[Escrito no natal de 2021]
Os que acompanham as minhas mensagens de Natal ao longo do ano sabem que eu não tenho muito entusiasmo por essa temporada. A todas as obrigações que normalmente tenho de assumir na família e na sociedade, soma-se a correria típica de uma época na qual tudo o que eu desejava era descansar um pouco da loucura que foi este ano: congestionamentos, dificuldades em estacionar nas ruas, shopping centers lotados, compra de presentes, enfeites, preparação da ceia, gorgetas natalinas, etc., etc. Para dizer a verdade, no final do ano identifico-me mais com o Grinch que com o Papai Noel.
Talvez meu ceticismo tenha vindo da minha experiência de Natal na infância, que não foi exatamente romântica. Como filho de comerciantes, o final de ano era muito bom ... para a família ganhar dinheiro e poder quitar todas as dívidas contraídas durante o ano. Trabalhávamos duro e não tínhamos tempo para a celebração do feriado. Na véspera do Natal, após o fechamento da loja voltávamos para casa e meu pai fazia a contabilidade das vendas. Se tivéssemos conseguido fechar o ano no azul e pagar todas as dívidas, respirávamos aliviado; se não, sabíamos que o ano seguinte seria complicado. De qualquer forma, não havia presentes, não havia comida especial, não havia enfeites na casa, não havia canções natalinas. Como data comemorativa, o Natal não tinha nenhum significado para mim.
Hoje, com quase meio século de vida, eu vejo melhor a importância do Natal para nós e para a sociedade, que está além de toda a parafernália construída em torno desta data. Para dizer a verdade, mais que nunca precisamos celebrá-lo de uma maneira profunda e significativa.
No ano de 1914, o assassinato de um príncipe na Europa desencadeou uma guerra de proporções mundiais. Em pouco tempo, esta guerra começou a ser travada em trincheiras, com exércitos inimigos distantes um do outro por uma estreita "terra de ninguém". Na semana do Natal daquele ano, tropas dos exércitos dos dois lados começaram a celebrar a data nas trincheiras, enfeitando as árvores e cantando hinos natalinos. Por um curto período de tempo, soldados britânicos e alemães se lembraram daquilo que os uniam: o fato de terem sido moldados pela vida daquele a quem estavam celebrando naquele dia. Houve trégua em vários fronts de batalha. Soldados de exércitos inimigos se cumprimentaram, trocaram presentes e até jogaram uma partida de futebol.
Este fato histórico tem sido muito significativo para mim, em especial no período em que vivemos. Na era das redes sociais, reinam as guerras de informação, as "tretas", os cancelamentos, os ataques verbais e os discursos de ódio. Destruímos amizades e desejamos a morte do outro por causa de vírus, remédio, vacina, máscara, aglomeração, urna de votação, herói de quadrinhos e outros assuntos que considerávamos ridículos há alguns anos atrás. Em um período conturbado como esse, eu me questiono o que nos traria paz, mesmo que temporariamente.
Eu vejo no Natal a chave para esta paz.
O primeiro Natal também ocorreu em um período conturbado da história. O povo judeu estava subjugado pelo império mais poderoso da época. Rebeliões brotavam por toda a terra. Governantes promoviam extermínio de crianças. Famílias tinham de buscar refúgio em países estrangeiros.
No meio deste caos, alguns pastores das proximidades da cidade de Belém viram anjos anunciarem o nascimento do Escolhido de Deus e cantarem: "Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem". Um Reino de paz havia sido inaugurado naquele dia, e o seu Rei acabara de nascer.
Quase no final de sua vida este Rei deixou esta paz a seus discípulos: "deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize". Seus discípulos não teriam vida fácil a partir daquele dia: eles veriam seu Rei ser preso, castigado, crucificado e morto. Mais tarde, seguiriam os passos de seu Mestre, sendo hostilizados, perseguidos, presos e até mesmo executados por causa da mensagem da ressurreição de Cristo. Mesmo assim, eles teriam uma paz que os capacitariam a passar por todas estas aflições, uma espécie de paz que o mundo nunca tinha visto antes.
Se nós precisamos de paz neste mundo tenebroso, não é daquela paz utópica pregada por idealistas que sonham com um futuro melhor para a humanidade enquanto destroem os que não concordam com eles. Precisamos, sim, desta paz que o aniversariante desta data deu a todos os que o receberam e creram em seu nome. Esta é uma paz eterna, e não apenas uma trégua de Natal. Com ela, poderemos perder a ansiedade, descansar nos braços de Deus e alegrar em seu amor, mesmo que o nosso futuro seja incerto e até mesmo sombrio.
Por isso, desejo um Natal cheio desta paz para vocês.
Helio Fujimoto.
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