A coragem é um daqueles traços de caráter que eu busco e admiro. Considero-me uma pessoa covarde, que se intimida com qualquer adversidade, e que não consegue vencer os seus medos. Eu leio sobre homens e mulheres de Deus que sofreram perseguições pela causa de Cristo, e pergunto-me se algum dia poderei ter a coragem deles: eu já fiquei intimidado por muito menos que a ameaça de morte. Para piorar, eu vejo que a coragem é uma qualidade indispensável para entrar no céu. A Bíblia diz que o lugar dos tímidos é no "lago de fogo que queima com enxofre" (Apocalipse 21:8).
Creio que a coragem é uma virtude essencialmente humana, ao contrário de outras virtudes que são reflexos do caráter de Deus. Tenho a impressão de que a coragem só pode ser manifesta em algumas condições que só podem ser encontradas em seres limitados como nós.
Em primeiro lugar, é necessário que o ato de coragem envolva algum risco ou adversidade como consequência do ato. O presidente de uma empresa que pode decidir o que quiser sem ser questionado não necessita de coragem para tomar qualquer decisão. Um super-herói invulnerável não precisa ter coragem, pois não há nada que o possa atingir. Eram os semideuses mortais - e não os deuses imortais - os heróis da mitologia grega.
Em segundo lugar, é necessário haver um sentimento de medo. Uma pessoa que não tem a noção do perigo que corre e comete atos supostamente corajosos é uma pessoa louca, não necessariamente corajosa. Quando alguém arrisca a própria vida por não desejar continuar vivendo, ele comete suicídio, não um ato de coragem.
Portanto, eu vejo a coragem como a nossa capacidade de superar os nossos medos, dispondo-nos a sofrer com as consequências dos nossos atos para seguirmos a nossa consciência. Uma pessoa corajosa supera os seus medos porque é movida por uma força ainda maior que o seu medo. Uma mãe arrisca sua vida para salvar o seu filho porque o seu amor por ele é maior que o seu senso de perigo. Um mártir sob ameaça de morte resolve não negar a Cristo porque o seu amor a ele supera o amor por sua própria vida.
Por isso, eu considero que o Natal introduziu a coragem como uma virtude inédita de Deus. Não se teve antes e nem depois um Deus que tivesse coragem. Afinal de contas, um Deus que permanece na sua soberania e onipotência não precisa ser corajoso, a não ser que saia de sua soberania e onipotência para tornar-se humano.
No Natal, o Deus eterno, todo-poderoso, criador dos céus e da terra, rei do universo e cheio de glória desce do seu trono e torna-se um ser minúsculo e desprezível. Ele aceita viver sob a leis dos homens. Ele passa a sentir fome, sede, alegria, tristeza, prazer, dor, medo, angústia e sofrimento como qualquer outro homem. Ele vive entre nós, sofre tentação, incompreensão, ameaça, desprezo, injustiça, discriminação e hostilidade. Eventualmente, ele passa pela experiência mais aterradora para um ser humano: a morte. Jesus fez tudo isso simplesmente porque o amor de Deus por nós e a sua determinação em nos salvar superaria a dor de passar por esse processo de auto-esvaziamento. Se isso não é um ato de coragem, não sei o que mais poderia ser...
Definitivamente, o exemplo de coragem de Cristo é o que inspirou os seus seguidores a serem corajosos. Os seus discípulos andaram pelos quatro cantos do mundo civilizado da época para pregar o evangelho, e todos pagaram o preço por isso: foram presos, açoitados, exilados, apedrejados, decapitados, e até mesmo crucificados. Eles viram nesse sacrifício a alegria de serem dignos de imitá-lo também em seus sofrimentos.
O exemplo de Cristo também é o que me inspira a buscar a coragem, mesmo que seja de uma maneira muito tímida. Em algum momento, eu engulo o meu orgulho e peço perdão a alguém a quem eu ofendi. Em outro, eu falo sobre o amor de Cristo para pessoas que poderão ser hostis ao evangelho. Em outra ocasião, eu curvo a minha cabeça e agradeço a Deus pelas suas bênçãos, em um ambiente onde metade das palavras são "palavrões". Algumas vezes, eu assumo os meus erros diante dos meus superiores, sabendo que a minha confissão irá trazer consequências negativas para mim. São atos mínimos de coragem em relação aos heróis da fé que pagaram com a vida o seu compromisso de obedecer a Deus, mas creio que isso é somente o começo de uma longa jornada que tenho a percorrer.
Durante a Segunda Guerra Mundial, uma família cristã na Holanda começou a esconder os seus vizinhos judeus. Eventualmente, o esconderijo foi descoberto, e a família foi levada a um campo de concentração, do qual apenas uma sobreviveu. Ao relatar a sua experiência antes de ser presa, Corrie Ten Boom perguntava a seu pai se teria forças para passar pela experiência de um campo de concentração. Sabiamente, o pai respondia que Deus daria a dose que ela precisaria, quando chegasse a hora. É possível que eu um dia viva em uma realidade em que os que professam a Cristo serão abandonados pela família, serão hostilizados, serão ameaçados de morte, perderão os seus empregos, serão levados à prisão, ou até mesmo serão mortos. Eu pergunto-me se eu estarei pronto para quando esse dia chegar: terei eu a coragem de seguir a Cristo, ou, na minha covardia, negarei a meu Mestre, como fez Pedro durante o julgamento de Jesus? A minha esperança é que, quando esse dia chegar, eu receba de Deus a medida certa da coragem que eu preciso para confessá-lo diante dos poderosos.
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