todo o mundo faz isso, roubamos porque somos vítimas de uma sociedade injusta.

Na verdade, se realmente investigarmos a nossa consciência, chegaremos à conclusão de que o mal nos é atraente e sedutor. No final da história, o personagem reconhece que ele não cometeu todos aqueles crimes por causa da família: ele estava realmente gostando de praticar o mal. Da mesma forma, conheço amigos que confessaram ter roubado coisas em supermercados e bares que eles teriam perfeitas condições de pagar: eles roubavam simplesmente pelo prazer de roubar. O mal faz-nos sentir vivos e poderosos, acima dos mortais que são impedidos, pela consciência ou pelo medo, de fazê-lo. Aparentemente, a vida de uma pessoa honesta definhando para a morte é mais entediante e desinteressante que a de um indivíduo que "chuta o balde", resolve entrar na carreira do crime e envolve-se em uma vida cheia de aventuras e perigos.

Mesmo assim, recusamos a admitir para nós mesmos e para os outros que fazemos o mal. Temos a tendência de esconder o mal que existe em nós, como se o nosso subconsciente tivesse uma fossa onde depositamos tudo o que existe de errado dentro de nós e lacramos para que nunca mais seja aberta. Adão e Eva cobriram a sua vergonha com folhas de figos: com o tempo, as nossas táticas para esconder a nossa parte podre tornaram-se muito mais sofisticadas. Escondemo-nos por trás de máscaras que tentam mostrar a outras pessoas somente aquilo que queremos que elas vejam em nós. Transformamo-nos sepulcros caiados: brancos e impecáveis por fora e podres por dentro. Amamos mais a escuridão que a luz, pois a escuridão permite-nos esconder aquilo que não queremos mostrar aos outros.

No entanto, cobrir o mal não nos faz pessoas boas. Muito pelo contrário, o mal é uma doença degenerativa que se alastra pela nossa alma e contamina todas as áreas da nossa vida se não for tratada a tempo. Eu compararia o pecado com o câncer: o pecado que é iniciado com um pequeno "malfeito" pode transformar-se em crime hediondo, se não for tratado e removido. O professor que começou fabricando drogas matou um traficante pela primeira vez para se defender; mais tarde, atropelou dois outros traficantes para salvar seu companheiro; após mais alguns capítulos, explodiu um quarto onde estava um chefe do tráfico de drogas, mandou matar um punhado de traficantes de dentro das prisões para queima de arquivo e, finalmente, dizimou uma quadrilha inteira. Não só os crimes tornaram-se cada vez mais graves: à medida em que a série progredia, notava-se uma mudança progressiva no caráter do protagonista. um trabalhador simples, honesto e altruísta estava, aos poucos, sendo transformado em um traficante egoísta, cruel, vingativo, ganancioso, insaciável e presunçoso: ele estava tornando-se o próprio filho do diabo. Da mesma forma, vejo-me obrigado a combater o mal dentro de mim constantemente. Quando eu percebo, por exemplo, que fiz um comentário maldoso sobre uma pessoa que me fez algum mal, sei que esse comentário "inocente" pode transformar-me em um sádico que tem prazer em destruir a vida de outras pessoas através do veneno que eu injeto através das minhas palavras. O pecado cometido no Jardim do Éden não foi meramente um pequeno ato de desobediência a Deus: ele foi uma pequena semente que germinou, cresceu e transformou-se no mal como conhecemos neste mundo.

A maior tragédia do mal é que ela sempre cobra a sua fatura. O preço de se fazer o mal não está explícito no contrato que assinamos ao vender a nossa alma, mas ele existe. Na série, os crimes cometidos pelo químico afetaram não só a vida dele, mas também a de todas as pessoas ao seu redor. A sua esposa envolveu-se em um esquema de lavagem de dinheiro, o seu cunhado foi morto pela quadrilha que trabalhava para ele, e o seu filho denunciou-o à polícia. A família pela qual ele estava cometendo crimes foi destruída como consequência de seus atos. Mais grave e doloroso que o câncer de pulmão que ele tinha em seu corpo foi o câncer do pecado que ele deixou tomar conta de sua alma.

De fato, o apóstolo Paulo escreveu que o mal realmente tem um preço: a morte. Eu já havia escrito anteriormente que nós não fomos criados para morrer; portanto, a morte foi o preço cobrado pelo mal que escolhemos fazer. Mesmo assim, creio que a morte é muito mais que o cessar das nossas atividades vitais: nos textos bíblicos, a vida e a morte têm mais a ver com o nosso destino na eternidade. Existem várias formas de se ver a morte eterna, mais conhecida como o inferno. Com o risco de ser simplista demais, a minha visão de inferno é a de um estado onde as pessoas sofrem por estarem consumidas pelo desejo de fazer o mal, mas sem a alegria, o entusiasmo e a sensação de poder que ele trazia. Assim como os dependentes de drogas, elas tornaram-se reféns do mal que, lentamente, foi atraindo-os a uma armadilha da qual não podem mais escapar.

A Bíblia conta uma história de um personagem que também envolveu-se profundamente com o mal. Um rei, no ponto mais alto de seu reinado, vê uma mulher pela sacada e, mesmo sabendo que é a esposa de um dos seus mais leais soldados, resolve adulterá-la. Quando ela engravida, o rei tenta de todas as formas fazer com que o soldado deite-se com ela para encobrir o motivo da gravidez. Quando essa tentativa falha, ele envia o soldado para a frente de batalha, à mercê de seus inimigos, para que morresse. Com o assassinato do marido, a mulher casou-se com o rei.

O nome desse rei era Davi, o homem segundo o coração de Deus. Eu imagino que, se ele foi capaz de cometer uma atrocidade dessas, por que eu, que estou tão longe de ser "segundo o coração de Deus", poderia pensar que isso nunca aconteceria comigo? De qualquer forma, um dia ele foi confrontado pelo seu pecado e arrependeu-se amargamente pelo que havia feito. Mais tarde, ele confessou em um de seus salmos que o mal não era mesmo tão prazeroso como se imaginava:

"Enquanto escondi os meus pecados, 
o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite 
a tua mão pesava sobre mim; 
minha força foi se esgotando 
como em tempo de seca."

Na minha caminhada, eu aprendi que o peso da mão de Deus sobre mim quando eu faço o mal é a maior prova do seu cuidado e do seu amor por mim. Quando o meu corpo geme e a minha alma se desfalece quando eu cometo algum pecado, há esperança para mim de escapar das armadilhas do inferno. Através da dor, eu posso voltar atrás, confessar o mal que estava fazendo, confiar no perdão de Deus e recomeçar a caminhada de onde e me desviei.

Dessa forma, aos trancos e barrancos, chamuscado por todos os lados por causa dos pecados que cometi, mancando de tanto tropeçar nas decisões tolas que eu tomei, e atingido por várias setas inflamadas do inimigo por não preparar-me o suficiente para proteger-me dos perigos, eu pretendo chegar até o meu destino final carregando aquilo que eu tenho de mais precioso: a vida de Cristo em mim. Foi Cristo que fez-me ver que há muito mais encanto, alegria, poder e plenitude em fazer o bem do que viver em uma vida de pecados. Por isso, creio que esta esperança é o que irá conduzir-me à eternidade, mesmo tendo eu o mal dentro de mim.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O melhor vinho

Na antiguidade, o vinho era considerado o símbolo de alegria. Ele era o componente essencial em qualquer festa, e o povo antigo cultuava o "deus do vinho" quando buscavam alegria para suportar a dureza de suas vidas. Pelo menos por alguns instantes, eles adoravam a esse deus participando de festas onde podia-se beber sem limites e deixar-se levar por todos os instintos naturais que geravam prazer.

Nos tempos modernos, eu vejo o feriado que acabamos de celebrar - o Carnaval - como o símbolo que tem sido celebrado pela sociedade e pela mídia como o símbolo da alegria. Ironicamente, o Carnaval faz parte do calendário religioso. No meu conhecimento limitado de religião, o Carnaval parece ter sido concebido como se fosse a última oportunidade para deixar-se controlar pela natureza humana (a carne) antes da quaresma, um período de 40 dias que inicia-se no dia seguinte ao Carnaval e vai até a Semana Santa.

Para mim, a ideia do Carnaval é algo parecido com dizer ao meu filho: "até amanhã você pode comer todos os doces que quiser, mas, depois disso, você não poderá mais comer nenhum doce por quarenta dias". Isso traz uma ideia de um Deus que não se alegra no nosso prazer, ou de um Deus que dá alguma concessão ao pecado, desde que nos arrependamos depois e jejuemos por algum tempo. O meu entendimento do Deus da Bíblia e a minha experiência como pai leva-me a discordar desse conceito de Deus.

Para começar, não consigo ver Deus como alguém que tem prazer na nossa privação. Como pai, nada me dá mais prazer do que ver um sorriso no rosto do meu filho. Da mesma forma, Deus alegra-se no nosso prazer. Ele não nos dá uma pedra se pedirmos pão, e nem uma serpente se pedirmos peixe. O desejo de Deus de dar-nos prazer está permeado em toda a criação. A beleza das paisagens naturais, o canto dos pássaros, o odor das flores, o sabor das frutas, o prazer do sexo, nada disso teria sentido se o único objetivo da criação fosse a funcionalidade. Ao contrário, Deus colocou tudo isso porque o prazer é muito importante para ele.

Obviamente, isso não quer dizer que o nosso prazer imediato seja a prioridade de Deus. Todos os que são ou que foram pais sabem que os filhos que tem todos os seus desejos satisfeitos tornam-se filhos mimados e egoístas. Muitas vezes, precisamos dizer não aos seus pedidos, precisamos impor a nossa autoridade, precisamos corrigir e disciplinar os nossos filhos, para que eles aprendam a ser adultos. Da mesma forma, a maior prioridade de Deus para nós é em relação ao tipo de pessoa que nos tornaremos. Ele quer trabalhar a nossa vida, para que transformemo-nos em pessoas cuja conduta é digna de sermos chamados de seus filhos.

Por isso, também não concordo como a noção de que Deus possa dar um período de concessão para o pecado. Deus considera o pecado destrutivo, mortífero e devastador. Da mesma forma que eu nunca permitiria que o meu filho fumasse crack, nem que fosse por um dia, Deus nunca daria um segundo sequer de trégua contra o pecado. Não vou entrar em detalhes sobre quais atos cometidos durante essa festa são pecados ou quais não são, mas eu creio que o efeito do pecado vai muito além das consequências imediatas: assim como um câncer, o pecado penetra na nossa alma, multiplica-se, alimenta-se da nossa força vital e cresce até tomar todo o nosso ser. O que seria um instante de prazer pode realmente destruir a nossa vida e fazer-nos miseráveis pela eternidade. Por isso, eu vejo os mandamentos de Deus mais como uma demonstração de seu amor do que como um conjunto de regras para impedir-nos de desfrutar das coisas boas dessa vida.

Para dizer a verdade, há muito tempo tenho percebido que estas coisas são apenas momentos de alegria, bons apenas àqueles que não tem alegria dentro de si mesmos. Em um dos milagres mais conhecidos de Jesus, ele participa de uma festa de casamento: como era de se esperar, eles serviram vinho. No meio da festa, constataram que o vinho tinha acabado, o que teria sido a desgraça dos noivos. Atendendo ao apelo de sua mãe, Jesus manda encher vários potes de água e levá-los ao encarregado da festa. Ao provar o vinho no qual a água havia se transformado, o encarregado comentou com o noivo que o melhor vinho tinha sido deixado para o final da festa.

Não cabe aqui discutir se o milagre realmente aconteceu ou não. No entanto, creio que esse milagre foi um sinal daquilo que Jesus veio para fazer nas nossas vidas. O vinho que este mundo oferece é bom, traz alegria e é uma boa companhia para a nossa vida: no entanto, um dia ela acaba. O vinho que Jesus oferece é fruto de um milagre: ele transforma a nossa vida insípida em uma vida cheia de alegria, com sabor e fragrância incomparável, que ninguém pode nos tirar. Para quem possui esta alegria, faz algum sentido buscar alguns instantes de prazer e satisfação em troca da alegria eterna? Não para mim ... afinal de contas, o vinho de Jesus é o melhor vinho.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Reflexões sobre a morte

No momento em que estou escrevendo, completaram-se 16 dias desde que eu perdi uma pessoa relativamente próxima. A minha avó faleceu no dia 24 de janeiro de 2014, aos 93 anos, após uma infecção generalizada. Eu fui ao velório no dia seguinte, e vi o seu corpo sendo enterrado ao lado de seu esposo.

Mesmo já tendo passado dos quarenta anos, as minhas experiências com a morte até agora não foram traumáticas e nem causaram sofrimento a ponto de impedir que eu "seguisse a vida". Todos os meus avôs já haviam falecido quando eu nasci, exceto a minha avó materna. Perdi uma tia de quem eu lembrava-me vagamente quando era criança. Já quando adulto, conheci amigos não muito próximos que perderam a vida. Talvez a morte que eu mais senti tenha sido a de uma senhora da igreja que me acolheu quando eu acabava de me mudar para os Estados Unidos, sem falar muito inglês: mesmo assim, eu já estava no Brasil e não tinha mais contato com ela no momento em que ela faleceu: tive essa notícia através de um outro amigo.

Os livros de biologia básica definem a morte como uma atribuição unica dos seres vivos: todos os seres vivos nascem, crescem, desenvolvem-se reproduzem ... e morrem. A morte deveria ser considerada como um processo natural, assim como o fato de que temos de comer e respirar para sobreviver. A morte é inevitável, como se fosse uma sentença sumária proferida por todos os que cometeram o crime de viver. A lógica deveria levar-nos a ver a morte com naturalidade e resignação.

A minha experiência recente com a morte, no entanto, revelou algo completamente diferente. A minha avó já tinha bastante idade, e já não tinha mais forças para sair da cama. Ela dependia de cuidados dos familiares durante 24 horas ao dia, 7 dias por semana. Mesmo assim, quando ela nos deixou, o meu sentimento foi mais profundo que o alívio por ela ter parado de sofrer. Senti que algo estava errado com aquele enterro, como se aquilo não devesse estar acontecendo. Existe algo de muito errado com a morte.

Com poucas exceções, os homens geralmente não se conformam com a morte, e tentam de alguma forma eternizar a presença dos que foram. Os egípcios mumificavam os seus reis para evitar que os corpos sofressem decomposição; os hindus viam a morte como parte de um processo de reencarnação com o objetivo de melhorar o seu carma; os budistas do Japão montavam altares para os seus entes falecidos, rezavam para eles e até mesmo traziam-lhes comida. Mesmo nos tempos modernos, tentamos imortalizar a presença de pessoas que foram nossos ídolos (afinal de contas, Elvis não morreu ...). Talvez seja possível explicar como é que o homem chegou a ter essa aversão à morte pelos processos evolutivos naturais: mesmo se existir uma teoria para isso, tenho a impressão de que ela seria tão complexa que talvez seja mais fácil crer que este sentimento indique que a morte não faz parte da nossa essência.

Existe uma citação de Salomão de que nós, os seres humanos, vivemos para a eternidade: talvez seja essa a nossa maior diferença com outros animais, e o maior motivo pela qual a Bíblia tenha dito que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Deus não nos implantou o gene da morte em nós nem nos criou com prazo de validade. Ele não nos programou para que, depois de alguns anos de vida, as nossas células começassem a envelhecer, os nossos órgãos parassem de funcionar direito, a visão enturvar, a memória a falhar, até deixarmos de respirar e voltarmos ao pó da terra. Foi para a eternidade que ele nos criou.

Muitos vêem a eternidade como um simples prolongamento da linha do tempo: dessa forma, a vida eterna seria equivalente a viver mais de um milhão de anos. Eu vejo a eternidade mais como uma dimensão que transcende o tempo. A eternidade não está presa ao tempo: assim como o autor de um livro tem a liberdade de contar a sua narrativa na cronologia que achar mais conveniente, um ser eterno pode navegar pelo tempo sem limitações. Ele enxerga o tapete como um todo, não somente o fio que está sendo tecido em um certo momento. Para um ser eterno, não faz sentido a pergunta "e se...?", pois ele sabe que hipóteses nunca acontecerão. Na minha visão, nós formos criados para ser assim.

Se aparentemente não somos assim, é porque de alguma forma sofremos de algum tipo de amnésia. Como um náufrago que conseguiu chegar a uma ilha e tenta sobreviver nela, aos poucos perdemos a memória daquilo que somos em nossa essência. Esquecemos de onde viemos, e tentamos viver a nossa vida como se a eternidade não existisse. Estudamos para poder trabalhar, trabalhamos para sobreviver, sobrevivemos para trabalhar e divertimo-nos para esquecer por alguns instantes da falta de sentido naquilo que fazemos. Somos águias com comportamento de galinha. Normalmente, vivemos muito bem dessa maneira, e até cremos que esta é a vida real ... até que somos confrontados com a morte.

Quando a minha avó faleceu, todos os compromissos que eu tinha, todas as tarefas que eu tinha para fazer, todas as coisas que eu queria comprar, repentinamente perderam importância. A morte fez-me perceber que tudo o que estou tentando construir nesta vida aqui na terra deve ser considerado lixo, pois deste lugar não poderei levar nada. Provavelmente as riquezas que eu acumular aqui serão usados e desperdiçados por pessoas que colherão o fruto daquilo que não semearam. A morte fez-me ver que diversão é apenas o que a palavra diz: um conjunto de atividades para desviar a nossa atenção da realidade, de que as nossas vidas são realmente vazias e sem sentido, e que deve haver alguma outra coisa além dessa vida. A morte também fez-me ver que ela é uma inimiga a ser vencida.

Há um ditado que diz que "há um jeito para tudo, menos para a morte". Para a morte, não há "jeitinho" que resolva: ela precisa ser derrotada. Para mim, a resposta foi dada por Deus em uma manhã de um domingo, há cerca de dois mil anos atrás. O evento da páscoa mostrou que a morte não é irreversível: um homem passou pela morte e sobreviveu, ressuscitando ao terceiro dia. Este homem veio para tirar-nos deste estado de amnésia e resgatar-nos para aquilo que realmente deveríamos ser. Ele veio para tirar-nos da morte e dar-nos a vida eterna.

Obviamente, isso não quer dizer que todos os que creram nele simplesmente deixaram de morrer: a realidade desmentiria esta afirmação. No entanto, eu diria que alguns apegaram-se à promessa de que, um dia, a morte seria totalmente derrotada. Eles experimentaram uma pequena amostra da vida eterna que os esperavam, e viram que tudo o que tinham aqui era esterco, mesmo comparado a essa pequena amostra que provaram. Eles escolheram viver em preparação àquilo que esperavam na eternidade e, de alguma forma, começaram a viver esta vida eterna aqui, mesmo. Embora vivessem neste mundo, eles sentiam-se estrangeiros aqui, como se o seu lar estivesse em outro lugar, ou em outra dimensão. Às vezes, eles esqueciam daquilo que haviam experimentado e voltavam a viver as suas vidas medíocres aqui na terra: no entanto, bastava um pequeno vislumbre da eternidade para que eles se lembrassem daquilo que eles realmente eram. A morte deixou de aterrorizá-los: ela não é meramente um evento natural, nem o final de sua existência, mas a ponte para a vida que eles tinham sido criados para viver. Repetindo as palavras de seu mestre, "ainda que morram, viverão".