sábado, 4 de abril de 2015

Feliz Páscoa

Há alguns meses atrás, assisti a um filme chamado Deus não está morto, uma história sobre os conflitos entre um estudante cristão e o seu professor ateu. O título do filme faz referência à palavra de ordem de alguns ateus militantes nos Estados Unidos: Deus está morto.

Obviamente, a frase deve ser interpretada no sentido figurativo: afinal de contas, para estar morto é necessário que Deus exista. Deus está morto porque não há motivos racionais para crer nele, uma vez que a ciência e a filosofia são ou serão capazes de explicar todos os mistérios da natureza. Eles não só não acreditam na existência de Deus, mas também desejam vê-lo morto à medida em que as pessoas param de crer na sua existência, da mesma forma que as crianças param de acreditar em Papai Noel em algum momento de sua infância.

Em parte, eu concordo com o lema desses ateus militantes: ao menos durante um período na história, Deus esteve morto. 

Nesta semana, cristãos do mundo inteiro celebram o evento que eles consideram o mais importante da história, o fundamento de tudo aquilo que eles creem. Há aproximadamente dois mil anos, um homem morreu, e da pior forma possível. Este homem dizia ser o Filho de Deus, que era um com o Pai e que existia com ele antes da criação do mundo. 

Como é possível que um Deus todo-poderoso, que criou os céus e a terra, e que tem o Universo em suas mãos sofra a morte? Deus não seria imortal? Esta história é quase impossível de acreditar ... e, mesmo assim, esta incrível história partiu de um país desprezível do Império Romano para alcançar bilhões de ouvintes nos quatro cantos de terra. Muitos não só receberam esta história como verdadeira, mas também receberam-na com alegria, como se ela fosse a resposta às necessidades mais profundas de sua alma.

Ao ouvir colegas dizendo que não acreditam na existência de Deus, pergunto-me por que Deus não se manifesta claramente, de forma a tirar toda a dúvida sobre a sua existência. Da mesma forma, eu penso no que aconteceu nas horas que antecederam a morte de Deus: traído por um amigo íntimo, abandonado por outro amigo, acusado sem motivo legal, açoitado, desprezado, zombado, trocado por um criminoso, ferido com uma coroa de espinhos, obrigado a carregar a cruz até um monte, pregado e crucificado, Deus simplesmente não fez nada. Ele poderia, com um simples sinal, convocar um exército de anjos para socorrê-lo, mas não fez absolutamente nada.

Eu posso ouvir as pessoas zombando de Deus naquela tarde de sexta-feira:

- Se Tu és Deus, adivinha quem foi que te bateu!
- Se Tu és Deus, desce da cruz!
- Se Tu és Deus, salva-te a si mesmo e salva-nos também!
- Se Tu és Deus, resolve o problema da fome deste mundo!
- Se Tu és Deus, dá-me um carro zero e uma casa com piscina!
- Se Tu és Deus, faze uma pedra que não possas carregar!

No entanto, quando olho para o Deus crucificado, eu só vejo o seu silêncio. Deus ficou mudo. Por que ele não se defendeu?

Deus não fez nada porque ele escolheu passar por esse sofrimento. Em contraste com o mal que se manifestava com todo o seu poder sobre ele, o Deus sofredor olhava para os que queriam crucificá-lo: não com raiva e com sede de vingança, mas com amor. Ele veio para salvar àquelas mesmas pessoas que queriam vê-lo morto. Ele pediu ao Pai que os perdoassem. Quando ainda éramos pecadores, Deus nos amou.

A própria morte de Deus foi uma ato voluntário. Ele havia dito antes que ninguém poderia tomar a sua vida, mas ele a daria voluntariamente. Quando o seu sacrifício foi consumado, Deus morreu. Deus escolheu sofrer a maior consequência do nosso pecado: a morte. Deus deu a sua vida por nós.

A história, no entanto, não terminou aqui. Deus esteve morto, mas somente por poucos dias. Ele ressuscitou, e a mensagem da ressurreição foi levada por seus discípulos até os confins da terra, com tanta convicção que a maioria deles preferiu ser martirizado a parar de pregá-la.

Sim, eu creio que Deus não está morto.

Mesmo assim, no sentido figurativo, ele morreu muitas vezes desde então. Deus morreu quando seus seguidores foram perseguidos, aprisionados, degolados, crucificados e jogados aos leões. Deus morreu quando a igreja foi corrompida pelo poder político e econômico deste mundo. Deus morreu quando as teorias da origem do universo e da origem das espécies dispensaram a existência de um criador, quando os marxistas relacionaram a fé nele a um alucinógeno que alienava o povo, e quando os psicanalistas consideraram-no como uma manifestação das nossas neuroses.

Também no sentido figurativo, Deus ressuscitou dos mortos. O sangue dos mártires fez a igreja crescer, ao invés de esmagá-la. Sempre que a igreja se afundou em corrupção, surgiram movimentos que renovaram a fé e restauraram a pureza da mensagem do evangelho. Em um mundo onde a grande maioria das escolas ensina as teorias de Darwin, a ideologia de Marx e as teses de Freud, a maioria das pessoas crê em um Deus vivo, que criou o Universo e a vida, que nos dá sabedoria ao invés de nos alienar, e que nos faz saudáveis e não neuróticos.

Talvez Deus insista em ressuscitar porque não é possível ficar indiferente a um Deus como esse, mesmo não crendo que ele exista. Mesmo que eu possa, racionalmente, concluir que não há provas concretas da existência de Deus, a minha alma ainda suspira por ele. O nosso ser possui um buraco que nada no mundo que nos cerca é capaz de preencher, e a nossa alma não tem descanso até encontrar o Deus que está nos faltando. A nossa alma só encontra paz quando o motivo que nos separou de Deus for resolvido, e a história da páscoa nos lembra que esse problema foi resolvido pelo próprio Deus. A mensagem da páscoa foi a chave que se encaixou no vazio de minha alma e abriu o meu coração para a vida eterna.

Por isso, meus amigos, eu celebro a páscoa. Por isso, eu junto-me ao coro de todos os cristãos desse mundo: Cristo morreu, mas ressuscitou ao terceiro dia. Sim, ele ressuscitou!

Feliz páscoa para vocês.

Hélio.