No momento em que estou escrevendo, completaram-se 16 dias desde que eu perdi uma pessoa relativamente próxima. A minha avó faleceu no dia 24 de janeiro de 2014, aos 93 anos, após uma infecção generalizada. Eu fui ao velório no dia seguinte, e vi o seu corpo sendo enterrado ao lado de seu esposo.
Mesmo já tendo passado dos quarenta anos, as minhas experiências com a morte até agora não foram traumáticas e nem causaram sofrimento a ponto de impedir que eu "seguisse a vida". Todos os meus avôs já haviam falecido quando eu nasci, exceto a minha avó materna. Perdi uma tia de quem eu lembrava-me vagamente quando era criança. Já quando adulto, conheci amigos não muito próximos que perderam a vida. Talvez a morte que eu mais senti tenha sido a de uma senhora da igreja que me acolheu quando eu acabava de me mudar para os Estados Unidos, sem falar muito inglês: mesmo assim, eu já estava no Brasil e não tinha mais contato com ela no momento em que ela faleceu: tive essa notícia através de um outro amigo.
Os livros de biologia básica definem a morte como uma atribuição unica dos seres vivos: todos os seres vivos nascem, crescem, desenvolvem-se reproduzem ... e morrem. A morte deveria ser considerada como um processo natural, assim como o fato de que temos de comer e respirar para sobreviver. A morte é inevitável, como se fosse uma sentença sumária proferida por todos os que cometeram o crime de viver. A lógica deveria levar-nos a ver a morte com naturalidade e resignação.
A minha experiência recente com a morte, no entanto, revelou algo completamente diferente. A minha avó já tinha bastante idade, e já não tinha mais forças para sair da cama. Ela dependia de cuidados dos familiares durante 24 horas ao dia, 7 dias por semana. Mesmo assim, quando ela nos deixou, o meu sentimento foi mais profundo que o alívio por ela ter parado de sofrer. Senti que algo estava errado com aquele enterro, como se aquilo não devesse estar acontecendo. Existe algo de muito errado com a morte.
Com poucas exceções, os homens geralmente não se conformam com a morte, e tentam de alguma forma eternizar a presença dos que foram. Os egípcios mumificavam os seus reis para evitar que os corpos sofressem decomposição; os hindus viam a morte como parte de um processo de reencarnação com o objetivo de melhorar o seu carma; os budistas do Japão montavam altares para os seus entes falecidos, rezavam para eles e até mesmo traziam-lhes comida. Mesmo nos tempos modernos, tentamos imortalizar a presença de pessoas que foram nossos ídolos (afinal de contas, Elvis não morreu ...). Talvez seja possível explicar como é que o homem chegou a ter essa aversão à morte pelos processos evolutivos naturais: mesmo se existir uma teoria para isso, tenho a impressão de que ela seria tão complexa que talvez seja mais fácil crer que este sentimento indique que a morte não faz parte da nossa essência.
Existe uma citação de Salomão de que nós, os seres humanos, vivemos para a eternidade: talvez seja essa a nossa maior diferença com outros animais, e o maior motivo pela qual a Bíblia tenha dito que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Deus não nos implantou o gene da morte em nós nem nos criou com prazo de validade. Ele não nos programou para que, depois de alguns anos de vida, as nossas células começassem a envelhecer, os nossos órgãos parassem de funcionar direito, a visão enturvar, a memória a falhar, até deixarmos de respirar e voltarmos ao pó da terra. Foi para a eternidade que ele nos criou.
Muitos vêem a eternidade como um simples prolongamento da linha do tempo: dessa forma, a vida eterna seria equivalente a viver mais de um milhão de anos. Eu vejo a eternidade mais como uma dimensão que transcende o tempo. A eternidade não está presa ao tempo: assim como o autor de um livro tem a liberdade de contar a sua narrativa na cronologia que achar mais conveniente, um ser eterno pode navegar pelo tempo sem limitações. Ele enxerga o tapete como um todo, não somente o fio que está sendo tecido em um certo momento. Para um ser eterno, não faz sentido a pergunta "e se...?", pois ele sabe que hipóteses nunca acontecerão. Na minha visão, nós formos criados para ser assim.
Se aparentemente não somos assim, é porque de alguma forma sofremos de algum tipo de amnésia. Como um náufrago que conseguiu chegar a uma ilha e tenta sobreviver nela, aos poucos perdemos a memória daquilo que somos em nossa essência. Esquecemos de onde viemos, e tentamos viver a nossa vida como se a eternidade não existisse. Estudamos para poder trabalhar, trabalhamos para sobreviver, sobrevivemos para trabalhar e divertimo-nos para esquecer por alguns instantes da falta de sentido naquilo que fazemos. Somos águias com comportamento de galinha. Normalmente, vivemos muito bem dessa maneira, e até cremos que esta é a vida real ... até que somos confrontados com a morte.
Quando a minha avó faleceu, todos os compromissos que eu tinha, todas as tarefas que eu tinha para fazer, todas as coisas que eu queria comprar, repentinamente perderam importância. A morte fez-me perceber que tudo o que estou tentando construir nesta vida aqui na terra deve ser considerado lixo, pois deste lugar não poderei levar nada. Provavelmente as riquezas que eu acumular aqui serão usados e desperdiçados por pessoas que colherão o fruto daquilo que não semearam. A morte fez-me ver que diversão é apenas o que a palavra diz: um conjunto de atividades para desviar a nossa atenção da realidade, de que as nossas vidas são realmente vazias e sem sentido, e que deve haver alguma outra coisa além dessa vida. A morte também fez-me ver que ela é uma inimiga a ser vencida.
Há um ditado que diz que "há um jeito para tudo, menos para a morte". Para a morte, não há "jeitinho" que resolva: ela precisa ser derrotada. Para mim, a resposta foi dada por Deus em uma manhã de um domingo, há cerca de dois mil anos atrás. O evento da páscoa mostrou que a morte não é irreversível: um homem passou pela morte e sobreviveu, ressuscitando ao terceiro dia. Este homem veio para tirar-nos deste estado de amnésia e resgatar-nos para aquilo que realmente deveríamos ser. Ele veio para tirar-nos da morte e dar-nos a vida eterna.
Obviamente, isso não quer dizer que todos os que creram nele simplesmente deixaram de morrer: a realidade desmentiria esta afirmação. No entanto, eu diria que alguns apegaram-se à promessa de que, um dia, a morte seria totalmente derrotada. Eles experimentaram uma pequena amostra da vida eterna que os esperavam, e viram que tudo o que tinham aqui era esterco, mesmo comparado a essa pequena amostra que provaram. Eles escolheram viver em preparação àquilo que esperavam na eternidade e, de alguma forma, começaram a viver esta vida eterna aqui, mesmo. Embora vivessem neste mundo, eles sentiam-se estrangeiros aqui, como se o seu lar estivesse em outro lugar, ou em outra dimensão. Às vezes, eles esqueciam daquilo que haviam experimentado e voltavam a viver as suas vidas medíocres aqui na terra: no entanto, bastava um pequeno vislumbre da eternidade para que eles se lembrassem daquilo que eles realmente eram. A morte deixou de aterrorizá-los: ela não é meramente um evento natural, nem o final de sua existência, mas a ponte para a vida que eles tinham sido criados para viver. Repetindo as palavras de seu mestre, "ainda que morram, viverão".