Um dia, um amigo meu disse que ele tinha um problema muito sério com o seu orgulho e que, para combater este pecado, ele orou e jejuou muito até vencer esta fraqueza de caráter. Agora que este problema já estava superado, ele era perfeito...
Em um dos primeiro livros cristãos que eu li após a minha conversão, uma das afirmações que mais me chamou a atenção foi sobre o pior dos pecados. Ao contrário do que eu imaginava, não era nenhum daqueles pecados que a gente ensina para as crianças, como, por exemplo, roubar, mentir, matar ou fazer sexo fora do casamento. O pior pecado de todos era o orgulho (e, por consequência, a maior das virtudes cristãs era a humildade). Por isso, uma das minhas metas pessoais era o de tornar-me humilde.
Obviamente, o orgulho era um pecado difícil de combater. Muitas vezes, eu flagrava-me orgulhando-me por não ser tão arrogante como o fulano que estava conversando comigo. O orgulho era um pecado sutil, que podia se esconder sob a máscara da baixa auto-estima, da discrição, ou da falsa humildade. Mais cedo ou mais tarde, a máscara caía, e o meu orgulho era exposto.
Por exemplo, nos meus piores anos de baixa auto-estima, durante a época da faculdade, eu achava-me a mais incompetente das criaturas, pois não estava sendo bem-sucedido em nada, nem no único objetivo para a qual havia me preparado a vida toda. Este sentimento me consumia, a ponto de eu não conseguir ter a alegria em aprender a profissão para a qual eu havia me matriculado em uma das melhores faculdades do país. Mesmo assim, o meu orgulho berrava de dor quando a depreciação vinha de outras pessoas, e não de mim mesmo. De uma certa forma, ouvir outros dizerem mal de mim era muito, muito pior, do que ouvir a depreciação de mim mesmo.
Um outro exemplo era a minha discrição. Jesus contou uma história sobre um homem que se sentou em um dos melhores lugares da mesa e foi movido para um outro lugar menos nobre: com isso, ele quis ensinar que "aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado". Esta história coube como uma luva para o meu temperamento tímido e retraído. Eu sentia-me desconfortável em dizer onde eu havia estudado na faculdade. "Em uma faculdade do interior", eu respondia, sem dar muitos detalhes. Mesmo sabendo que eu tinha talentos que superavam os que estavam sendo exercidos na igreja, eu relutava em expressar isso, e preferia agir na clandestinidade, ocupando posições menos nobres e menos visíveis. Tentava ocupar os lugares menos importantes, pois "quem humilha a si mesmo será exaltado". O meu orgulho começou a reclamar quando eu percebi que o momento de ser exaltado nunca chegava, e talvez nunca chegaria durante esta vida. Por mais que eu tentasse conter a minha indignação e o meu pedido de justiça, finalmente o orgulho falou mais alto que a vontade de me humilhar: eu simplesmente afastei-me, sem nunca ter exercido plenamente os dons e talentos que Deus tinha me dado.
Um outro exemplo era o perdão. A Bíblia conta que o pecado que eu cometi contra Deus é uma dívida impagável, e que tudo o que fizerem contra mim é muito pouco em comparação a esta dívida. Por isso, deveria ser natural que eu perdoasse os que me ofenderam, uma vez que Deus havia perdoado uma dívida muito maior. Mesmo assim, não consigo perdoar "setenta vezes sete". Depois de um certo limite, o meu orgulho exige que se faça justiça, que os que me fizeram mal paguem pelo que fizeram. É como se, no fundo, eu me achasse melhor que eles, e que eu achasse que não mereceria todo o julgamento que eu exijo para eles.
Por mais que eu tentasse sufocar o meu orgulho, ele aparecia com toda a
sua força nos momentos em que a minha pretensa humildade era posta à
prova. Tenho dificuldades em perdoar a minha esposa e aceitá-la como ela é, por achar que o que ela fez comigo foi imperdoável. Tenho dificuldades em aceitar críticas dos outros, por achar que eu me critico o suficiente, embora eu saiba que estou longe de ser perfeito. Eu mesmo me coloco em uma posição inferior do que eu mereceria, mas a minha ira se acende quando os outros me mantêm nesta posição ou me colocam em uma posição ainda inferior. Em muitos aspectos, o exercício da humildade pareceu-me inútil, pois parecia gerar apenas uma humildade falsa e superficial.
Então, eu desisti de tentar ser humilde. Talvez o caminho da conquista sobre o pecado do orgulho não seja o de confrontá-lo diretamente, mas o de andar junto com alguém que seja genuinamente humilde, e adquirir esta virtude com a convivência. Talvez eu só possa tornar-me realmente humilde à medida em que eu seja humilhado, em que o meu orgulho seja exposto em todas as suas formas, em que eu sinta o peso da minha imperfeição, a limitação da minha capacidade intelectual, a gravidade dos meus pecados, e a minha necessidade de me apoiar em Deus e em outras pessoas para continuar caminhando.
Diz-se que os mais avançados na santificação vêem a si mesmos mais pecadores do que no início da vida com Deus, por terem adquirido uma maior sensibilidade ao pecado. Frequentemente eu sinto que, a cada dia eu estou piorando, e não melhorando, no meu caráter e nas minhas atitudes. Será que o que eu sinto reflete a realidade, ou será que estou no caminho certo para vencer o orgulho? Talvez eu não devesse nem mesmo fazer esta pergunta. Provavelmente, aqueles que são realmente humildes nem devem se dar conta de sua humildade.
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