sábado, 12 de novembro de 2022

O dia seguinte

A noite de 30 de outubro de 2022 foi terrível para mim. Meu coração, ansioso com o resultado das eleições de segundo turno para presidente do Brasil, não conseguiu encontrar descanso. "Acabamos de pular diretamente para o abismo. Vamos aguentar quatro anos de um partido corrupto e com fome de poder e vingança? Quão pior o Brasil poderá ficar? Chegará a ficar em uma situação parecida com nossos países vizinhos? Revogarão definitivamente a nossa liberdade de expressão? Chegamos em um ponto onde não teremos mais volta? Precisaremos fugir daqui e procurar outro país?" Meu corpo virava de um lado para outro na cama e tive uma sensação de desespero, como se tivesse entrado em uma caverna escura, sem conseguir ver uma luz no final do túnel. 

Imagino que essa tenha sido a sensação de parte dos cidadãos brasileiros: um misto de decepção, tristeza, raiva e ansiedade. Muitos sacrificaram seu tempo, seu esforço, seus bens e até mesmo perderam amigos tentando evitar este desfecho - para concluir que, aparentemente, todo esse esforço foi em vão. Olhamos perplexos para colegas dispostos a votar em um partido conhecidamente corrupto, questionando o que poderia levá-los a tal insensatez. Tememos pelo futuro, não apenas com o cenário econômico, mas também com a escalada de crimes e com a perda de nossas liberdades individuais nos próximos anos.

O que devemos fazer agora?

Sinceramente, não tenho nenhuma resposta definitiva para essa pergunta. Não sei se é "menos pior" sair às ruas para protestar contra a injustiça do processo eleitoral ou aceitar o resultado passivamente e esperar quatro anos de governo com esperanças que a próxima eleição seja justa e limpa: nenhuma das opções me parecem boas. Mesmo assim, após noites sem dormir refletindo sobre a situação, pensei em algumas coisas que eu, como cidadão brasileiro e cidadão do céu, posso fazer nesses tempos difíceis. 

Controlar minha ansiedade

 Os meus poucos anos de experiência de vida confirmaram as palavras de Jesus Cristo: "Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?".

Eu tive uma experiência semelhante a esta há 8 anos atrás, após uma outra eleição para presidente. Na minha angústia, escrevi um texto tentando encontrar um sentido para o que havia acontecido. 

Hoje eu sei qual foi o desfecho. Parte das minhas preocupações tornaram-se realidade: economia em depressão profunda, ondas de demissões, escândalos de corrupção reportados nos noticiários quase todos os dias, presidente removida do poder após dois anos e meio de discursos indecifráveis e protestos da população, ex-presidente e quase todos os membros do partido condenados e presos por corrupção. Até agora estamos colhendo os frutos dos anos deste partido no poder. Por outro lado, o Brasil sobreviveu àqueles quatro anos de crise e instabilidade e até conseguiu se recuperar parcialmente. Eu também sobrevivi e não estive desamparado durante todo aquele período. 

Hoje, pergunto-me qual foi o proveito de toda aquela ansiedade: ela me consumiu uma enorme quantidade de energia sem ter produzido nada de relevante. 

Lutar pelo país

Para mim, desistir do Brasil não é uma opção. 

Eu fui trabalhar nos Estados Unidos em 1997, quando o Vale do Silício vivia uma prosperidade que parecia não ter fim. O período em que eu morei no exterior mostrou-me onde um país poderia chegar com um povo que preza pela liberdade, ama sua pátria e não confia no Estado para suprir suas necessidades. Após cumprir os três anos do visto de trabalho, decidi voltar ao Brasil, para espanto e incredulidade de meus colegas de trabalho. Lá eu tinha uma vida confortável, mas sabia que o Brasil continuava a ser a minha pátria, apesar de todas as suas mazelas. Foi o Brasil que acolheu meus avôs, foi nele que eu nasci e foi ele que me deu uma formação profissional. Era neste país que eu deveria dar a minha contribuição - por menor que fosse - para melhorar a vida de seu povo. 

Naquela época, o patriotismo era rejeitado pelos brasileiros. Eles amavam falar mal de seu próprio país e de seu povo, tratando-o com vergonha e desprezo em relação aos países de Primeiro Mundo. Hoje, o patriotismo agora está em alta, e não é raro ver pessoas expressando seu amor pelo Brasil nas ruas hoje em dia e se importando com os rumos desta nação.

O poder agora está tomado novamente pelos políticos de sempre e as instituições que poderiam contê-los não nos parecem muito confiáveis. O Brasil talvez esteja entrando no momento mais difícil de sua história. Por isso, cabe a nós - meros cidadãos - estar em eterna vigilância e fazer o que estiver ao nosso alcance para evitar que eles destruam o país. 

Manter a esperança

A minha esperança é que, um dia, o Brasil se torne um grande país e uma potência mundial, com um povo próspero e livre. 

Nos últimos anos, este sonho parecia estar muito próximo da realidade. O Brasil havia saído de uma pandemia com as contas acertadas, a economia em plena recuperação, a pobreza, a corrupção e os crimes diminuindo, as obras de infra-estrutura concluídas e os investimentos chegando. Estávamos prontos para decolar, bastando apenas acertar a parte política e judicial.

Após a eleição, esse sonho parece muito mais distante. Confesso que é difícil aceitar que, com essa eleição, o Brasil tenha desperdiçado mais uma enorme chance de sair do atraso. Voltamos à estaca zero. 

Mesmo assim, prefiro ver essa situação como um sonho adiado. A libertação do país será um trabalho de décadas, talvez de séculos. Talvez os frutos sejam colhidos somente nas próximas gerações. Quando olho o futuro com esperança, persigo a meta com paciência e perseverança, batalhando um dia após o outro, fazendo a minha parte - realizando meu trabalho com excelência, cuidando dos que estão ao meu redor, discutindo os melhores caminhos para esse país e transmitindo estes valores à próxima geração. 

Esperar pela justiça de Deus. 

Os acontecimentos dos últimos anos mostraram que a justiça no Brasil é mais parcial e corrupta que imaginávamos. 

Eu fico angustiado com o modo injusto como as leis do país estão sendo aplicadas. Os verdadeiros criminosos - assaltantes, traficantes, estupradores, assaltantes e corruptos - são raramente detidos e, quando detidos, são soltos e até mesmo tornam-se candidatos a presidente. Cidadãos comuns, que não fazem mais que expressar uma opinião, são caluniados, assediados, desmonetizados, censurados, perseguidos e até mesmo presos. Os juízes sentem-se intocáveis e parecem não ter consciência da injustiça que estão cometendo. 

Na Bíblia, um salmista também discorreu contra a injustiça - "pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos". Por que pessoas más prosperam? Por que um Deus justo permite essa injustiça? Será que ele está vendo tudo isso?

Da mesma forma que com o salmista, a presença de Deus me faz ver esta situação sob uma outra perspectiva. Um dia, todas as injustiças serão corrigidas. Na presença de Deus, os poderosos escorregarão e serão tomados de terror. Quanto a mim, "bom é estar junto a Deus", sabendo que a ele pertence a justa vingança.

Ser grato

Mesmo desolado com essa eleição, tento imaginar o que aconteceria se o governo fosse outro nos últimos quatro anos. O meu palpite é que teria se tornado algo próximo a alguns de nossos países vizinhos. A saúva já teria acabado com o Brasil.

Penso em tudo o que aconteceu nos últimos anos, e não consigo deixar de ver a graça e a misericórdia de Deus sobre essa nação. Ele usou um parlamentar de baixo clero odiado pelas elites para mudar completamente o curso do país. Mais do que a melhora nas contas do governo, na economia, na segurança pública e nas obras de infra-estrutura, o presidente mudou o coração de sua população: passamos a ter orgulho e amor pelo Brasil, deixamos de ser ignorantes sobre as decisões tomadas em Brasília e passamos a participar mais da política. A verdade e o conhecimento libertaram a mente de muitos brasileiros. Por isso, quero crer que o hiato no projeto de poder do partido que governou o Brasil por treze anos será capaz de atrasar e até mesmo de reverter este projeto. 

Creio que não chegamos nesse ponto por acaso, mas foi pela ação de Deus e de muitos brasileiros que pagaram um alto preço - cancelados, presos, exilados, esfaqueados. A eles, muito obrigado. 

Buscar a reconciliação

Dizem que estamos vivendo em uma sociedade extremamente polarizada. A política destruiu amizades profundas, dividiu famílias e até mesmo colocou membros das igrejas umas contra as outras. Creio que nunca mais seremos mais os mesmos após as últimas eleições, que deixaram marcas profundas em nós. Alguns dos meus colegas da faculdade não querem mais comemorar os 30 anos de formatura com colegas de outro espectro político. Brasileiros de posições opostas não parecem estar muito dispostos a deixar as diferenças de lado para torcer juntos pela sua seleção na Copa. Irmãos em Cristo passam a considerar uns aos outros como inimigos. Hoje, parece impossível reconciliar os dois lados.

Mesmo assim, devo tentar. Estou convencido que, se não houver reconciliação, parte da população continuará com o coração obstinado e endurecido, disposto a apoiar um projeto político destrutivo até as últimas consequências, movido apenas pelo ódio a seus inimigos. 

"Amar meus inimigos e orar pelos que me perseguem" é provavelmente o mandamento mais difícil dado pelo Mestre. Confesso que não é fácil olhar com amor àqueles que nos chamam de fascistas, nazistas, rascistas, misóginos, homofóbicos, transfóbicos, genocidas, negacionistas, terraplanistas, anti-democráticos, golpistas, promotores de fake news e discurso de ódio, milicianos e gado - por ter encontrado alguma virtude no governo atual. É difícil orar por aqueles que aplaudem quando somos censurados, desmonetizados e perseguidos, que nos tratam como criminosos e menos que humanos. É ainda mais difícil quando essas pessoas são próximas de nós - familiares, amigos e irmãos em Cristo com quem temos algum relacionamento. 

Mesmo assim, sou instruído pela Palavra de Deus para, "se, possível, quanto depender de mim, ter paz perante todos os homens". Fui chamado para seguir os passos de Jesus que, "quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente". 

Creio que nem o presidente eleito nem o atual será capaz de curar as feridas abertas por essa "polarização" e unir o povo novamente. Só Jesus Cristo poderá fazer isso, através de discípulos dispostos a seguir seus passos, a perdoar os que os ofenderam e a pedir perdão por suas ofensas.  

Confiar

Termino a minha lista com a frase de um salmista da Bíblia: "em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro". Esta declaração de confiança e paz interior foi resultado da experiência dele com Deus, que respondeu quando ele clamou e o aliviou quando ele estava angustiado. Quando lanço minha ansiedade sobre ele, a "sua paz - que excede todo o entendimento - guardará o meu coração e minha mente em Cristo Jesus". Mesmo que o mundo esteja ruindo ao meu redor, posso dormir em paz, sabendo que meu Pai cuida de mim.




Sobre as eleições

[Escrito após as eleições de 2014]

Na noite do dia 20 de outubro, eu fui tomado por uma ansiedade incontrolável. Não consegui dormir direito naquela noite, tentando pensar o que seria de nós se aquilo que eu mais temia acontecesse. Os meus pensamentos eram tomados por sentimentos de raiva e temor. Sentia-me como estivesse próximo do fim do mundo, e tentava buscar alternativas para enfrentar um futuro sombrio.

O que aconteceu naquela noite foi simplesmente que as pesquisas de opinião passaram a apontar para a vitória da candidata à reeleição para assumir a presidência do Brasil. Por alguma razão a eleição desse ano foi diferente para mim. Ao contrário das outras vezes, o assunto "eleições" ocupou um espaço grande no meu tempo e no meu coração, Eu realmente acreditei que esta eleição seria crucial para o futuro do meu país. Acreditei que a reeleição do partido que permaneceu no poder durante 12 anos seria um desastre para o país, e que era mais que urgente dar a responsabilidade de liderar o país a um outro candidato que ao menos não destruiria o país para permanecer no poder. Eu não conseguia me abster diante dos comentários sobre política, e eu me irritava com os que não tinham a mesma opinião que a minha.

Naquela noite, eu tentei refletir sobre o que estava acontecendo com o meu coração. Eu comecei a ver que algo estava errado com ele. A política estava tornando-se um deus para mim. A minha fé e a minha esperança estavam sendo depositadas em partidos políticos -  instituições feitas por homens que, assim como eu, estão corrompidos pelo pecado. O amor pela política estava tirando a minha paz, incitando o ódio aos "outros" e tirando o meu foco em Jesus.

Eu vejo a democracia como um presente de Deus que não é dado a todos os povos, nem mesmo a todos os cristãos. Hoje em dia, temos a oportunidade de participar do jogo político, de escolher as pessoas que irão governar o país e de cobrar as suas promessas que fizeram quando foram eleitos. Como cidadãos, devemos participar ativamente do jogo político para buscar o melhor para a sociedade através das regras estabelecidas pelo regime democrático.

O meu problema foi confiar no dom ao invés do doador. Deus nunca dependeu do regime democrático para estabelecer seus propósitos nesse mundo. Deus pode nos sustentar, nos proteger e nos abençoar, independentemente de quem o povo escolher para presidente. Mesmo se o país deixar de ser democrático, Deus continuará sendo Deus. Na época em que a igreja nasceu, as pessoas não escolhiam seus governantes: eles eram simplesmente impostos aos seus súditos. A igreja vivia à margem do Estado, e muitas vezes era perseguida por recusar-se a adorar a César. No entanto, a existência de um Estado opressor não destruiu a igreja: muito pelo contrário, a igreja crescia, ganhava novos adeptos e aumentava a sua influência na sociedade.

Hoje, eu sei qual foi o resultado das eleições: o que eu mais temia realmente aconteceu. No dia seguinte à eleição, o clima nas ruas e nas redes sociais era de desespero, de preocupação, de insegurança, e até mesmo de ódio para com os que votaram na oponente. Eu não os condeno, pois os mesmos sentimentos invadiram os meus pensamentos naquela noite.

No entanto, eu resolvi ter uma outra atitude em relação a esta notícia. Ainda considero que o povo brasileiro fez uma escolha equivocada, e poderá pagar um preço caro por isso. É possível que a economia afunde, que a corrupção chegue a níveis intoleráveis, e que a democracia seja enfraquecida pelas constantes tentativas de calar todos os que se opõem ao partido que está no poder. Porém, quando tenho uma perspectiva sombria para o futuro, lembro-me de um profeta que previu um futuro sombrio para o seu povo: o reino seria invadido por um exército muito poderoso, que destruiria o país e o deixaria desolado. Diante da palavra de Deus, de que "o justo viverá pela fé", ele declarou:

"Ainda que os campos não floresçam, ainda que a videira não dê mais seu fruto, ainda que os montes se lancem ao mar, ainda assim eu me alegrarei no Deus de minha salvação".

Eu vejo nesta declaração do profeta a chave para colocar a minha fé e a minha esperança no lugar certo. Devo orar para que Deus dê sabedoria à "presidenta" para que ela governe bem o país e prove que as minhas previsões estavam equivocadas. Devo crer que, mesmo que as minhas previsões se cumpram, os propósitos de Deus para mim e para o seu povo não deixarão de se cumprir. E, por mais difícil que isso possa parecer, devo submeter-me a essa autoridade até onde não houver conflito com a autoridade de Cristo. Após a eleição, eu li uma declaração de um amigo que, da mesma forma que eu, tomou o partido da oposição durante as eleições:

"Eu acredito na Democracia. O povo brasileiro se manifestou, num pleito realizado segundo as regras democráticas. Dilma é a Presidente escolhida pela povo. Dilma é a Presidente de meu país. Dilma é minha Presidente. Que governe com sabedoria!"

Eu assino embaixo. Realmente desejo que a presidente eleita governe com sabedoria.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Noite de paz

[Escrito no natal de 2021]

Os que acompanham as minhas mensagens de Natal ao longo do ano sabem que eu não tenho muito entusiasmo por essa temporada. A todas as obrigações que normalmente tenho de assumir na família e na sociedade, soma-se a correria típica de uma época na qual tudo o que eu desejava era descansar um pouco da loucura que foi este ano: congestionamentos, dificuldades em estacionar nas ruas,  shopping centers lotados, compra de presentes, enfeites, preparação da ceia, gorgetas natalinas, etc., etc. Para dizer a verdade, no final do ano identifico-me mais com o Grinch que com o Papai Noel.

Talvez meu ceticismo tenha vindo da minha experiência de Natal na infância, que não foi exatamente romântica. Como filho de comerciantes, o final de ano era muito bom ... para a família ganhar dinheiro e poder quitar todas as dívidas contraídas durante o ano. Trabalhávamos duro e não tínhamos tempo para a celebração do feriado. Na véspera do Natal, após o fechamento da loja voltávamos para casa e meu pai fazia a contabilidade das vendas. Se tivéssemos conseguido fechar o ano no azul e pagar todas as dívidas, respirávamos aliviado; se não, sabíamos que o ano seguinte seria complicado. De qualquer forma, não havia presentes, não havia comida especial, não havia enfeites na casa, não havia canções natalinas. Como data comemorativa, o Natal não tinha nenhum  significado para mim.

Hoje, com quase meio século de vida, eu vejo melhor a importância do Natal para nós e para a sociedade, que está além de toda a parafernália construída em torno desta data. Para dizer a verdade, mais que nunca precisamos celebrá-lo de uma maneira profunda e significativa.

No ano de 1914, o assassinato de um príncipe na Europa desencadeou uma guerra de proporções mundiais. Em pouco tempo, esta guerra começou a ser travada em trincheiras, com exércitos inimigos distantes um do outro por uma estreita "terra de ninguém". Na semana do Natal daquele ano,  tropas dos exércitos dos dois lados começaram a celebrar a data nas trincheiras, enfeitando as árvores e cantando hinos natalinos. Por um curto período de tempo, soldados britânicos e alemães se lembraram daquilo que os uniam: o fato de terem sido moldados pela vida daquele a quem estavam celebrando naquele dia. Houve trégua em vários fronts de batalha. Soldados de exércitos inimigos se cumprimentaram, trocaram presentes e até jogaram uma partida de futebol.

Este fato histórico tem sido muito significativo para mim, em especial no período em que vivemos. Na era das redes sociais, reinam as guerras de informação, as "tretas", os cancelamentos, os ataques verbais e os discursos de ódio. Destruímos amizades e desejamos a morte do outro por causa de vírus, remédio, vacina, máscara, aglomeração, urna de votação, herói de quadrinhos e outros assuntos que considerávamos ridículos há alguns anos atrás. Em um período conturbado como esse, eu me questiono o que nos traria paz, mesmo que temporariamente.

Eu vejo no Natal a chave para esta paz.

O primeiro Natal também ocorreu em um período conturbado da história. O povo judeu estava subjugado pelo império mais poderoso da época. Rebeliões brotavam por toda a terra. Governantes promoviam extermínio de crianças. Famílias tinham de buscar refúgio em países estrangeiros. 

No meio deste caos, alguns pastores das proximidades da cidade de Belém viram anjos anunciarem o nascimento do Escolhido de Deus e cantarem: "Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem". Um Reino de paz havia sido inaugurado naquele dia, e o seu Rei acabara de nascer.

Quase no final de sua vida este Rei deixou esta paz a seus discípulos: "deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize". Seus discípulos não teriam vida fácil a partir daquele dia: eles veriam seu Rei ser preso, castigado, crucificado e morto. Mais tarde, seguiriam os passos de seu Mestre, sendo hostilizados, perseguidos, presos e até mesmo executados por causa da mensagem da ressurreição de Cristo. Mesmo assim, eles teriam uma paz que os capacitariam a passar por todas estas aflições, uma espécie de paz que o mundo nunca tinha visto antes. 

Se nós precisamos de paz neste mundo tenebroso, não é daquela paz utópica pregada por idealistas que sonham com um futuro melhor para a humanidade enquanto destroem os que não concordam com eles. Precisamos, sim, desta paz que o aniversariante desta data deu a todos os que o receberam e creram em seu nome. Esta é uma paz eterna, e não apenas uma trégua de Natal. Com ela, poderemos perder a ansiedade, descansar nos braços de Deus e alegrar em seu amor, mesmo que o nosso futuro seja incerto e até mesmo sombrio. 

Por isso, desejo um Natal cheio desta paz para vocês.

Helio Fujimoto.

Feliz 2022

[Escrito em 31 de dezembro de 2021]

Caros colegas,

Eu sei que 2021 foi um ano para se esquecer, para muitos de nós. Quando achávamos que a pandemia estava terminando, ela ressurgiu com uma intensidade ainda maior que a primeira onda. Muitos de nossos amigos e familiares perderam a vida para este vírus e tivemos de ficar trancados em casa por mais alguns meses. O longo tempo de isolamento social cobrou o seu preço: empreendimentos fecharam,  tornamo-nos viciados de eletrônicos, desaprendemos a conviver em sociedade e muitas de nossas crianças e adolescentes desenvolveram distúrbios psicológicos. Quando a pandemia estava dando sinais de arrefecimento, o país passou pela pior seca dos últimos anos, seguido de chuvas intensas que desabrigaram milhares de brasileiros. 

Também compreendo quando muitos de nós não tem uma expectativa muito boa para 2022. Uma nova variante do vírus ameaça nos tragar novamente ao pesadelo do isolamento social. Os rumos da economia estão incertos. As eleições deste ano prometem ser as mais sujas de todos os tempos, com resultados imprevisíveis. A liberdade que ainda temos para nos expressarmos, para fazer nossas escolhas e para trabalhar continuará sendo ameaçada em nome da "saúde", da "vida", do "meio ambiente", da "ciência" e da "democracia". Em cima desta conjuntura desfavorável, somam-se ainda as tragédias pessoais que baterão à nossa porta quando menos esperarmos: uma doença grave, a perda do emprego, a perda de um ente querido. Viver em 2022 não será uma tarefa fácil.

Quando eu descrevo as dificuldades que passamos e as que ainda iremos passar, lembro-me de uma das promessas mais conhecidas da Bíblia: de que, em todas essas coisas, Deus coopera para o bem daqueles que o amam. Em um de seus mais belos sermões, Jesus me convida a olhar para as aves do céu e para os lírios do campo: eles são muito menos importantes para o nosso Pai que eu; mesmo assim, Ele cuida para que as aves sejam alimentadas e para que as flores se vistam com beleza e majestade. 

Como, então, eu poderia amaldiçoar o ano que passou? Não enfrentei todos os desafios sozinho, mas meu Deus sempre esteve do meu lado, usando cada circunstância para me moldar e fazer de mim alguém mais próximo de sua imagem. Quando achava que não iria mais suportar o fardo, ele estava suportando comigo. Quando não podia mais caminhar, ele estava me carregando.

Como, então, eu poderia me torturar de ansiedade pelo ano novo? "Busque primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas te serão acrescentadas" - diz meu Senhor, quando estou inquieto ao ver a tempestade que se aproxima de mim, ameaçando tirar tudo o que eu tenho. A minha única preocupação deveria ser viver para Ele.

Porque tenho um Deus que me ajudou até agora, posso me despedir de 2021 com gratidão e alegria.

Porque tenho um Deus que estará comigo até o fim, posso saudar o ano de 2022 com confiança e paz.

Que, da mesma forma, no novo ano Deus transforme tua tristeza em alegria, tua inquietação em paz e teu desânimo em esperança.

Feliz Ano Novo.

Hélio Fujimoto.

Meio século de vida

Caros amigos e colegas.

Sinto-me honrado e agradecido pelas felicitações que recebi pelo meu aniversário. 

Hoje terminou a contagem regressiva para chegar ao meio século de vida. No meio deste momento de insegurança, ansiedade e polarização em que estamos vivendo, eu olho para trás e penso nos 18262 dias em que habitei este mundo. Muitos destes dias foram cheios de momentos de alegria, de festa, de abundância, de paz, de satisfação, de encantamento e de êxtase; mas também houve dias de choro, tristeza, de angústia, de luto, de raiva, de injustiças e de desânimo. Vejo com satisfação tudo o que eu pude aprender e fazer nestes 50 anos; agradeço a Deus por ter estado comigo em todos esses dias.

Hoje também começa o segundo tempo. Vejo uma enorme montanha pela frente. Há batalhas para lutar, dificuldades para superar, e uma geração que precisa ser preparada para o futuro que os espera.

Sinto as minhas limitações físicas e mentais; então, começo a contar os dias novamente. Preciso aprender a usar com sabedoria cada minuto que me resta, escolhendo as batalhas que eu posso lutar, atuando onde eu realmente posso fazer alguma diferença e investindo para deixar um legado para a próxima geração. 

Preciso também preparar-me para a vida que realmente importa, para onde não poderei levar nada que eu acumulei nessa terra. Há trinta anos conheci Jesus Cristo, que se tornou meu Senhor e me deu a vida eterna. Preparar para essa vida significa ser transformado por ele a cada dia; significa colocar meu foco nas coisas do alto; significa "ajuntar tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corroem, e onde ladrões não escavam nem roubam". 

Dizem que a pior parte de uma maratona é no meio do percurso, quando o cansaço nos domina, a dor muscular é difícil de suportar, o final parece inalcançável e somente a força de vontade nos impele a continuar correndo. Às vezes, sinto como se estivesse no meio da maratona da vida - cansado, dolorido e desanimado com aquilo que ainda preciso fazer. Quando eu me sinto assim, tenho de descansar em Deus, que diz que "os que esperam nele renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam". É essa esperança que me dá forças para continuar seguindo em frente, visando o momento em que poderei dizer que "combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé".

Muito obrigado!