Há duas semanas atrás, eu e os colaboradores do meu time estávamos tentando nos acostumar com uma nova realidade: a cidade de Manaus estava próxima de perder o controle da pandemia de COVID-19. Por isso, tivemos de nos preparar para desocupar o escritório e começar a trabalhar em casa.
No meio da correria, das dificuldades de adaptação e das reclamações sobre a velocidade da internet, surgiu uma pergunta no grupo de discussão do time: "Vamos receber ovo de Páscoa?"
Houve um silêncio constrangedor no grupo, seguido de alguns emojis. Diante de uma pandemia que ameaçava matar milhões de pessoas e fazer o sistema de saúde entrar em colapso, perguntar sobre ovo de Páscoa soava inusitado, até mesmo ofensivo. Depois de pensar um pouco, resolvi não repassar esta pergunta ao departamento de recursos humanos da empresa.
Este episódio, no entanto, fez-me pensar sobre o significado da Páscoa no meio de uma pandemia. De fato, a Páscoa tem sido um assunto secundário para a maioria das pessoas: o mundo inteiro parece estar girando em torno do vírus. O mundo praticamente parou por sua causa: hotéis, voos, restaurantes, lojas, shoppings e escritórios - todos estão fechados. Os cultos nas igrejas, inclusive as celebrações de Páscoa, estão proibidas ao redor do planeta.
Ainda assim, creio que a Páscoa tem uma importância muito maior em um momento como este.
Mesmo tendo despertado solidariedade em muitas pessoas, a pandemia tem também mostrado o pior de cada um de nós. Dados reais sobre a pandemia na China, que poderiam ter salvado milhares de vidas, foram encobertos pelo Partido Comunista Chinês para não comprometer a propaganda do regime. Meios de comunicação passaram a lotar os noticiários com notícias negativas sobre a pandemia, fomentando pânico e histeria na população. Houve correria aos supermercados em busca de insumos que acabaram fazendo falta aos que realmente precisavam deles. Preços abusivos foram cobrados sobre álcool, máscaras e respiradores. Políticos não aceitaram abrir mão de seus privilégios para ajudar a conter a pandemia. Governantes não conseguem se entender sobre a melhor maneira de combater o vírus e trocam acusações mútuas. Cidadãos foram obrigados a permanecer em casa, mesmo que assim não tenham meios de obter seu sustento. Criminosos foram soltos da prisão para evitar o contágio da doença. Houve aumento na incidência de conflitos familiares, ansiedade e depressão. Não há certeza sobre quando o isolamento social irá terminar. Economistas preveem uma recessão econômica severa ou até mesmo depressão após a pandemia. Todas as possíveis notícias que poderiam trazer alguma esperança e evitar uma quarentena prolongada, como um possível tratamento para a doença, estão sendo tratadas com desdém e ceticismo pelas autoridades. O presente da humanidade está muito difícil, o seu futuro é bastante sombrio e não parece haver uma luz no final do túnel.
A história da Páscoa parte desta realidade.
Anos atrás, um jornal fez uma enquete com a pergunta "O que estava errado com a humanidade?". Um escritor chamado G. K. Chesterton, respondeu ao jornal com uma só palavra: "EU".
Concordo plenamente com sua resposta. Meu coração é corrupto por natureza e estou propenso a fazer o que não é o certo.
Em algum momento da história, o homem rebelou-se contra seu Criador, virou as costas para ele e considerou que poderia viver sem ele, como um ramo fora de sua videira. Com o tempo, o ramo acabou secando e definhando. O que deveria gerar frutos bons e agradáveis passou a produzir morte.
Eu faço parte desta humanidade. Eu sou um pecador.
Quem poderia me salvar deste destino?
A resposta desta pergunta está no motivo de comemorarmos a Páscoa - Jesus Cristo.
Jesus foi a resposta de um Deus que me amou tanto a ponto de não se conformar em deixar-me abandonado à minha própria sorte. Ele enviou seu próprio filho para vir a este mundo e me resgatar.
O clímax desta história de amor ocorreu no último dia de sua vida, o dia mais triste da história. Como um bode expiatório, o filho de Deus assumiu toda a minha culpa e morreu na cruz pelos meus pecados, mesmo tendo sido totalmente inocente. Ele não só sofreu com a humilhação, com as zombarias, com as cusparadas, com as chicotadas e com a crucificação - ele também sofreu com a punição que eu teria merecido. Jesus me salvou.
A morte, no entanto, não foi o final da história. Dois dias depois, a pedra que cobria seu túmulo rolou, o túmulo ficou vazio e Jesus ressuscitou dentre os mortos. Aquele que me salvou não está mais morto. Ele vive.
Posso imaginar a incredulidade, o temor e a alegria de seus discípulos ao ver que seu Mestre que tinham visto morto na cruz havia ressuscitado. Este evento foi tão marcante que não mais pararam de falar sobre ele enquanto viveram.
Isto foi a Páscoa.
Quando olho minha vida nesta perspectiva, vejo toda esta situação de outra forma. Mesmo com as dificuldades que tenho enfrentado ultimamente, não preciso ficar ansioso ou deprimido. A minha esperança não está na ciência, no isolamento social, na cloroquina, na vacina, no pacote econômico, nas autoridades de saúde ou na boa vontade dos governantes. A minha vida está nas mãos daquele que me amou a ponto de dar sua vida por mim. Se ele vive, eu também viverei.
Por isso, vou celebrar a Páscoa como se fosse o dia mais feliz da história. E espero que você o celebre desta forma também.
Feliz Páscoa.