domingo, 13 de janeiro de 2013

Eu e o meu orgulho

Um dia, um amigo meu disse que ele tinha um problema muito sério com o seu orgulho e que, para combater este pecado, ele orou e jejuou muito até vencer esta fraqueza de caráter. Agora que este problema já estava superado, ele era perfeito...

Em um dos primeiro livros cristãos que eu li após a minha conversão, uma das afirmações que mais me chamou a atenção foi sobre o pior dos pecados. Ao contrário do que eu imaginava, não era nenhum daqueles pecados que a gente ensina para as crianças, como, por exemplo, roubar, mentir, matar ou fazer sexo fora do casamento. O pior pecado de todos era o orgulho (e, por consequência, a maior das virtudes cristãs era a humildade). Por isso, uma das minhas metas pessoais era o de tornar-me humilde.

Obviamente, o orgulho era um pecado difícil de combater. Muitas vezes, eu flagrava-me orgulhando-me por não ser tão arrogante como o fulano que estava conversando comigo. O orgulho era um pecado sutil, que podia se esconder sob a máscara da baixa auto-estima, da discrição, ou da falsa humildade. Mais cedo ou mais tarde, a máscara caía, e o meu orgulho era exposto.

Por exemplo, nos meus piores anos de baixa auto-estima, durante a época da faculdade, eu achava-me a mais incompetente das criaturas, pois não estava sendo bem-sucedido em nada, nem no único objetivo para a qual havia me preparado a vida toda. Este sentimento me consumia, a ponto de eu não conseguir ter a alegria em aprender a profissão para a qual eu havia me matriculado em uma das melhores faculdades do país. Mesmo assim, o meu orgulho berrava de dor quando a depreciação vinha de outras pessoas, e não de mim mesmo. De uma certa forma, ouvir outros dizerem mal de mim era muito, muito pior, do que ouvir a depreciação de mim mesmo.

Um outro exemplo era a minha discrição. Jesus contou uma história sobre um homem que se sentou em um dos melhores lugares da mesa e foi movido para um outro lugar menos nobre: com isso, ele quis ensinar que "aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado". Esta história coube como uma luva para o meu temperamento tímido e retraído. Eu sentia-me desconfortável em dizer onde eu havia estudado na faculdade. "Em uma faculdade do interior", eu respondia, sem dar muitos detalhes. Mesmo sabendo que eu tinha talentos que superavam os que estavam sendo exercidos na igreja, eu relutava em expressar isso, e preferia agir na clandestinidade, ocupando posições menos nobres e menos visíveis. Tentava ocupar os lugares menos importantes, pois "quem humilha a si mesmo será exaltado". O meu orgulho começou a reclamar quando eu percebi que o momento de ser exaltado nunca chegava, e talvez nunca chegaria durante esta vida. Por mais que eu tentasse conter a minha indignação e o meu pedido de justiça, finalmente o orgulho falou mais alto que a vontade de me humilhar: eu simplesmente afastei-me, sem nunca ter exercido plenamente os dons e talentos que Deus tinha me dado.

Um outro exemplo era o perdão. A Bíblia conta que o pecado que eu cometi contra Deus é uma dívida impagável, e que tudo o que fizerem contra mim é muito pouco em comparação a esta dívida. Por isso, deveria ser natural que eu perdoasse os que me ofenderam, uma vez que Deus havia perdoado uma dívida muito maior. Mesmo assim, não consigo perdoar "setenta vezes sete". Depois de um certo limite, o meu orgulho exige que se faça justiça, que os que me fizeram mal paguem pelo que fizeram. É como se, no fundo, eu me achasse melhor que eles, e que eu achasse que não mereceria todo o julgamento que eu exijo para eles.

Por mais que eu tentasse sufocar o meu orgulho, ele aparecia com toda a sua força nos momentos em que a minha pretensa humildade era posta à prova. Tenho dificuldades em perdoar a minha esposa e aceitá-la como ela é, por achar que o que ela fez comigo foi imperdoável. Tenho dificuldades em aceitar críticas dos outros, por achar que eu me critico o suficiente, embora eu saiba que estou longe de ser perfeito. Eu mesmo me coloco em uma posição inferior do que eu mereceria, mas a minha ira se acende quando os outros me mantêm nesta posição ou me colocam em uma posição ainda inferior. Em muitos aspectos, o exercício da humildade pareceu-me inútil, pois parecia gerar apenas uma humildade falsa e superficial.

Então, eu desisti de tentar ser humilde. Talvez o caminho da conquista sobre o pecado do orgulho não seja o de confrontá-lo diretamente, mas o de andar junto com alguém que seja genuinamente humilde, e adquirir esta virtude com a convivência. Talvez eu só possa tornar-me realmente humilde à medida em que eu seja humilhado, em que o meu orgulho seja exposto em todas as suas formas, em que eu sinta o peso da minha imperfeição, a limitação da minha capacidade intelectual, a gravidade dos meus pecados, e a minha necessidade de me apoiar em Deus e em outras pessoas para continuar caminhando.

Diz-se que os mais avançados na santificação vêem a si mesmos mais pecadores do que no início da vida com Deus, por terem adquirido uma maior sensibilidade ao pecado. Frequentemente eu sinto que, a cada dia eu estou piorando, e não melhorando, no meu caráter e nas minhas atitudes. Será que o que eu sinto reflete a realidade, ou será que estou no caminho certo para vencer o orgulho? Talvez eu não devesse nem mesmo fazer esta pergunta. Provavelmente, aqueles que são realmente humildes nem devem se dar conta de sua humildade.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Trabalho e vocação

Eu havia conhecido o evangelho de Cristo há menos de dois anos quando eu me formei na faculdade. Naquela época, enquanto meus colegas de trabalho estavam entusiasmados para finalmente encontrar um emprego na qual pudessem ganhar dinheiro, a minha preocupação era como a minha formação profissional poderia ser útil para o reino de Deus. Antes de procurar um emprego que me renumerasse bem, eu procurava uma oportunidade de fazer algo que fosse de valor eterno dentro da minha profissão. Talvez por causa disso, eu não corri atrás de um emprego que me pagasse melhor, nem quis seguir a carreira militar, nem quis um emprego na qual eu fosse jogar no lixo cinco anos de investimento dos cidadãos brasileiros. Contra a vontade de meus pais, recusei-me a participar do processo de seleção de uma empresa que fabricava cigarros.

Isso foi há 20 anos atrás. Desde então, eu trabalhei em três empresas, fiz todas as tarefas que me foram atribuídas com dedicação e da melhor maneira que eu consegui fazer, dentro das minhas limitações. Busquei ser um exemplo de profissional para as pessoas ao meu redor. Busquei a integridade e a honestidade, mesmo que eu saísse perdendo na maioria dos casos. Muitas vezes, eu comprei brigas com os meus superiores para fazer a coisa certa. Contra todos os meus instintos naturais, eu tentei compartilhar as boas novas para quem quis e para quem não quis ouvir.

Mesmo assim, um emprego normal em uma empresa normal nunca me realizou, por mais que eu gostasse do trabalho. O problema era que eu não conseguia ver como sentar em frente a um computador por oito a quatorze horas ao dia produzindo códigos de programação poderia fazer alguma diferença significativa na vida de alguém. Às vezes, eu questionava se as coisas que eu ajudava a produzir fariam mais mal do que bem às pessoas.

Vejamos: o meu primeiro emprego foi em uma empresa de brinquedos, e o meu trabalho foi o de ajudar na produção de jogos para videogame. Este é um tipo de emprego que seria cobiçado por muitas pessoas, principalmente por aqueles que gostam de videogames. O meu trabalho, em tese, proveria entretenimento. O problema era que entretenimento é apenas isso: algo sem muito significado para ser preenchido quando não temos nada de importante para fazer. Alguns poderiam argumentar que alguns jogos são educativos e positivos, mas eu nunca tive muita liberdade para escolher o que desenvolver. Finalmente, eu nunca concordei que os videogames tivessem contribuído para fazer este mundo melhor. Muito pelo contrário, os videogames tem ajudado as pessoas a alienarem-se, a engordarem, a tornarem-se insensíveis à violência, a isolarem-se do mundo e a adquirirem mais um vício na lista de vícios já existentes.

O meu segundo emprego é mais difícil para explicar para quem não entende de redes de computadores, mas eu basicamente programava em equipamentos utilizados para prover acesso à internet e em equipamentos para gerenciar computadores à distância. Muitos consideram a internet uma arma neutra, que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Não acho que seja tão simples assim: a internet tem mudado a forma como as pessoas vivem, pensam e se relacionam, e eu tenho as minhas dúvidas se esta mudança foi mais positiva que negativa. Mesmo que tenha sido positiva, eu ainda não conseguia ver a minha parte no trabalho para desenvolver a internet como uma inspiração para a minha vida. Talvez o desenvolvimento em uma plataforma de software livre (Linux) fosse uma inspiração para muitos engenheiros, mas eu nunca me entusiasmei muito por isso.

O meu terceiro emprego está sendo em um laboratório de TV digital patrocinado por um gigante de eletrônica. Ali, trabalhei em várias áreas de TV digital, o que tem sido em si bastante interessante. Mesmo assim, o meu questionamento continua: para que? O que o meu trabalho vai fazer de bom para alguém que vai comprar e assistir a TV, além de um pouco de comodidade? Eu deveria estar satisfeito simplesmente em prover comodidade? A TV também pode ser considerada como uma arma neutra, mas eu também questiono se ela tem trazido mais benefícios que malefícios para nós.

A minha análise pode parecer bastante crítica, e eu até aceito ser chamado de chato, mas o fato é que o meu conceito de realização profissional é talvez um pouco diferente dos outros. Eu não me sinto satisfeito simplesmente em estar fazendo um trabalho que é prazeroso e receber um bom salário no final do mês. Para mim, falta algo mais. Falta algo que me dê alegria em trabalhar todos os dias sabendo que o meu trabalho vai fazer diferença na vida dos outros. Falta uma vocação, um chamado.

Eu experimentei esta alegria sentando e emprestando os meus ouvidos aos moradores de rua no centro de São Paulo, mostrando que alguém se importava com eles, mesmo que o restante das pessoas os desprezassem. Eu experimentei esta alegria quando eu ensinava crianças largadas nos cortiços da cidade a fazer as coisas certas. Eu experimentei esta alegria cantando músicas natalinas a moradores de asilos de idosos e a enfermos em hospitais. Esta alegria eu nunca tive no meu emprego, trabalhando dia e noite em frente a um computador. É essa alegria que eu gostaria de ter.

Talvez por isso, eu nunca tenha realmente investido na minha carreira profissional. De uma certa forma, eu sei que, mesmo que eu progrida profissionalmente, conquiste novos cargos e ganhe mais dinheiro, eu nunca estarei realizado enquanto eu tiver dois chefes mandando em mim: o chefe que me dá ordens na empresa e o chefe que me lidera com o seu exemplo de vida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A fé infantil e a fé madura

Eu sempre comparei a fé à confiança de uma criança em seus pais. Eu pensava que a fé perfeita era a fé infantil. Pensava que esta era a razão pela qual Jesus dizia que não veríamos o reino dos céus se não tivéssemos a fé de uma criança.

O tempo tem me mostrado que é necessária uma fé diferente para continuar caminhando, uma fé que transcende à de uma simples confiança infantil, uma fé que vou chamar de fé madura. Muitas das nossas expectativas em relação ao amor, ao cuidado e à proteção de Deus na nossa vida acabam não se concretizando e, às vezes, somos obrigados a decidir o que fazemos com essa decepção: continuaremos crendo em Deus, ou não?

Uma fé infantil diz "O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará". Um fé madura diz: "ainda que o campo não  floresça e a videira não dê mais seu fruto, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação".

Uma fé infantil diz: "O Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei". Uma fé madura diz: "Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer".

Uma fé infantil diz: "Mil poderão cair ao seu lado e dez mil à tua direita, mas nada o atingirá". Uma fé madura diz: "ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo".

Uma fé infantil diz que "nunca viu um justo mendigar o pão". Uma fé madura diz que "nem a fome nos separará do amor de Deus".

Uma fé infantil diz que Deus "irá abrir as comportas do céu e derramar sobre nós tantas bênçãos que nem teremos onde guardá-las". Uma fé madura diz que "a graça de Deus nos basta".

Uma fé infantil pergunta: "qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir peixe, lhe dará uma cobra?" A fé madura pergunta: "aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?"

De fato, nem sempre compreendemos como Deus opera em todas as coisas pelo nosso bem. Muitas vezes, Deus nos parece distante, indiferente, ou mesmo sádico diante dos nosso problemas, das nossas dificuldades e dos nossos fardos. Às vezes, sentimo-nos desprotegidos, desorientados e sozinhos neste mundo. É nesses momentos que temos de decidir o que fazer com esse Deus que diz ser o nosso Pai e que promete estar conosco sempre. Daremos nós as costas a Ele por ter-nos decepcionado, ou continuaremos confiando nele, servindo-o e adorando-o, mesmo não compreendendo os seus caminhos? A fé madura diz que continuaremos crendo.