terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O caminho dos pastores e o caminho dos reis magos

A vida, a mensagem e a obra de Jesus Cristo seguiram uma lei que eu denomino como a "lei da reversão": ele contrariava tudo o que dizia o bom-senso. Em Cristo, os primeiros seriam os últimos, os últimos seriam os primeiros, os publicanos e as prostitutas estariam mais perto do reino dos céus que os religiosos, os samaritanos eram mais compassivos e os gentios tinham mais fé que o próprio povo de Deus. Os bem-aventurados eram os pobres, os que choram, os mansos e os perseguidos. Já os ricos e poderosos, como é difícil para eles entrarem no reino de Deus!

Eu considero que o nascimento de Jesus também seguiu a mesma lei. Ao contrário do que diz o senso comum, Jesus não nasceu em "berço de ouro", digno de alguém que seria denominado "rei dos judeus". Ele foi filho de um casal humilde, que só tinha condições de comprar dois pombos para oferecer em sacrifício. Ele foi fruto de um milagre que despertou desconfiança, e não admiração, das outras pessoas. Ele nasceu em condições emergenciais, durante uma viagem para uma cidade insignificante. Quando Maria entrou em trabalho de parto, eles não conseguiram lugar para dar à luz, a não ser em um estábulo.

Por mais circunstancial que tenha sido a situação em que Jesus nasceu, creio que houve um propósito nela. Jesus nasceu quase como um "sem-teto" para que tornasse acessível para todos os que quisessem vê-lo. Visitar o filho de um rei que nasceu em um palácio certamente não seria possível para um súdito qualquer. Visitar um bebê em uma estrebaria seria muito fácil, pois não haveria portões, muralhas e guardas para intimidar os que iriam visitá-los.

Mesmo assim, a  Bíblia registra apenas dois grupos de pessoas que visitaram Jesus quando ele nasceu. Os primeiros visitantes do rei foram pastores que estavam nas imediações, cuidando de seu rebanho. A profissão de pastor era considerada uma das menos nobres da época, reservadas àqueles que não tinham conseguindo seguir outra profissão. Foram a esses humildes pastores que Deus escolheu anunciar a notícia mais importante da história: o salvador do mundo havia nascido. Cheios de alegria, eles foram até a estrebaria para visitar o bebê, deitado em uma manjedoura. O caminho dos pastores foi simples e direto: eles estavam muito perto do Salvador.

Já o caminho dos reis magos foi muito mais longa e difícil. Eles eram dotados de muita riqueza, poder e sabedoria no país onde eles viviam. Ao avistar o céu, eles notaram uma estrela diferente das outras. A investigação sobre essa estrela levou-os a deixar o conforto dos seus lares para seguir uma viagem de vários dias no deserto, em direção à Judeia para ver o "rei dos judeus". Em um certo momento, equivocaram-se ao buscar o rei no palácio real, mas, ao serem direcionados para Belém, encontraram a estrela novamente, que os guiou até Jesus. Chegando ali, eles adoraram-no e presentearam-no com o que tinham de melhor.

Eu não sou rei, não sou mago, não sou tão sábio e nem tão rico assim. No entanto, eu vejo o meu caminho muito semelhante ao dos reis magos. Provavelmente eu não correria imediatamente ao estábulo ao ouvir um coro de anjos cantando: eu ficaria tentando explicar o fenômeno cientificamente, duvidaria que o salvador do mundo estaria deitado em uma manjedoura, e continuaria o que eu estava fazendo. Ao invés disso, Deus conseguiu chamar a minha atenção ao colocar ao meu redor estrelas que brilhavam diferentemente das outras. Movido pela curiosidade, eu investiguei a causa deste brilho anormal, o que me levou a me convencer de que havia um rei maior que eu mesmo, a quem deveria buscar e adorar.

Empacotei tudo o que eu tinha de mais precioso e comecei uma longa jornada para encontrar-me com esse rei. Esta jornada seria longa e perigosa, não porque Jesus estava muito inacessível para mim, mas porque eu estava muito inacessível para ele. Da mesma forma que ele se esvaziou, eu também deveria me esvaziar. Deveria mudar totalmente os meus valores. Deveria considerar tudo o que eu tinha conquistado até agora como lixo, comparado com aquilo que eu conquistaria. Precisaria deixar de confiar na minha sabedoria, nas minhas riquezas e nas minhas forças para encontrá-lo.

Algumas vezes, equivoquei-me na minha jornada, ao confiar em outras pessoas para encontrá-lo: encontrei pessoas que falavam de Deus e de Jesus, mas que não o buscavam e nem queriam adorá-lo: talvez até quisessem matá-lo, se pudessem. A decepção com essas pessoas, por algum tempo, transformou-se em decepção com o caminho. No entanto, o brilho estranho da estrela ainda persistiu, e eu resolvi continuar seguindo.

Não sei dizer se eu já o encontrei. De uma forma, encontrei-me com Jesus no momento em que eu pedi para que ele entrasse no meu coração e transformasse a minha vida. No entanto, quando eu analiso o meu coração, eu vejo o quanto eu ainda preciso caminhar: o destino ainda está muito longe. Provavelmente eu não cheguei ao ponto em que poderia encontrar-me face a face com ele e depositar a seus pés tudo o que eu tenho de mais precioso aqui na terra: os meus talentos, as minhas conquistas, a minha família e a minha riqueza. Por isso, a caminhada continua.

De fato, quão difícil é para o rico entrar no reino dos céus! É mais fácil um camelo entrar na ponta de uma agulha do que um rico no reino dos céus. No entanto, para Deus nada é impossível. Para mim, a maior prova de que Deus pode fazer o impossível é fazer com que uma pessoas incrédula, orgulhosa e obstinada como eu entre no reino dos céus.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Um Deus de coragem

A coragem é um daqueles traços de caráter que eu busco e admiro. Considero-me uma pessoa covarde, que se intimida com qualquer adversidade, e que não consegue vencer os seus medos. Eu leio sobre homens e mulheres de Deus que sofreram perseguições pela causa de Cristo, e pergunto-me se algum dia poderei ter a coragem deles: eu já fiquei intimidado por muito menos que a ameaça de morte. Para piorar, eu vejo que a coragem é uma qualidade indispensável para entrar no céu. A Bíblia diz que o lugar dos tímidos é no "lago de fogo que queima com enxofre" (Apocalipse 21:8).

Creio que a coragem é uma virtude essencialmente humana, ao contrário de outras virtudes que são reflexos do caráter de Deus. Tenho a impressão de que a coragem só pode ser manifesta em algumas condições que só podem ser encontradas em seres limitados como nós.

Em primeiro lugar, é necessário que o ato de coragem envolva algum risco ou adversidade como consequência do ato. O presidente de uma empresa que pode decidir o que quiser sem ser questionado não necessita de coragem para tomar qualquer decisão. Um super-herói invulnerável não precisa ter coragem, pois não há nada que o possa atingir. Eram os semideuses mortais - e não os deuses imortais - os heróis da mitologia grega.

Em segundo lugar, é necessário haver um sentimento de medo. Uma pessoa que não tem a noção do perigo que corre e comete atos supostamente corajosos é uma pessoa louca, não necessariamente corajosa. Quando alguém arrisca a própria vida por não desejar continuar vivendo, ele comete suicídio, não um ato de coragem.

Portanto, eu vejo a coragem como a nossa capacidade de superar os nossos medos, dispondo-nos a sofrer com as consequências dos nossos atos para seguirmos a nossa consciência. Uma pessoa corajosa supera os seus medos porque é movida por uma força ainda maior que o seu medo. Uma mãe arrisca sua vida para salvar o seu filho porque o seu amor por ele é maior que o seu senso de perigo. Um mártir sob ameaça de morte resolve não negar a Cristo porque o seu amor a ele supera o amor por sua própria vida.

Por isso, eu considero que o Natal introduziu a coragem como uma virtude inédita de Deus. Não se teve antes e nem depois um Deus que tivesse coragem. Afinal de contas, um Deus que permanece na sua soberania e onipotência não precisa ser corajoso, a não ser que saia de sua soberania e onipotência para tornar-se humano.

No Natal, o Deus eterno, todo-poderoso, criador dos céus e da terra, rei do universo e cheio de glória desce do seu trono e torna-se um ser minúsculo e desprezível. Ele aceita viver sob a leis dos homens. Ele passa a sentir fome, sede, alegria, tristeza, prazer, dor, medo, angústia e sofrimento como qualquer outro homem. Ele vive entre nós, sofre tentação, incompreensão, ameaça, desprezo, injustiça, discriminação e hostilidade. Eventualmente, ele passa pela experiência mais aterradora para um ser humano: a morte. Jesus fez tudo isso simplesmente porque o amor de Deus por nós e a sua determinação em nos salvar superaria a dor de passar por esse processo de auto-esvaziamento. Se isso não é um ato de coragem, não sei o que mais poderia ser...

Definitivamente, o exemplo de coragem de Cristo é o que inspirou os seus seguidores a serem corajosos. Os seus discípulos andaram pelos quatro cantos do mundo civilizado da época para pregar o evangelho, e todos pagaram o preço por isso: foram presos, açoitados, exilados, apedrejados, decapitados, e até mesmo crucificados. Eles viram nesse sacrifício a alegria de serem dignos de imitá-lo também em seus sofrimentos.

O exemplo de Cristo também é o que me inspira a buscar a coragem, mesmo que seja de uma maneira muito tímida. Em algum momento, eu engulo o meu orgulho e peço perdão a alguém a quem eu ofendi. Em outro, eu falo sobre o amor de Cristo para pessoas que poderão ser hostis ao evangelho. Em outra ocasião, eu curvo a minha cabeça e agradeço a Deus pelas suas bênçãos, em um ambiente onde metade das palavras são "palavrões". Algumas vezes, eu assumo os meus erros diante dos meus superiores, sabendo que a minha confissão irá trazer consequências negativas para mim. São atos mínimos de coragem em relação aos heróis da fé que pagaram com a vida o seu compromisso de obedecer a Deus, mas creio que isso é somente o começo de uma longa jornada que tenho a percorrer.

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma família cristã na Holanda começou a esconder os seus vizinhos judeus. Eventualmente, o esconderijo foi descoberto, e a família foi levada a um campo de concentração, do qual apenas uma sobreviveu. Ao relatar a sua experiência antes de ser presa, Corrie Ten Boom perguntava a seu pai se teria forças para passar pela experiência de um campo de concentração. Sabiamente, o pai respondia que Deus daria a dose que ela precisaria, quando chegasse a hora. É possível que eu um dia viva em uma realidade em que os que professam a Cristo serão abandonados pela família, serão hostilizados, serão ameaçados de morte, perderão os seus empregos, serão levados à prisão, ou até mesmo serão mortos. Eu pergunto-me se eu estarei pronto para quando esse dia chegar: terei eu a coragem de seguir a Cristo, ou, na minha covardia, negarei a meu Mestre, como fez Pedro durante o julgamento de Jesus? A minha esperança é que, quando esse dia chegar, eu receba de Deus a medida certa da coragem que eu preciso para confessá-lo diante dos poderosos.