sábado, 12 de novembro de 2022

Sobre as eleições

[Escrito após as eleições de 2014]

Na noite do dia 20 de outubro, eu fui tomado por uma ansiedade incontrolável. Não consegui dormir direito naquela noite, tentando pensar o que seria de nós se aquilo que eu mais temia acontecesse. Os meus pensamentos eram tomados por sentimentos de raiva e temor. Sentia-me como estivesse próximo do fim do mundo, e tentava buscar alternativas para enfrentar um futuro sombrio.

O que aconteceu naquela noite foi simplesmente que as pesquisas de opinião passaram a apontar para a vitória da candidata à reeleição para assumir a presidência do Brasil. Por alguma razão a eleição desse ano foi diferente para mim. Ao contrário das outras vezes, o assunto "eleições" ocupou um espaço grande no meu tempo e no meu coração, Eu realmente acreditei que esta eleição seria crucial para o futuro do meu país. Acreditei que a reeleição do partido que permaneceu no poder durante 12 anos seria um desastre para o país, e que era mais que urgente dar a responsabilidade de liderar o país a um outro candidato que ao menos não destruiria o país para permanecer no poder. Eu não conseguia me abster diante dos comentários sobre política, e eu me irritava com os que não tinham a mesma opinião que a minha.

Naquela noite, eu tentei refletir sobre o que estava acontecendo com o meu coração. Eu comecei a ver que algo estava errado com ele. A política estava tornando-se um deus para mim. A minha fé e a minha esperança estavam sendo depositadas em partidos políticos -  instituições feitas por homens que, assim como eu, estão corrompidos pelo pecado. O amor pela política estava tirando a minha paz, incitando o ódio aos "outros" e tirando o meu foco em Jesus.

Eu vejo a democracia como um presente de Deus que não é dado a todos os povos, nem mesmo a todos os cristãos. Hoje em dia, temos a oportunidade de participar do jogo político, de escolher as pessoas que irão governar o país e de cobrar as suas promessas que fizeram quando foram eleitos. Como cidadãos, devemos participar ativamente do jogo político para buscar o melhor para a sociedade através das regras estabelecidas pelo regime democrático.

O meu problema foi confiar no dom ao invés do doador. Deus nunca dependeu do regime democrático para estabelecer seus propósitos nesse mundo. Deus pode nos sustentar, nos proteger e nos abençoar, independentemente de quem o povo escolher para presidente. Mesmo se o país deixar de ser democrático, Deus continuará sendo Deus. Na época em que a igreja nasceu, as pessoas não escolhiam seus governantes: eles eram simplesmente impostos aos seus súditos. A igreja vivia à margem do Estado, e muitas vezes era perseguida por recusar-se a adorar a César. No entanto, a existência de um Estado opressor não destruiu a igreja: muito pelo contrário, a igreja crescia, ganhava novos adeptos e aumentava a sua influência na sociedade.

Hoje, eu sei qual foi o resultado das eleições: o que eu mais temia realmente aconteceu. No dia seguinte à eleição, o clima nas ruas e nas redes sociais era de desespero, de preocupação, de insegurança, e até mesmo de ódio para com os que votaram na oponente. Eu não os condeno, pois os mesmos sentimentos invadiram os meus pensamentos naquela noite.

No entanto, eu resolvi ter uma outra atitude em relação a esta notícia. Ainda considero que o povo brasileiro fez uma escolha equivocada, e poderá pagar um preço caro por isso. É possível que a economia afunde, que a corrupção chegue a níveis intoleráveis, e que a democracia seja enfraquecida pelas constantes tentativas de calar todos os que se opõem ao partido que está no poder. Porém, quando tenho uma perspectiva sombria para o futuro, lembro-me de um profeta que previu um futuro sombrio para o seu povo: o reino seria invadido por um exército muito poderoso, que destruiria o país e o deixaria desolado. Diante da palavra de Deus, de que "o justo viverá pela fé", ele declarou:

"Ainda que os campos não floresçam, ainda que a videira não dê mais seu fruto, ainda que os montes se lancem ao mar, ainda assim eu me alegrarei no Deus de minha salvação".

Eu vejo nesta declaração do profeta a chave para colocar a minha fé e a minha esperança no lugar certo. Devo orar para que Deus dê sabedoria à "presidenta" para que ela governe bem o país e prove que as minhas previsões estavam equivocadas. Devo crer que, mesmo que as minhas previsões se cumpram, os propósitos de Deus para mim e para o seu povo não deixarão de se cumprir. E, por mais difícil que isso possa parecer, devo submeter-me a essa autoridade até onde não houver conflito com a autoridade de Cristo. Após a eleição, eu li uma declaração de um amigo que, da mesma forma que eu, tomou o partido da oposição durante as eleições:

"Eu acredito na Democracia. O povo brasileiro se manifestou, num pleito realizado segundo as regras democráticas. Dilma é a Presidente escolhida pela povo. Dilma é a Presidente de meu país. Dilma é minha Presidente. Que governe com sabedoria!"

Eu assino embaixo. Realmente desejo que a presidente eleita governe com sabedoria.

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