Um argumento semelhante foi usado milhares de anos mais tarde, para defender uma nova seita que estava se expandindo rapidamente pela Judeia, tirando o sono da liderança religiosa. Eles tinham tentado calar os seguidores dessa seita com ameaças e açoites, mas as intimidações não surtiam efeito. Então um rabino chamado Gamaliel argumentou que, se essa nova seita fosse só uma invenção dos homens, ela fracassaria e, se viesse de Deus, nada que fizessem poderiam detê-los. Esta seita, de fato, prosperou e tornou-se a religião com o maior número de seguidores do mundo.
Eu mencionei estas duas histórias pensando na notícia mais comentada das últimas semanas: dois militantes muçulmanos entraram na redação da revista Charlie Hebdo em Paris, atirando nos editores, jornalistas, desenhistas e em outros funcionários da editora. Ao final do atentado, declararam que Maomé estava vingado, pois a revista estava publicando charges que eles consideravam ofensivas ao Islã. Essas charges continham imagens do Profeta e, em alguns casos, satirizavam as atitudes de alguns líderes muçulmanas. No total, o atentado deixou 17 pessoas mortas.
Eu sempre me perguntei por que os muçulmanos não deixam com que a vingança pela blasfêmia dos infiéis seja feita pelas mãos do próprio Alá, e por que Alá precisaria depender dos seus seguidores para fazer o trabalho sujo. Confesso que não conheço profundamente o Islã, e por isso, talvez essa dúvida seja considerada ridícula pelos seus seguidores. Mesmo assim, creio que muitas pessoas, cristãs ou não, fazem essa mesma pergunta quando recebem uma notícia como essa.
Também sei que muitos irão rebater a minha pergunta com afirmações sobre a época da Idade Média, em que a Igreja exercia poder temporal, julgava os hereges e promovia cruzadas para libertar Jerusalém dos infiéis. Não posso falar muito sobre a igreja da Idade Média, mas posso dizer que não consegui encontrar nos ensinamentos de Jesus Cristo ou de seus apóstolos nada parecido com algum mandamento sobre forçar outras pessoas a se converterem, queimar os que não concordarem conosco ou promover uma guerra santa para matar os incrédulos. Se alguns de seus seguidores cometeram ou cometem essas práticas, é mais por ignorância ou pela natureza pecaminosa deste seguidores que por alguma interpretação honesta da Bíblia.
Para dizer a verdade, eu vejo o Cristianismo como a religião que, por sua natureza, funciona melhor quando é uma minoria dentro de uma sociedade que marginaliza e persegue os seus seguidores. Não nos tornamos cristãos porque os nossos pais eram e nem porque alguém nos forçou a ser, mas porque um dia nós decidimos voluntariamente que Jesus Cristo seria o nosso Salvador, o nosso Senhor e comprometeríamos a nossa vida a ele como resposta ao seu amor por nós. Somos chamados para ser luz no meio das trevas, para que os que não são cristãos olhem para nós e glorifiquem o Pai que está nos céus. Temos o mandamento de alegrar-nos com as perseguições que sofremos, de amar os nossos inimigos, de orar pelos que nos perseguem, e de deixar que o nosso Pai julgue os que nos maltratam. Em uma sociedade em que somos a maioria, a religião cristã torna-se um símbolo de status e é parte do jogo político, podemos cair em perigo muito maior que a perseguição. Podemos nos corromper com o poder e transformar-nos aquilo que nossos perseguidores foram: intolerantes com os que não pensam e os que não professam a mesma religião que nós.
Como eu já disse antes, não conheço muito profundamente o Islã e nem o seu livro sagrado, o Corão. No entanto, a minha impressão é de que o Islã é o oposto do Cristianismo nesse aspecto. Desde a época de Maomé, o Islã parece simplesmente buscar expansão populacional, no sentido de trazer cada vez mais pessoas que se curvem a Alá (talvez seja por isso que a própria palavra Islã signifique "submissão"). Não vejo que deem muita importância se eles se submeterão por intimidação, por conveniência, por ganharem alguma recompensa no céu, ou por amor a ele - contanto que façam aquilo que ele ou os líderes de sua religião dizem. Aqueles que não se submetem a Alá poderão ser tolerados em locais onde o Islã não é a maioria, ou ser duramente discriminados, hostilizados ou até mesmo mortos onde ele é absoluta maioria.
Eu não estou expondo isso para criticar o Islã. Eu imagino que é exatamente esta a visão que os muçulmanos tem de sua religião, e creio que eles conseguem realmente enxergar algo de divino e superior nessa visão do Islã forte e dominador. Aliás, eu vejo que as religiões e ideologias universais em geral possuem caminhos semelhantes a esse: fazer com que todas as pessoas se convertam a essa religião ou ideologia, independentemente se estão fazendo por medo, por conveniência, por interesse pessoal ou por convicção; aumentar o grau de influência política, até alcançar a hegemonia e, quando isso acontecer, esmagar todos os que se opõem a ela.
O caminho de Cristo vai pelo lado completamente oposto. Ao passar por Samaria, Jesus e os seus discípulos encontraram um povo que estava pouco disposto a recebê-los. Os "filhos do trovão" João e Tiago perguntaram a Jesus se ele podia fazer descer fogo do céu para destruir esses incrédulos, referindo-se a um episódio que envolveu o profeta Elias, no monte Carmelo. Jesus repreendeu os discípulos, dizendo que ele não havia vindo para condenar, mas para salvar e resgatar a vida de muitos.
Eu creio que nós, os discípulos de Jesus, deveríamos seguir pelo mesmo caminho. A revista Charlie Hebdo era notável em satirizar a maioria das religiões mais conhecidas: o Cristianismo foi alvo de escárnio do semanário, da mesma forma que o Islã e o Judaísmo. Muitas das charges seriam consideradas ofensivas para 99 de 100 pessoas que professam o Cristianismo: uma dessas, por exemplo, mostra as três pessoas da Trindade participando de uma orgia.
Como responder a essa ofensa? A minha resposta é uma outra pergunta: o que Jesus faria? Da mesma forma que Jesus estava muito ocupado em salvar as pessoas para levar as ofensas feitas a ele pelo lado pessoal, nós também não deveríamos desperdiçar nossas energias levando essas ofensas seriamente. A nossa missão não é a de condenar os infiéis, nem a de defender Jesus, nem a de processar os que o ofendem, e nem mesmo a de pedir para que Deus mande fogo do céu. A nossa missão é levar o amor de Cristo para todos, na esperança de que muitos sejam tocados por ele ... talvez até mesmo os editores dessa revista.
Após a tragédia, uma edição da revista Charlie Hebdo foi publicada com uma charge na capa, contendo a imagem de Maomé chorando. Para mim, mais condizente com a realidade seria a imagem de Jesus chorando. Ele, sim, estaria disposto a dar a sua própria vida para salvar as mesmas pessoas que escarneceram dele.