A vida, a mensagem e a obra de Jesus Cristo seguiram uma lei que eu denomino como a "lei da reversão": ele contrariava tudo o que dizia o bom-senso. Em Cristo, os primeiros seriam os últimos, os últimos seriam os primeiros, os publicanos e as prostitutas estariam mais perto do reino dos céus que os religiosos, os samaritanos eram mais compassivos e os gentios tinham mais fé que o próprio povo de Deus. Os bem-aventurados eram os pobres, os que choram, os mansos e os perseguidos. Já os ricos e poderosos, como é difícil para eles entrarem no reino de Deus!
Eu considero que o nascimento de Jesus também seguiu a mesma lei. Ao contrário do que diz o senso comum, Jesus não nasceu em "berço de ouro", digno de alguém que seria denominado "rei dos judeus". Ele foi filho de um casal humilde, que só tinha condições de comprar dois pombos para oferecer em sacrifício. Ele foi fruto de um milagre que despertou desconfiança, e não admiração, das outras pessoas. Ele nasceu em condições emergenciais, durante uma viagem para uma cidade insignificante. Quando Maria entrou em trabalho de parto, eles não conseguiram lugar para dar à luz, a não ser em um estábulo.
Por mais circunstancial que tenha sido a situação em que Jesus nasceu, creio que houve um propósito nela. Jesus nasceu quase como um "sem-teto" para que tornasse acessível para todos os que quisessem vê-lo. Visitar o filho de um rei que nasceu em um palácio certamente não seria possível para um súdito qualquer. Visitar um bebê em uma estrebaria seria muito fácil, pois não haveria portões, muralhas e guardas para intimidar os que iriam visitá-los.
Mesmo assim, a Bíblia registra apenas dois grupos de pessoas que visitaram Jesus quando ele nasceu. Os primeiros visitantes do rei foram pastores que estavam nas imediações, cuidando de seu rebanho. A profissão de pastor era considerada uma das menos nobres da época, reservadas àqueles que não tinham conseguindo seguir outra profissão. Foram a esses humildes pastores que Deus escolheu anunciar a notícia mais importante da história: o salvador do mundo havia nascido. Cheios de alegria, eles foram até a estrebaria para visitar o bebê, deitado em uma manjedoura. O caminho dos pastores foi simples e direto: eles estavam muito perto do Salvador.
Já o caminho dos reis magos foi muito mais longa e difícil. Eles eram dotados de muita riqueza, poder e sabedoria no país onde eles viviam. Ao avistar o céu, eles notaram uma estrela diferente das outras. A investigação sobre essa estrela levou-os a deixar o conforto dos seus lares para seguir uma viagem de vários dias no deserto, em direção à Judeia para ver o "rei dos judeus". Em um certo momento, equivocaram-se ao buscar o rei no palácio real, mas, ao serem direcionados para Belém, encontraram a estrela novamente, que os guiou até Jesus. Chegando ali, eles adoraram-no e presentearam-no com o que tinham de melhor.
Eu não sou rei, não sou mago, não sou tão sábio e nem tão rico assim. No entanto, eu vejo o meu caminho muito semelhante ao dos reis magos. Provavelmente eu não correria imediatamente ao estábulo ao ouvir um coro de anjos cantando: eu ficaria tentando explicar o fenômeno cientificamente, duvidaria que o salvador do mundo estaria deitado em uma manjedoura, e continuaria o que eu estava fazendo. Ao invés disso, Deus conseguiu chamar a minha atenção ao colocar ao meu redor estrelas que brilhavam diferentemente das outras. Movido pela curiosidade, eu investiguei a causa deste brilho anormal, o que me levou a me convencer de que havia um rei maior que eu mesmo, a quem deveria buscar e adorar.
Empacotei tudo o que eu tinha de mais precioso e comecei uma longa jornada para encontrar-me com esse rei. Esta jornada seria longa e perigosa, não porque Jesus estava muito inacessível para mim, mas porque eu estava muito inacessível para ele. Da mesma forma que ele se esvaziou, eu também deveria me esvaziar. Deveria mudar totalmente os meus valores. Deveria considerar tudo o que eu tinha conquistado até agora como lixo, comparado com aquilo que eu conquistaria. Precisaria deixar de confiar na minha sabedoria, nas minhas riquezas e nas minhas forças para encontrá-lo.
Algumas vezes, equivoquei-me na minha jornada, ao confiar em outras pessoas para encontrá-lo: encontrei pessoas que falavam de Deus e de Jesus, mas que não o buscavam e nem queriam adorá-lo: talvez até quisessem matá-lo, se pudessem. A decepção com essas pessoas, por algum tempo, transformou-se em decepção com o caminho. No entanto, o brilho estranho da estrela ainda persistiu, e eu resolvi continuar seguindo.
Não sei dizer se eu já o encontrei. De uma forma, encontrei-me com Jesus no momento em que eu pedi para que ele entrasse no meu coração e transformasse a minha vida. No entanto, quando eu analiso o meu coração, eu vejo o quanto eu ainda preciso caminhar: o destino ainda está muito longe. Provavelmente eu não cheguei ao ponto em que poderia encontrar-me face a face com ele e depositar a seus pés tudo o que eu tenho de mais precioso aqui na terra: os meus talentos, as minhas conquistas, a minha família e a minha riqueza. Por isso, a caminhada continua.
De fato, quão difícil é para o rico entrar no reino dos céus! É mais fácil um camelo entrar na ponta de uma agulha do que um rico no reino dos céus. No entanto, para Deus nada é impossível. Para mim, a maior prova de que Deus pode fazer o impossível é fazer com que uma pessoas incrédula, orgulhosa e obstinada como eu entre no reino dos céus.
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
Um Deus de coragem
A coragem é um daqueles traços de caráter que eu busco e admiro. Considero-me uma pessoa covarde, que se intimida com qualquer adversidade, e que não consegue vencer os seus medos. Eu leio sobre homens e mulheres de Deus que sofreram perseguições pela causa de Cristo, e pergunto-me se algum dia poderei ter a coragem deles: eu já fiquei intimidado por muito menos que a ameaça de morte. Para piorar, eu vejo que a coragem é uma qualidade indispensável para entrar no céu. A Bíblia diz que o lugar dos tímidos é no "lago de fogo que queima com enxofre" (Apocalipse 21:8).
Creio que a coragem é uma virtude essencialmente humana, ao contrário de outras virtudes que são reflexos do caráter de Deus. Tenho a impressão de que a coragem só pode ser manifesta em algumas condições que só podem ser encontradas em seres limitados como nós.
Em primeiro lugar, é necessário que o ato de coragem envolva algum risco ou adversidade como consequência do ato. O presidente de uma empresa que pode decidir o que quiser sem ser questionado não necessita de coragem para tomar qualquer decisão. Um super-herói invulnerável não precisa ter coragem, pois não há nada que o possa atingir. Eram os semideuses mortais - e não os deuses imortais - os heróis da mitologia grega.
Em segundo lugar, é necessário haver um sentimento de medo. Uma pessoa que não tem a noção do perigo que corre e comete atos supostamente corajosos é uma pessoa louca, não necessariamente corajosa. Quando alguém arrisca a própria vida por não desejar continuar vivendo, ele comete suicídio, não um ato de coragem.
Portanto, eu vejo a coragem como a nossa capacidade de superar os nossos medos, dispondo-nos a sofrer com as consequências dos nossos atos para seguirmos a nossa consciência. Uma pessoa corajosa supera os seus medos porque é movida por uma força ainda maior que o seu medo. Uma mãe arrisca sua vida para salvar o seu filho porque o seu amor por ele é maior que o seu senso de perigo. Um mártir sob ameaça de morte resolve não negar a Cristo porque o seu amor a ele supera o amor por sua própria vida.
Por isso, eu considero que o Natal introduziu a coragem como uma virtude inédita de Deus. Não se teve antes e nem depois um Deus que tivesse coragem. Afinal de contas, um Deus que permanece na sua soberania e onipotência não precisa ser corajoso, a não ser que saia de sua soberania e onipotência para tornar-se humano.
No Natal, o Deus eterno, todo-poderoso, criador dos céus e da terra, rei do universo e cheio de glória desce do seu trono e torna-se um ser minúsculo e desprezível. Ele aceita viver sob a leis dos homens. Ele passa a sentir fome, sede, alegria, tristeza, prazer, dor, medo, angústia e sofrimento como qualquer outro homem. Ele vive entre nós, sofre tentação, incompreensão, ameaça, desprezo, injustiça, discriminação e hostilidade. Eventualmente, ele passa pela experiência mais aterradora para um ser humano: a morte. Jesus fez tudo isso simplesmente porque o amor de Deus por nós e a sua determinação em nos salvar superaria a dor de passar por esse processo de auto-esvaziamento. Se isso não é um ato de coragem, não sei o que mais poderia ser...
Definitivamente, o exemplo de coragem de Cristo é o que inspirou os seus seguidores a serem corajosos. Os seus discípulos andaram pelos quatro cantos do mundo civilizado da época para pregar o evangelho, e todos pagaram o preço por isso: foram presos, açoitados, exilados, apedrejados, decapitados, e até mesmo crucificados. Eles viram nesse sacrifício a alegria de serem dignos de imitá-lo também em seus sofrimentos.
O exemplo de Cristo também é o que me inspira a buscar a coragem, mesmo que seja de uma maneira muito tímida. Em algum momento, eu engulo o meu orgulho e peço perdão a alguém a quem eu ofendi. Em outro, eu falo sobre o amor de Cristo para pessoas que poderão ser hostis ao evangelho. Em outra ocasião, eu curvo a minha cabeça e agradeço a Deus pelas suas bênçãos, em um ambiente onde metade das palavras são "palavrões". Algumas vezes, eu assumo os meus erros diante dos meus superiores, sabendo que a minha confissão irá trazer consequências negativas para mim. São atos mínimos de coragem em relação aos heróis da fé que pagaram com a vida o seu compromisso de obedecer a Deus, mas creio que isso é somente o começo de uma longa jornada que tenho a percorrer.
Durante a Segunda Guerra Mundial, uma família cristã na Holanda começou a esconder os seus vizinhos judeus. Eventualmente, o esconderijo foi descoberto, e a família foi levada a um campo de concentração, do qual apenas uma sobreviveu. Ao relatar a sua experiência antes de ser presa, Corrie Ten Boom perguntava a seu pai se teria forças para passar pela experiência de um campo de concentração. Sabiamente, o pai respondia que Deus daria a dose que ela precisaria, quando chegasse a hora. É possível que eu um dia viva em uma realidade em que os que professam a Cristo serão abandonados pela família, serão hostilizados, serão ameaçados de morte, perderão os seus empregos, serão levados à prisão, ou até mesmo serão mortos. Eu pergunto-me se eu estarei pronto para quando esse dia chegar: terei eu a coragem de seguir a Cristo, ou, na minha covardia, negarei a meu Mestre, como fez Pedro durante o julgamento de Jesus? A minha esperança é que, quando esse dia chegar, eu receba de Deus a medida certa da coragem que eu preciso para confessá-lo diante dos poderosos.
Creio que a coragem é uma virtude essencialmente humana, ao contrário de outras virtudes que são reflexos do caráter de Deus. Tenho a impressão de que a coragem só pode ser manifesta em algumas condições que só podem ser encontradas em seres limitados como nós.
Em primeiro lugar, é necessário que o ato de coragem envolva algum risco ou adversidade como consequência do ato. O presidente de uma empresa que pode decidir o que quiser sem ser questionado não necessita de coragem para tomar qualquer decisão. Um super-herói invulnerável não precisa ter coragem, pois não há nada que o possa atingir. Eram os semideuses mortais - e não os deuses imortais - os heróis da mitologia grega.
Em segundo lugar, é necessário haver um sentimento de medo. Uma pessoa que não tem a noção do perigo que corre e comete atos supostamente corajosos é uma pessoa louca, não necessariamente corajosa. Quando alguém arrisca a própria vida por não desejar continuar vivendo, ele comete suicídio, não um ato de coragem.
Portanto, eu vejo a coragem como a nossa capacidade de superar os nossos medos, dispondo-nos a sofrer com as consequências dos nossos atos para seguirmos a nossa consciência. Uma pessoa corajosa supera os seus medos porque é movida por uma força ainda maior que o seu medo. Uma mãe arrisca sua vida para salvar o seu filho porque o seu amor por ele é maior que o seu senso de perigo. Um mártir sob ameaça de morte resolve não negar a Cristo porque o seu amor a ele supera o amor por sua própria vida.
Por isso, eu considero que o Natal introduziu a coragem como uma virtude inédita de Deus. Não se teve antes e nem depois um Deus que tivesse coragem. Afinal de contas, um Deus que permanece na sua soberania e onipotência não precisa ser corajoso, a não ser que saia de sua soberania e onipotência para tornar-se humano.
No Natal, o Deus eterno, todo-poderoso, criador dos céus e da terra, rei do universo e cheio de glória desce do seu trono e torna-se um ser minúsculo e desprezível. Ele aceita viver sob a leis dos homens. Ele passa a sentir fome, sede, alegria, tristeza, prazer, dor, medo, angústia e sofrimento como qualquer outro homem. Ele vive entre nós, sofre tentação, incompreensão, ameaça, desprezo, injustiça, discriminação e hostilidade. Eventualmente, ele passa pela experiência mais aterradora para um ser humano: a morte. Jesus fez tudo isso simplesmente porque o amor de Deus por nós e a sua determinação em nos salvar superaria a dor de passar por esse processo de auto-esvaziamento. Se isso não é um ato de coragem, não sei o que mais poderia ser...
Definitivamente, o exemplo de coragem de Cristo é o que inspirou os seus seguidores a serem corajosos. Os seus discípulos andaram pelos quatro cantos do mundo civilizado da época para pregar o evangelho, e todos pagaram o preço por isso: foram presos, açoitados, exilados, apedrejados, decapitados, e até mesmo crucificados. Eles viram nesse sacrifício a alegria de serem dignos de imitá-lo também em seus sofrimentos.
O exemplo de Cristo também é o que me inspira a buscar a coragem, mesmo que seja de uma maneira muito tímida. Em algum momento, eu engulo o meu orgulho e peço perdão a alguém a quem eu ofendi. Em outro, eu falo sobre o amor de Cristo para pessoas que poderão ser hostis ao evangelho. Em outra ocasião, eu curvo a minha cabeça e agradeço a Deus pelas suas bênçãos, em um ambiente onde metade das palavras são "palavrões". Algumas vezes, eu assumo os meus erros diante dos meus superiores, sabendo que a minha confissão irá trazer consequências negativas para mim. São atos mínimos de coragem em relação aos heróis da fé que pagaram com a vida o seu compromisso de obedecer a Deus, mas creio que isso é somente o começo de uma longa jornada que tenho a percorrer.
Durante a Segunda Guerra Mundial, uma família cristã na Holanda começou a esconder os seus vizinhos judeus. Eventualmente, o esconderijo foi descoberto, e a família foi levada a um campo de concentração, do qual apenas uma sobreviveu. Ao relatar a sua experiência antes de ser presa, Corrie Ten Boom perguntava a seu pai se teria forças para passar pela experiência de um campo de concentração. Sabiamente, o pai respondia que Deus daria a dose que ela precisaria, quando chegasse a hora. É possível que eu um dia viva em uma realidade em que os que professam a Cristo serão abandonados pela família, serão hostilizados, serão ameaçados de morte, perderão os seus empregos, serão levados à prisão, ou até mesmo serão mortos. Eu pergunto-me se eu estarei pronto para quando esse dia chegar: terei eu a coragem de seguir a Cristo, ou, na minha covardia, negarei a meu Mestre, como fez Pedro durante o julgamento de Jesus? A minha esperança é que, quando esse dia chegar, eu receba de Deus a medida certa da coragem que eu preciso para confessá-lo diante dos poderosos.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
O escândalo da graça
No discurso conhecido como o Sermão do Monte, Jesus diz que não se pode servir ao senhor Deus e ao senhor Dinheiro: ou você serve a um senhor ou serve a outro. O que me intrigava sobre esse sermão era por que ele fez esta afirmação em relação ao Dinheiro e não a qualquer outro deus que poderia concorrer com Deus como nosso Senhor. Hoje, eu estou convencido de que a razão desta oposição entre Deus e o Dinheiro, está em um dos mais controvertidos atributos de Deus: a graça.
Enquanto esteve aqui na terra, Jesus pregou a graça. A mensagem da graça era tão clara que foi um escândalo naquela época. A mensagem de Jesus atraía os pobres, os marginalizados, os doentes, as prostitutas, os cobradores de impostos e os "pecadores", enquanto irritava e afugentava os religiosos, homens de bem, os auto-suficientes, os ricos e os poderosos.
Em um mundo regido pelo Dinheiro, não existe almoço de graça: tudo tem o seu preço. O trabalho é remunerado pela lógica do mérito: quem trabalha mais recebe mais e tem mais valor. Para conseguirmos o que precisamos ou queremos, devemos adquirir dinheiro para pagar pelo valor definido por aquele produto ou serviço. Se recebemos algo "de graça", sabemos que, de alguma forma, este favor terá de ser retribuído. Se pedirmos dinheiro para um banco, espera-se que paguemos a nossa dívida, na maioria das vezes com juros. O valor de uma pessoa é medido por aquilo que ela tem e por aquilo que ela pode fazer.
Nós tentamos usar a mesma lógica no âmbito espiritual. Imaginamos que, se nos esforçarmos o suficiente, conseguiremos comprar o nosso passaporte para o céu. As formas de pagamento para garantir a nossa alma na eternidade varia bastante de religião para religião, mas a lógica é a mesma: as coisas espirituais, como a salvação, o poder espiritual ou as recompensas no céu, tem o seu preço, e são muito caras. Nós temos de pagar com sacrifícios, com orações, com boas obras, ou até mesmo com dinheiro, para merecê-las.
A lógica de Deus, no entanto, não funciona dessa maneira. O reino de Deus é regido pela graça, e nada ali é cobrado. A nossa salvação veio de graça, as nossas bênçãos vêm de graça e os nossos dons são o que o próprio nome diz: presentes dados por Deus. Nada que recebemos de Deus é fruto do nosso esforço, e tudo foi fruto da graça: só temos de recebê-lo. Uma bela ilustração de graça é a profecia descrita no livro de Isaías, na qual Deus faz um convite especial às pessoas que não tem o que comprar, para que possam comer de graça. Jesus expulsou os vendedores e derrubou as mesas dos cambistas nas dependências do templo não porque eles estavam sendo desonestos, mas porque as coisas de Deus devem ser regidas pela graça e não podem ser postas à venda.
Enquanto esteve aqui na terra, Jesus pregou a graça. A mensagem da graça era tão clara que foi um escândalo naquela época. A mensagem de Jesus atraía os pobres, os marginalizados, os doentes, as prostitutas, os cobradores de impostos e os "pecadores", enquanto irritava e afugentava os religiosos, homens de bem, os auto-suficientes, os ricos e os poderosos.
Para deixar claro o que Jesus quis dizer sobre o sistema regido pelo Dinheiro, ele contou uma história que ainda tenho dificuldades em aceitar: o dono de uma plantação de uvas contrata trabalhadores para trabalhar por um dia em sua vinha em troca de um denário. Desde a madrugada, ele vai recrutando gente para trabalhar, até que, quase no final do dia, ele contrata o último trabalhador. Na hora do pagamento, ele dá um denário para o trabalhador que foi recrutado por último, deixando os outros trabalhadores na expectativa de receber mais. No entanto, todos os trabalhadores recebem exatamente a mesma quantia pelo trabalho. Isso gerou revolta e indignação entre os que trabalharam no período mais difícil, quanto tinham de suportar a fadiga e o calor do dia. Ao ser questionado, o dono da vinha disse que ele não foi injusto: ele apenas pagou o que tinha sido acordado, e que ele tem o direito de ser generoso com quem ele quiser.
Habituado a um ambiente de trabalho competitivo que, a princípio, é gerido pela meritocracia, indignação seria exatamente a minha reação se o dono da empresa nos remunerasse da mesma maneira que o dono da vinha da história. Afinal de contas, eu trabalhei duro o dia inteiro, enquanto o meu colega que começou a trabalhar no final do dia recebeu a mesma coisa que eu. Não seria isso uma injustiça?
Em um certo sentido, a graça é injusta. No mundo da graça, não recebemos por aquilo que produzimos. Também, não temos o nosso valor definido naquilo que produzimos, mas pelo que somos. Deus ama o filho que trabalha incansavelmente para agradá-lo da mesma forma que o filho pródigo que deu as costas ao pai e, após colher as consequências de sua rebeldia, retornou ao seu pai sem ter nada a oferecer. Jesus deu a mesma salvação para o homem de bem que o serviu durante a vida toda e para o malfeitor que se arrependeu no final de sua vida, quando estava sendo crucificado ao lado de seu Salvador.
Muitos acusam a doutrina de salvação pela graça de ser "fácil demais", pois é só questão de receber: nada é tão fácil quanto receber um presente. Eu discordo com esta acusação: pelo menos para mim, isso não é nem um pouco fácil.
A primeira razão é que eu vivi a minha vida toda me esforçando para fazer merecer aquilo que eu tenho: de uma certa forma, este é um ponto de honra e um motivo de orgulho. Inconscientemente, eu desprezo os que recebem o seu sustento sem trabalhar: eu os considero parasitas. Por mais nobre que esta atitude pareça. ela é uma barreira enorme para a graça. Eu não consigo imaginar como eu seria se, por algum motivo, eu não pudesse trabalhar e precisasse ser sustentado e cuidado por outras pessoas. Eu acho que consideraria essa situação difícil de aceitar, por me fazer sentir inútil e desmerecedor. Se eu não posso me imaginar recebendo de graça a minha sobrevivência, o que dizer, então, da minha vida eterna?
A segunda razão é a minha reação de indignação ao ver como a graça alcança os outros "pecadores". Na parábola do filho pródigo, eu identifico-me mais com o filho que obedeceu a seu pai a vida toda e ficou indignado e ressentido ao ver seu pai mandar preparar uma festa para celebrar o arrependimento do irmão que tinha se perdido. Não é muito difícil imaginar por que isso é tão difícil de aceitar. Um criminoso passa quase toda a sua vida cometendo assassinatos, estupros e outros crimes considerados hediondos. De uma hora para outra, ele se "converte" e abandona a sua carreira de crimes: Lá no céu, prepara-se um banquete e celebra-se uma grande festa. Enquanto isso, um "cidadão de bem" que nunca cometeu nenhum crime e se esforçou a vida toda para fazer tudo certo nunca foi motivo de celebração. No final, tanto um como o outro irão para o céu. Seria isso tão fácil de aceitar?
A terceira razão é que aceitar as leis da graça significa viver de acordo com essas leis. Da mesma forma que fomos perdoados, também devemos perdoar. Uma história de Jesus ilustra que a dívida que pensamos em cobrar dos outros é infinitamente menor que a dívida que nós tínhamos com Deus, e que foi perdoada. No reino de Deus, somos convidados a dar sem esperar nada em troca, a perdoar "setenta vezes sete", a amar os nossos inimigos e a orar pelos que nos perseguem. Jesus nos convida a não mais aplicar a lei do talião nos nossos relacionamentos, mas a dar a outra face quando ferem, a andar a segunda milha quando nos obrigam a andar a primeira, e a dar a túnica quando nos obrigam a dar a capa. Para mim, o mandamento de perdoar os outros é muito, muito difícil. O meu temperamento não me permite revidar quando alguém faz algo que me ofende, mas esta ofensa fica incrustada na minha mente como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Fico remoendo essa dívida que o meu próximo tem comigo, buscando formas de cobrá-la de alguma maneira. Não consigo perdoar facilmente, pois isso significaria para mim destruir o meu ego, como se o perdão me transformasse em um verme que os outros poderiam pisar à vontade.
Como um legítimo representante dos fariseus, eu considero que o evangelho de Jesus não parece ser tão atraente para mim quanto seria se eu fosse um homem pobre e marginalizado pela sociedade. Eu preciso lutar arduamente contra o meu orgulho para receber algo que eu não trabalhei para obter. Eu preciso lutar contra a minha auto-suficiência para aprender a não mais depender de mim mesmo para sustentar a minha família. Preciso lutar contra as aparências para me convencer de que tudo o que eu tenho não é mero fruto do meu esforço, mas da graça e da generosidade de Deus. Preciso lutar contra a minha formação familiar para aprender a confiar em alguém que não seja eu mesmo. Preciso lutar contra o meu temperamento para aprender a perdoar e não remoer as ofensas dos outros.
Mesmo com todas estas dificuldades, o evangelho da graça atrai-me como se, por trás da minha justiça própria, eu suspirasse por graça. Essa vida de auto-suficiência não é fácil: depender somente de mim mesmo para sustentar a minha família, para fazer tudo certo e ainda para merecer a vida eterna torna-se um esforço que suga todas as minhas forças, a ponto de eu sentir-me sobrecarregado e suplicar por algum alívio. No mundo do Dinheiro, eu não encontro esse alívio: tudo aqui tem o seu preço, até mesmo mercadorias abstratas como saúde, paz, direito, amor e amizade. No meu cansaço, eu suspiro por alguém que me diga: "Hélio, descanse e recupere as tuas forças: a partir de agora eu vou trabalhar por você". Eu suspiro pelo amor e pelo cuidado incondicional de Deus. Eu suspiro por graça. No fundo, eu sei que toda minha inteligência, o meu trabalho e o meu esforço não são suficientes para que eu seja um cidadão perfeito, um trabalhador perfeito, um filho perfeito, um esposo perfeito, um pai perfeito e um cristão perfeito. Em todos os momentos, eu dependo da graça. Mesmo que o mundo que me cerca seja tão carente de graça, eu posso encontrar em Jesus a fonte de graça superabundante que eu preciso para ser perdoado, recebido, cuidado e amado a cada dia.
Habituado a um ambiente de trabalho competitivo que, a princípio, é gerido pela meritocracia, indignação seria exatamente a minha reação se o dono da empresa nos remunerasse da mesma maneira que o dono da vinha da história. Afinal de contas, eu trabalhei duro o dia inteiro, enquanto o meu colega que começou a trabalhar no final do dia recebeu a mesma coisa que eu. Não seria isso uma injustiça?
Em um certo sentido, a graça é injusta. No mundo da graça, não recebemos por aquilo que produzimos. Também, não temos o nosso valor definido naquilo que produzimos, mas pelo que somos. Deus ama o filho que trabalha incansavelmente para agradá-lo da mesma forma que o filho pródigo que deu as costas ao pai e, após colher as consequências de sua rebeldia, retornou ao seu pai sem ter nada a oferecer. Jesus deu a mesma salvação para o homem de bem que o serviu durante a vida toda e para o malfeitor que se arrependeu no final de sua vida, quando estava sendo crucificado ao lado de seu Salvador.
Muitos acusam a doutrina de salvação pela graça de ser "fácil demais", pois é só questão de receber: nada é tão fácil quanto receber um presente. Eu discordo com esta acusação: pelo menos para mim, isso não é nem um pouco fácil.
A primeira razão é que eu vivi a minha vida toda me esforçando para fazer merecer aquilo que eu tenho: de uma certa forma, este é um ponto de honra e um motivo de orgulho. Inconscientemente, eu desprezo os que recebem o seu sustento sem trabalhar: eu os considero parasitas. Por mais nobre que esta atitude pareça. ela é uma barreira enorme para a graça. Eu não consigo imaginar como eu seria se, por algum motivo, eu não pudesse trabalhar e precisasse ser sustentado e cuidado por outras pessoas. Eu acho que consideraria essa situação difícil de aceitar, por me fazer sentir inútil e desmerecedor. Se eu não posso me imaginar recebendo de graça a minha sobrevivência, o que dizer, então, da minha vida eterna?
A segunda razão é a minha reação de indignação ao ver como a graça alcança os outros "pecadores". Na parábola do filho pródigo, eu identifico-me mais com o filho que obedeceu a seu pai a vida toda e ficou indignado e ressentido ao ver seu pai mandar preparar uma festa para celebrar o arrependimento do irmão que tinha se perdido. Não é muito difícil imaginar por que isso é tão difícil de aceitar. Um criminoso passa quase toda a sua vida cometendo assassinatos, estupros e outros crimes considerados hediondos. De uma hora para outra, ele se "converte" e abandona a sua carreira de crimes: Lá no céu, prepara-se um banquete e celebra-se uma grande festa. Enquanto isso, um "cidadão de bem" que nunca cometeu nenhum crime e se esforçou a vida toda para fazer tudo certo nunca foi motivo de celebração. No final, tanto um como o outro irão para o céu. Seria isso tão fácil de aceitar?
A terceira razão é que aceitar as leis da graça significa viver de acordo com essas leis. Da mesma forma que fomos perdoados, também devemos perdoar. Uma história de Jesus ilustra que a dívida que pensamos em cobrar dos outros é infinitamente menor que a dívida que nós tínhamos com Deus, e que foi perdoada. No reino de Deus, somos convidados a dar sem esperar nada em troca, a perdoar "setenta vezes sete", a amar os nossos inimigos e a orar pelos que nos perseguem. Jesus nos convida a não mais aplicar a lei do talião nos nossos relacionamentos, mas a dar a outra face quando ferem, a andar a segunda milha quando nos obrigam a andar a primeira, e a dar a túnica quando nos obrigam a dar a capa. Para mim, o mandamento de perdoar os outros é muito, muito difícil. O meu temperamento não me permite revidar quando alguém faz algo que me ofende, mas esta ofensa fica incrustada na minha mente como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Fico remoendo essa dívida que o meu próximo tem comigo, buscando formas de cobrá-la de alguma maneira. Não consigo perdoar facilmente, pois isso significaria para mim destruir o meu ego, como se o perdão me transformasse em um verme que os outros poderiam pisar à vontade.
Como um legítimo representante dos fariseus, eu considero que o evangelho de Jesus não parece ser tão atraente para mim quanto seria se eu fosse um homem pobre e marginalizado pela sociedade. Eu preciso lutar arduamente contra o meu orgulho para receber algo que eu não trabalhei para obter. Eu preciso lutar contra a minha auto-suficiência para aprender a não mais depender de mim mesmo para sustentar a minha família. Preciso lutar contra as aparências para me convencer de que tudo o que eu tenho não é mero fruto do meu esforço, mas da graça e da generosidade de Deus. Preciso lutar contra a minha formação familiar para aprender a confiar em alguém que não seja eu mesmo. Preciso lutar contra o meu temperamento para aprender a perdoar e não remoer as ofensas dos outros.
Mesmo com todas estas dificuldades, o evangelho da graça atrai-me como se, por trás da minha justiça própria, eu suspirasse por graça. Essa vida de auto-suficiência não é fácil: depender somente de mim mesmo para sustentar a minha família, para fazer tudo certo e ainda para merecer a vida eterna torna-se um esforço que suga todas as minhas forças, a ponto de eu sentir-me sobrecarregado e suplicar por algum alívio. No mundo do Dinheiro, eu não encontro esse alívio: tudo aqui tem o seu preço, até mesmo mercadorias abstratas como saúde, paz, direito, amor e amizade. No meu cansaço, eu suspiro por alguém que me diga: "Hélio, descanse e recupere as tuas forças: a partir de agora eu vou trabalhar por você". Eu suspiro pelo amor e pelo cuidado incondicional de Deus. Eu suspiro por graça. No fundo, eu sei que toda minha inteligência, o meu trabalho e o meu esforço não são suficientes para que eu seja um cidadão perfeito, um trabalhador perfeito, um filho perfeito, um esposo perfeito, um pai perfeito e um cristão perfeito. Em todos os momentos, eu dependo da graça. Mesmo que o mundo que me cerca seja tão carente de graça, eu posso encontrar em Jesus a fonte de graça superabundante que eu preciso para ser perdoado, recebido, cuidado e amado a cada dia.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A origem das espécies
Há alguns dias atrás, eu li a reportagem de uma bióloga que estava surpresa por constatar que a teoria que explica a origem das espécies pela seleção natural, elaborada por Charles Darwin, ainda era tão controversa depois de três séculos. Para ela, a teoria da seleção natural deveria ser tão amplamente aceita como a lei da gravidade, por exemplo. Dentre os comentários que eu li sobre a reportagem, alguém chegou a comentar que os que levam a teoria de "design inteligente" a sério eram ignorantes ou mal-intencionados, tão óbvia era a validade da lei da seleção natural.
Para dizer a verdade, eu considero a teoria de Darwin correta, talvez mais por "fé" do que por convicção. Como não consigo compreendê-las completamente, eu considero que a grande maioria dos cientistas que são mais inteligentes e tem mais conhecimento na área aceitam-na como verdadeira. Eu também concordo que não se deva ensinar nas escolas teorias científicas que, no momento, não são levadas a sério pela maioria dos cientistas, mesmo que elas provem serem verdadeiras no futuro.
No entanto, eu não concordo com os que consideram ignorantes ou de má-fé os que questionam o "darwinismo" como explicação científica para a origem das espécies. Talvez eu não concorde porque eu me considero parte destes "ignorantes". Para mim, existem algumas teorias das ciências naturais que eu aceito naturalmente, pois sei que funciona no nosso dia-a-dia e podemos "provar" em laboratório se necessário. Este é o caso, por exemplo, das leis de Newton, da lei da gravidade, das leis de eletro-magnetismo ou das leis da termodinâmica. Outras teorias estão além da minha compreensão e do meu bom-senso; por isso, nós, os leigos, resolvemos aceitá-las como verdadeiras por confiar em outros cientistas que estudaram o assunto mais profundamente. Este é o caso daquela leis da Física Quântica e da Relatividade. Eu enquadro a lei da seleção natural no segundo grupo.
O meu primeiro problema com a teoria da seleção natural é científico: não consigo conceber como este ou qualquer outro mecanismo natural poderia gerar algo tão complexo como um homem a partir de uma sopa de proteínas. Para mim, nem em bilhões de anos isso seria possível.
Obviamente, eu não vejo problemas em aceitar o fenômeno da seleção natural: ela está claramente presente na natureza. Não podemos tomar antibiótico por pouco tempo, pois isso irá selecionar as bactérias que serão resistentes ao antibiótico. Quando há a ameaça de um predador, somente os mais preparados para se defender sobreviverão. Se o clima muda drasticamente, os que não podem se adaptar à nova realidade morrerão. O meu problema é compreender como este mecanismo poderia gerar alguma espécie nova.
Eu ainda não consigo construir alguma analogia com a qual eu possa comparar o processo de evolução. Por exemplo, como montar um relógio a partir da matéria-prima, através de algum processo de seleção? Talvez primeiro eu a submeteria a uma tempestade elétrica que, de alguma forma, tornaria a matéria-prima capaz de se multiplicar. Assumiria que, no processo de multiplicação, a forma de alguns pedaços teria alguma variação em torno do original por algum processo aleatório. Depois, modificaria o meio ambiente para que somente os pedaços que estiverem mais próximos a um certo formato sobrevivam e continuem se multiplicando. Este processo seria desenvolvido até que todos os pedaços estejam moldados. Depois, juntam-se os pedaços e manipula-se o meio ambiente novamente para que somente os pedaços que se encaixarem sobrevivam. Daí, repete-se o processo até que todas as peças estejam encaixadas e o relógio formado.
Por mais absurdo que pareça este processo, eu ainda o acharia válido. No entanto, mesmo neste caso o processo de seleção não foi natural: o foi monitorado por uma inteligência externa. Mais difícil é imaginar como o mesmo processo poderia acontecer como algo natural, sem interferência de alguém que manipulasse o ambiente. Em um processo natural, é difícil associar adaptabilidade à complexidade: na maioria das vezes, as duas qualidades são antagônicas (por exemplo, as baratas parecem ser mais adaptáveis a ambientes adversos que o urso panda). Eu vejo que algumas alterações no ambiente poderiam por algum acaso produzir espécies mas evoluídas, mas a maioria delas provavelmente produziria espécies menos evoluídas. Na média, a complexidade dos seres vivos deveria diminuir ao invés de aumentar.
O meu segundo problema é filosófico: o processo de seleção natural vale também para nós, seres humanos? Temos de nos submeter ao mesmo mecanismo para tornarmos uma espécie mais evoluída? Existem evidências de que a seleção natural existe também entre nós, seres humanos. Diante das adversidades da vida, os mais capacitados sobrevivem, e os mais fracos são abandonados. É esta uma evidência de que a espécie humana está evoluindo para algo mais complexo, ou uma evidência de que nós estamos decaindo e voltando a ser animais? Poderíamos dizer, como Nietzsche, que virtudes cristãs como a compaixão, a bondade, a graça e o amor são empecilhos para que a espécie humana evolua?
O meu terceiro problema é moral: eu assumo que a teoria de seleção natural inferiria que existem "sub-espécies" que estão mais evoluídas que outras. Isso significaria que algumas raças são mais avançadas que outras, como dizem os movimentos sociais que defendem o racismo? Existiria alguma base científica para se considerar que todas as raças são iguais e devem ser tratadas igualmente?
O meu quarto problema é o teológico: não consigo ver o processo de seleção natural como um mecanismo criado por um Deus que se diz perfeito. A competição pela sobrevivência na natureza parece para mim mais o resultado da queda do homem que algo projetado por Deus, tanto que a Nova Terra é descrita na Bíblia como um lugar onde o leão descansará ao lado de um cordeiro. Uma sociedade em que os mais adaptados à realidade sobrevivem e os mais fracos morrem pode até ser um processo natural de seleção, mas não parece ser a vontade e o desejo de um Deus que defende a causa do pobre, do órfão e da viúva.
O meu quinto problema é no sentido prático: eu questiono se esta teoria trouxe algum resultado prático para a humanidade. Podemos utilizar algum processo de seleção artificial ou de manipulação genética, mas não pudemos produzir nenhuma espécie nova ainda: talvez, mesmo com interferência humana, ainda precisemos esperar pelo menos alguns milhões de anos. Também, não vejo como a genética não poderia continuar se desenvolvendo da mesma forma sem sabermos que as espécies são criadas por um processo de seleção natural. Não quero dizer com isso que esta teoria não tenha nenhuma importância, uma vez que existe em cada um de nós o questionamento sobre "de onde viemos". Mesmo assim, a minha impressão é que ela trouxe mais consequências na área filosófica do que em termos práticos.
Mesmo com todos estes questionamentos, sei que a maioria dos cientistas, filósofos e teólogos já se debruçaram sobre eles e conseguiram ter uma resposta convincente: o problema provavelmente está na minha limitação intelectual. No entanto, o meu ponto é que esta teoria não é tão óbvia assim, pelo menos não para mim. Eu compreendo as pessoas que vêem com incredulidade a teoria da origem das espécies. Nós, pessoas leigas que conhecem apenas a biologia da escola, estudamos a complexidade de uma célula, observamos a delicadeza de uma borboleta, sentimo-nos pequenos diante da majestade de uma sequoia, maravilhamo-nos diante da grandeza de uma baleia, espantamo-nos ao conhecer o funcionamento do nosso corpo, e perguntamos: como tudo isso pode ter acontecido sem que alguém tenha criado tudo isso? Como tudo isso seria fruto de algo aleatório e impessoal? Não é muito mais fácil acreditar que alguém criou o homem de uma maneira parecida como um engenheiro constrói um robô? Não é mais fácil acreditar que alguém pintou as asas de uma borboleta da mesma forma que um artista pinta um quadro? Não é mais fácil acreditar que as células conseguem se reproduzir porque alguém as programou para isso, de maneira parecida como um programador que faz um aplicativo para celular?
Confesso que gostaria de compreender por que esta teoria parece tão óbvia para a maioria das pessoas. Para mim não é ...
Para dizer a verdade, eu considero a teoria de Darwin correta, talvez mais por "fé" do que por convicção. Como não consigo compreendê-las completamente, eu considero que a grande maioria dos cientistas que são mais inteligentes e tem mais conhecimento na área aceitam-na como verdadeira. Eu também concordo que não se deva ensinar nas escolas teorias científicas que, no momento, não são levadas a sério pela maioria dos cientistas, mesmo que elas provem serem verdadeiras no futuro.
No entanto, eu não concordo com os que consideram ignorantes ou de má-fé os que questionam o "darwinismo" como explicação científica para a origem das espécies. Talvez eu não concorde porque eu me considero parte destes "ignorantes". Para mim, existem algumas teorias das ciências naturais que eu aceito naturalmente, pois sei que funciona no nosso dia-a-dia e podemos "provar" em laboratório se necessário. Este é o caso, por exemplo, das leis de Newton, da lei da gravidade, das leis de eletro-magnetismo ou das leis da termodinâmica. Outras teorias estão além da minha compreensão e do meu bom-senso; por isso, nós, os leigos, resolvemos aceitá-las como verdadeiras por confiar em outros cientistas que estudaram o assunto mais profundamente. Este é o caso daquela leis da Física Quântica e da Relatividade. Eu enquadro a lei da seleção natural no segundo grupo.
O meu primeiro problema com a teoria da seleção natural é científico: não consigo conceber como este ou qualquer outro mecanismo natural poderia gerar algo tão complexo como um homem a partir de uma sopa de proteínas. Para mim, nem em bilhões de anos isso seria possível.
Eu ainda não consigo construir alguma analogia com a qual eu possa comparar o processo de evolução. Por exemplo, como montar um relógio a partir da matéria-prima, através de algum processo de seleção? Talvez primeiro eu a submeteria a uma tempestade elétrica que, de alguma forma, tornaria a matéria-prima capaz de se multiplicar. Assumiria que, no processo de multiplicação, a forma de alguns pedaços teria alguma variação em torno do original por algum processo aleatório. Depois, modificaria o meio ambiente para que somente os pedaços que estiverem mais próximos a um certo formato sobrevivam e continuem se multiplicando. Este processo seria desenvolvido até que todos os pedaços estejam moldados. Depois, juntam-se os pedaços e manipula-se o meio ambiente novamente para que somente os pedaços que se encaixarem sobrevivam. Daí, repete-se o processo até que todas as peças estejam encaixadas e o relógio formado.
Por mais absurdo que pareça este processo, eu ainda o acharia válido. No entanto, mesmo neste caso o processo de seleção não foi natural: o foi monitorado por uma inteligência externa. Mais difícil é imaginar como o mesmo processo poderia acontecer como algo natural, sem interferência de alguém que manipulasse o ambiente. Em um processo natural, é difícil associar adaptabilidade à complexidade: na maioria das vezes, as duas qualidades são antagônicas (por exemplo, as baratas parecem ser mais adaptáveis a ambientes adversos que o urso panda). Eu vejo que algumas alterações no ambiente poderiam por algum acaso produzir espécies mas evoluídas, mas a maioria delas provavelmente produziria espécies menos evoluídas. Na média, a complexidade dos seres vivos deveria diminuir ao invés de aumentar.
O meu segundo problema é filosófico: o processo de seleção natural vale também para nós, seres humanos? Temos de nos submeter ao mesmo mecanismo para tornarmos uma espécie mais evoluída? Existem evidências de que a seleção natural existe também entre nós, seres humanos. Diante das adversidades da vida, os mais capacitados sobrevivem, e os mais fracos são abandonados. É esta uma evidência de que a espécie humana está evoluindo para algo mais complexo, ou uma evidência de que nós estamos decaindo e voltando a ser animais? Poderíamos dizer, como Nietzsche, que virtudes cristãs como a compaixão, a bondade, a graça e o amor são empecilhos para que a espécie humana evolua?
O meu terceiro problema é moral: eu assumo que a teoria de seleção natural inferiria que existem "sub-espécies" que estão mais evoluídas que outras. Isso significaria que algumas raças são mais avançadas que outras, como dizem os movimentos sociais que defendem o racismo? Existiria alguma base científica para se considerar que todas as raças são iguais e devem ser tratadas igualmente?
O meu quarto problema é o teológico: não consigo ver o processo de seleção natural como um mecanismo criado por um Deus que se diz perfeito. A competição pela sobrevivência na natureza parece para mim mais o resultado da queda do homem que algo projetado por Deus, tanto que a Nova Terra é descrita na Bíblia como um lugar onde o leão descansará ao lado de um cordeiro. Uma sociedade em que os mais adaptados à realidade sobrevivem e os mais fracos morrem pode até ser um processo natural de seleção, mas não parece ser a vontade e o desejo de um Deus que defende a causa do pobre, do órfão e da viúva.
O meu quinto problema é no sentido prático: eu questiono se esta teoria trouxe algum resultado prático para a humanidade. Podemos utilizar algum processo de seleção artificial ou de manipulação genética, mas não pudemos produzir nenhuma espécie nova ainda: talvez, mesmo com interferência humana, ainda precisemos esperar pelo menos alguns milhões de anos. Também, não vejo como a genética não poderia continuar se desenvolvendo da mesma forma sem sabermos que as espécies são criadas por um processo de seleção natural. Não quero dizer com isso que esta teoria não tenha nenhuma importância, uma vez que existe em cada um de nós o questionamento sobre "de onde viemos". Mesmo assim, a minha impressão é que ela trouxe mais consequências na área filosófica do que em termos práticos.
Mesmo com todos estes questionamentos, sei que a maioria dos cientistas, filósofos e teólogos já se debruçaram sobre eles e conseguiram ter uma resposta convincente: o problema provavelmente está na minha limitação intelectual. No entanto, o meu ponto é que esta teoria não é tão óbvia assim, pelo menos não para mim. Eu compreendo as pessoas que vêem com incredulidade a teoria da origem das espécies. Nós, pessoas leigas que conhecem apenas a biologia da escola, estudamos a complexidade de uma célula, observamos a delicadeza de uma borboleta, sentimo-nos pequenos diante da majestade de uma sequoia, maravilhamo-nos diante da grandeza de uma baleia, espantamo-nos ao conhecer o funcionamento do nosso corpo, e perguntamos: como tudo isso pode ter acontecido sem que alguém tenha criado tudo isso? Como tudo isso seria fruto de algo aleatório e impessoal? Não é muito mais fácil acreditar que alguém criou o homem de uma maneira parecida como um engenheiro constrói um robô? Não é mais fácil acreditar que alguém pintou as asas de uma borboleta da mesma forma que um artista pinta um quadro? Não é mais fácil acreditar que as células conseguem se reproduzir porque alguém as programou para isso, de maneira parecida como um programador que faz um aplicativo para celular?
Confesso que gostaria de compreender por que esta teoria parece tão óbvia para a maioria das pessoas. Para mim não é ...
sábado, 30 de março de 2013
E se não houvesse páscoa?
Há alguns anos atrás, eu estava discutindo com um colega ateu sobre os argumentos a favor do cristianismo. Quando eu tentei falar sobre a ressurreição de Jesus, ele respondeu-me ironicamente: "Elvis Presley também não morreu ..."
Nesta semana, muitos de nós celebram a páscoa, uma data que relembra o dia em que Jesus ressuscitou. Mesmo assim, eu ainda tenho dificuldades para tentar compreender a importância deste evento na minha vida, mesmo crendo que isso realmente tenha acontecido. Por isso, eu quis escrever algo nesta páscoa que questionasse a diferença que a páscoa faz para nós. O que aconteceria se Jesus não tivesse ressuscitado? E se ele estivesse morto e enterrado?
Eu considero que a Páscoa é o evento que distingue os cristãos de outras pessoas. Para aqueles que não creem que Jesus ressuscitou, ele foi no máximo um homem bom e inspirador que viveu há muitos anos atrás para ensinar os homens a viver sem amor e harmonia uns com os outros, que pregou sobre alguns assuntos que despertaram a ira de algumas pessoas que queriam manter o status quo e, por isso, foi crucificado e morto - nada muito diferente da biografia de outros homens ilustres que passaram pela História. Ele foi um bom exemplo para ser seguido, mas não um homem em quem deveríamos crer e entregar a nossa vida.
Para os cristãos, no entanto, a ressurreição de Cristo fez toda a diferença. Este evento é a evidência para eles de que ele é muito mais que um ser humano, de que o seu sacrifício na cruz não foi em vão, de que ele venceu o poder do pecado, de que a morte é reversível e de que a sua promessa de vida eterna é real. Cristo é a nossa esperança de que, mesmo mortos, seremos um dia ressurretos da mesma forma que ele foi naquele dia. Porque ele ressuscitou, ele é aquele em quem devemos crer e a quem devemos entregar a nossa vida. É por isso que discípulos desanimados e desorientados após verem o seu mestre morto passaram a proclamar corajosamente a ressurreição de seu senhor, mesmo tendo sido espancados e ameaçados de morte. Eles disseram ter visto, ouvido, tocado e conversado com o Jesus ressurreto: por isso, estavam dispostos a proclamar que Jesus Cristo estava vivo para quem tivesse ouvidos para ouvir, mesmo que esta notícia custasse as suas vidas.
Um homem que viveu há muito tempo atrás tinha uma vida relativamente confortável e era respeitado pela sua comunidade. Certo dia, enquanto lutava zelosamente por sua religião, recebeu uma visão de um certo Jesus que mudou completamente a sua vida. Passou para o time adversário, começou a ser perseguido, ameaçado de morte, hostilizado, apedrejado, açoitado, preso e, finalmente, morto por causa desta visão. No final de sua vida, ele percebeu que nada daquilo que ele viu era realidade. Esse tal de Jesus continuava morto e a visão que ele teve não havia sido nada além de uma alucinação. Como ele veria o tipo de vida que ele teve?
Em uma carta endereçada a uma igreja fundada por ele, ele considerou por algum instante esta possibilidade. Ele respondeu a essa pergunta, dizendo que ele seria o mais miserável dos homens. Ele seria a pessoa mais digna de pena deste mundo. Ele havia encontrado um tesouro que parecia ser de grande valor e vendido tudo o que tinha para comprá-lo, para perceber que este tesouro não valia nada. Em vão ele suportou sofrimentos, rejeições, acusações injustas e enfermidades. Ele jogou fora tudo o que ele tinha, como se fosse esterco, e colocou toda a sua esperança em um Deus que é incapaz de nos resgatar dos nossos pecados, pois um Jesus morto não salva ninguém. Todas as suas fichas estavam colocadas nesta mensagem: a de que Jesus Cristo ressuscitou no terceiro dia após a sua crucificação. Se ele perdesse esta "aposta", ele teria perdido tudo.
Nesta semana, muitos de nós celebram a páscoa, uma data que relembra o dia em que Jesus ressuscitou. Mesmo assim, eu ainda tenho dificuldades para tentar compreender a importância deste evento na minha vida, mesmo crendo que isso realmente tenha acontecido. Por isso, eu quis escrever algo nesta páscoa que questionasse a diferença que a páscoa faz para nós. O que aconteceria se Jesus não tivesse ressuscitado? E se ele estivesse morto e enterrado?
Eu considero que a Páscoa é o evento que distingue os cristãos de outras pessoas. Para aqueles que não creem que Jesus ressuscitou, ele foi no máximo um homem bom e inspirador que viveu há muitos anos atrás para ensinar os homens a viver sem amor e harmonia uns com os outros, que pregou sobre alguns assuntos que despertaram a ira de algumas pessoas que queriam manter o status quo e, por isso, foi crucificado e morto - nada muito diferente da biografia de outros homens ilustres que passaram pela História. Ele foi um bom exemplo para ser seguido, mas não um homem em quem deveríamos crer e entregar a nossa vida.
Para os cristãos, no entanto, a ressurreição de Cristo fez toda a diferença. Este evento é a evidência para eles de que ele é muito mais que um ser humano, de que o seu sacrifício na cruz não foi em vão, de que ele venceu o poder do pecado, de que a morte é reversível e de que a sua promessa de vida eterna é real. Cristo é a nossa esperança de que, mesmo mortos, seremos um dia ressurretos da mesma forma que ele foi naquele dia. Porque ele ressuscitou, ele é aquele em quem devemos crer e a quem devemos entregar a nossa vida. É por isso que discípulos desanimados e desorientados após verem o seu mestre morto passaram a proclamar corajosamente a ressurreição de seu senhor, mesmo tendo sido espancados e ameaçados de morte. Eles disseram ter visto, ouvido, tocado e conversado com o Jesus ressurreto: por isso, estavam dispostos a proclamar que Jesus Cristo estava vivo para quem tivesse ouvidos para ouvir, mesmo que esta notícia custasse as suas vidas.
Um homem que viveu há muito tempo atrás tinha uma vida relativamente confortável e era respeitado pela sua comunidade. Certo dia, enquanto lutava zelosamente por sua religião, recebeu uma visão de um certo Jesus que mudou completamente a sua vida. Passou para o time adversário, começou a ser perseguido, ameaçado de morte, hostilizado, apedrejado, açoitado, preso e, finalmente, morto por causa desta visão. No final de sua vida, ele percebeu que nada daquilo que ele viu era realidade. Esse tal de Jesus continuava morto e a visão que ele teve não havia sido nada além de uma alucinação. Como ele veria o tipo de vida que ele teve?
Em uma carta endereçada a uma igreja fundada por ele, ele considerou por algum instante esta possibilidade. Ele respondeu a essa pergunta, dizendo que ele seria o mais miserável dos homens. Ele seria a pessoa mais digna de pena deste mundo. Ele havia encontrado um tesouro que parecia ser de grande valor e vendido tudo o que tinha para comprá-lo, para perceber que este tesouro não valia nada. Em vão ele suportou sofrimentos, rejeições, acusações injustas e enfermidades. Ele jogou fora tudo o que ele tinha, como se fosse esterco, e colocou toda a sua esperança em um Deus que é incapaz de nos resgatar dos nossos pecados, pois um Jesus morto não salva ninguém. Todas as suas fichas estavam colocadas nesta mensagem: a de que Jesus Cristo ressuscitou no terceiro dia após a sua crucificação. Se ele perdesse esta "aposta", ele teria perdido tudo.
Esta é uma das razões pela qual eu questiono o modo como nós vivemos o nosso "cristianismo" hoje em dia. De uma certa forma, vivemos como se tivéssemos feito uma escolha de baixo risco: asseguramos o nosso lugar no céu enquanto tentamos viver confortavelmente neste mundo. A páscoa perdeu importância na nossa vida, e nós a diluímos com outros ensinos que prometem bênçãos do céu aqui e agora. Eu questiono por que a afirmação de Paulo de que "todos os que desejam viver em Cristo serão perseguidos" não parece se aplicar a nós, que praticamente não sofremos retaliações por "sermos cristãos". Eu questiono por que ninguém me consideraria digno de pena se Cristo não tivesse ressuscitado dentre os mortos. Talvez alguma coisa esteja bastante errada com a nossa vida cristã e devamos questionar se estamos indo pelo caminho certo.
Com esta reflexão, eu gostaria de desejar uma feliz páscoa a todos. Para dizer a verdade, eu ainda não tenho uma resposta convincente ao meu colega que considera a ressurreição de Jesus um mito como o de Elvis Presley ou dos "Highlanders". A única resposta que eu poderia dar é repetir o que aquele discípulo de Jesus disse, após considerar a possibilidade de a páscoa nunca ter acontecido: "mas a verdade é que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, e isso é garantia de que os que estão mortos também serão ressuscitados".
segunda-feira, 18 de março de 2013
O amigo verdadeiro (escrito em 1998)
O amigo verdadeiro é tão raro e precioso que mesmo todas as riquezas deste mundo não poderiam comprá-lo.
O amigo verdadeiro atrai-me não pelas suas posses, mas pelo seu caráter.
O amigo verdadeiro é conhecido quando estou em apuros e todo me abandonaram. Todos, menos ele.
O amigo verdadeiro é corajoso o suficiente para corrigir-me quando eu estou errado, mesmo que corrigir seja mais penoso para ele que para mim.
O amigo verdadeiro aprecia-me, olha para as minhas qualidades e não me julga pelas minhas falhas.
O amigo verdadeiro aceita-me da maneira que eu sou. Ele ainda está comigo quando estou alegre ou triste, agradável ou insuportável, otimista ou pessimista, doce ou amargo.
O amigo verdadeiro é tão digno de confiança que posso ser eu mesmo diante dele, expondo até mesmo os meus piores segredos sem temer o que ele possa fazer com eles.
O amigo verdadeiro é alguém cuja companhia é prazerosa por si só. Ele é alguém com quem sinto-me confortável, mesmo que não falemos nada.
O amigo verdadeiro conhece-me tão bem que ele pode perceber quando não estou bem, mesmo antes que eu fale alguma coisa.
O amigo verdadeiro pode perdoar até mesmo a piores coisas que eu faça contra ele. Ele perdoa a minha falha, dá-me um abraço e restaura a nossa amizade.
O amigo verdadeiro nunca desiste de mim, mesmo que eu o tenha decepcionado pela quadringentésima nonagésima vez.
O amigo verdadeiro alegra-se com o meu sucesso, mesmo quando o preço do meu sucesso é o seu fracasso.
O amigo verdadeiro pode sacrificar o que ele tem, mesmo a sua própria vida, para salvar-me quando estou em apuros.
Durante a minha vida, eu estive procurando um amigo como este e, todas as vezes que eu pensei que havia encontrado, decepcionei-me.
Um dia a minha busca terminou. Eu percebi que, há dois mil anos, alguém havia dito que "ninguém tem maior amor que este: que ele dê a sua vida em favor de seus amigos".
Percebi, então, que ele era o meu amigo verdadeiro, e ele havia provado isso. Ele é Jesus Cristo, o meu Senhor, a quem eu havia entregado a minha vida.
Daquele dia em diante, eu tenho tentado aprender como ser um amigo como ele tem sido para mim.
O amigo verdadeiro atrai-me não pelas suas posses, mas pelo seu caráter.
O amigo verdadeiro é conhecido quando estou em apuros e todo me abandonaram. Todos, menos ele.
O amigo verdadeiro é corajoso o suficiente para corrigir-me quando eu estou errado, mesmo que corrigir seja mais penoso para ele que para mim.
O amigo verdadeiro aprecia-me, olha para as minhas qualidades e não me julga pelas minhas falhas.
O amigo verdadeiro aceita-me da maneira que eu sou. Ele ainda está comigo quando estou alegre ou triste, agradável ou insuportável, otimista ou pessimista, doce ou amargo.
O amigo verdadeiro é tão digno de confiança que posso ser eu mesmo diante dele, expondo até mesmo os meus piores segredos sem temer o que ele possa fazer com eles.
O amigo verdadeiro é alguém cuja companhia é prazerosa por si só. Ele é alguém com quem sinto-me confortável, mesmo que não falemos nada.
O amigo verdadeiro conhece-me tão bem que ele pode perceber quando não estou bem, mesmo antes que eu fale alguma coisa.
O amigo verdadeiro pode perdoar até mesmo a piores coisas que eu faça contra ele. Ele perdoa a minha falha, dá-me um abraço e restaura a nossa amizade.
O amigo verdadeiro nunca desiste de mim, mesmo que eu o tenha decepcionado pela quadringentésima nonagésima vez.
O amigo verdadeiro alegra-se com o meu sucesso, mesmo quando o preço do meu sucesso é o seu fracasso.
O amigo verdadeiro pode sacrificar o que ele tem, mesmo a sua própria vida, para salvar-me quando estou em apuros.
Durante a minha vida, eu estive procurando um amigo como este e, todas as vezes que eu pensei que havia encontrado, decepcionei-me.
Um dia a minha busca terminou. Eu percebi que, há dois mil anos, alguém havia dito que "ninguém tem maior amor que este: que ele dê a sua vida em favor de seus amigos".
Percebi, então, que ele era o meu amigo verdadeiro, e ele havia provado isso. Ele é Jesus Cristo, o meu Senhor, a quem eu havia entregado a minha vida.
Daquele dia em diante, eu tenho tentado aprender como ser um amigo como ele tem sido para mim.
A raiz de todos os males
Dizem que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Por amor ao dinheiro, nações declararam guerras, mulheres traíram seus maridos, filhos mataram seus próprios pais, amigos tornaram-se inimigos e famílias foram destroçadas. O estrago que o dinheiro já causou à humanidade foi tão grande que Jesus deu a ele um nome (Mamom), como se um simples pedaço de papel fosse uma entidade a quem os homens adoravam e serviam. Um deus, até.
Uma das histórias da Bíblia mais impressionantes para mim foi a do jovem rico. Ao ser inquirido sobre o que era necessário para herdar a vida eterna, Jesus respondeu que o jovem deveria vender tudo o que tinha, dar aos pobres e segui-lo. Por ser rico, o jovem declinou ao convite de Jesus e perdeu a oportunidade de segui-lo.
Obviamente, a maioria de nós não tomaria uma atitude tão radical. Nunca ouvi um sermão sobre esta história na qual se pregava um desprendimento completo de suas posses: ouvi declarações menos radicais, como "se Jesus pedir isso para você" (como se ele provavelmente não fosse pedir tal coisa), ou "o importante é tornar disponível tudo o que você tem" (como se Jesus provavelmente não fosse provar se tudo o que você tem está realmente disponível ou não). Nenhuma interpretação desta passagem que eu li ou ouvi foi o suficiente para convencer-me. Afinal de contas, por que Jesus comparou a possibilidade de um rico entrar no reino dos céus com a possibilidade de um camelo entrar na ponta de uma agulha? A resposta de Jesus sempre foi um incômodo para mim, pois eu sabia que eu provavelmente agiria como o jovem rico, mesmo não sendo tão rico assim.
Em alguns aspectos, a educação financeira que recebi em casa esteve de acordo com a minha interpretação da Bíblia. O dinheiro é necessário para a sobrevivência, mas é sujo (meus pais até nos orientavam a lavar as mãos após manusear o dinheiro, talvez por não saber a procedência das cédulas, ou talvez como um simbolismo daquilo que eles tentavam nos ensinar). Deveríamos pensar a longo prazo, e não seguir os nossos impulsos de compra. Deveríamos guardar nos tempos de prosperidade para nos preparar nos tempos de adversidade. Deveríamos tomar cuidado com quem nos casamos, pois muitas mulheres casam por causa do dinheiro e não por amor. Não deveríamos confiar nos amigos que nos procuram quando estamos bem financeiramente, pois são os que nos abandonam quando não estamos bem. De uma certa forma, eles conheciam o poder que o dinheiro exercia no coração das pessoas, e tentavam nos proteger dele.
Quando comecei a frequentar a igreja, meus pais não fizeram distinção com os outros relacionamentos que eu tinha. Para eles, os meus irmãos da igreja estavam interessados no dízimo que eu daria à igreja e, se eu parasse de dar, estes mesmos irmão dariam as costas para mim. Desta vez eu discordei deles, pois achava que meus irmãos em Cristo eram diferentes. Além disso, eu não me importava muito com isso: o impacto dos ensinos de Jesus foi tão grande em mim que eu quis sinceramente desprender de tudo o que eu tinha. Desejei muito fazê-lo, embora não tivesse coragem para isso.
Nos meus tempos de "fé como o de uma criança", eu imaginava que, se eu simplesmente me ocupasse em trabalhar na obra de Deus, pregando o seu reino e promovendo a sua justiça, eu não mais precisaria me preocupar com o meu sustento pois, como num passe de mágica, Deus proveria aquilo que eu precisava. Na minha imaginação, não precisaria ter um emprego, não precisaria me submeter a patrões que tem outros interesses além do reino de Deus e não precisaria ficar preso a obrigações que aparentemente não tinham nada a ver com a justiça de Deus. Se eu simplesmente vagasse por aí, sem lenço nem documento, buscando uma oportunidade de ser usado por Deus para abençoar alguém, Deus enviaria corvos para me alimentar, multiplicaria os meus pães ou tocaria o coração de alguém que, no anonimato, daria exatamente aquilo que eu estava precisando.
Obviamente, eu nunca fui capaz de tomar uma atitude tão radical. Várias vezes eu ensaiei o salto de fé, mas no final eu voltava atrás, como um paraquedista de primeira viagem que trava de medo e não consegue saltar do avião ao ver que terá de confiar apenas no para-quedas. No final, eu nunca consegui dar este salto. Ao invés disso, eu tentei fazer pequenos saltos: quem sabe, eu provaria que a teoria funcionava na prática e eu teria mais confiança para fazer saltos maiores. Comecei tentando viver com o mínimo possível, eliminando desperdícios e aproveitando ao máximo o que eu já possuía. Usava as roupas até que se gastassem e não mais pudessem ser usadas. Deixava tudo o que eu tinha à disposição de quem precisasse delas. Atentava-me com os pedidos de ajuda, tanto de pessoas da igreja como de crianças de rua e mendigos, e pagava do meu bolso pela ajuda que fosse necessária.
De uma certa forma, eu lembro com satisfação desta época, pois este estilo de vida dava-me uma sensação de liberdade. Não tinha muito: na verdade, eu poderia até ter mais, mas eu simplesmente não me interessava em ter mais. Mesmo recebendo pouco por estar em início de carreira, eu sentia liberdade para escolher entre usar o fruto do meu trabalho para dar um presente para mim mesmo, ou para ajudar alguém que precisava mais que eu, e a segunda opção dava-me muito mais satisfação que a primeira. Esta experiência foi marcante para mim, e eu achei que estava pronto a dar um salto maior: o de abrir mão da minha fonte de sustento e talvez da minha carreira profissional.
Este passo foi bastante difícil, não porque eu não acreditasse que eu sobreviveria sem ter nenhuma fonte estável de dinheiro, mas porque eu tinha medo de a "experiência" não dar certo. Queria ter a certeza de que eu seria bem-sucedido. Além disso, eu não encontrei apoio em nenhum lugar, nem na minha família, nem mesmo na igreja que eu frequentava. Todos, inclusive eu, achavam que isso era loucura.
Felizmente (ou infelizmente), essa loucura não se concretizou. Fui rejeitado no seminário em que eu pedi admissão e, logo depois, veio o namoro, o casamento e o filho. Com isso, eu morri para o sonho de viver pela fé.
Aos poucos, voltei a ser uma pessoa normal, que dependia de um emprego estável, que teria de receber um bom salário, fazer um orçamento doméstico e discutir com a minha esposa quando os gastos passavam além do orçamento. Algo dentro de mim morreu nesse processo. Perdi a liberdade para sair do emprego, para abandonar a carreira profissional e para deixar que Deus me levasse onde ele quisesse que eu fosse. Perdi a alegria de poder dar de mim mesmo para ajudar os outros. A ansiedade com as finanças começou a tomar conta de mim. Ao invés de dar para a obra de Deus, eu passei a economizar para estar preparado para as novas necessidades que viriam, muito além das necessidades básicas de ter o que comer e o que vestir.
Hoje, eu vejo que as novas circunstâncias apenas fizeram-me perceber o quando eu ainda amava Mamom, mesmo tentando livrar-me dele durante toda a minha vida como cristão. Nas minhas discussões, eu sentia-me como um avarento do pior tipo, daquele que construiu celeiros para guardar a sua fortuna sem saber que Deus estaria pedindo a sua vida naquela noite. Eu percebi também como eu confiava no dinheiro. Eu notei o quanto eu sempre ficava alterado quando checava a conta bancária, mesmo que estivesse muito longe de estar no vermelho. Perder o controle das finanças era para mim como se eu perdesse a minha fonte de segurança. Dificilmente tinha alegria em dar de mim para responder a alguma necessidade da minha família: eu o fazia com uma certa amargura, como se tivesse sido obrigado a fazer isso. Finalmente, o dinheiro tornou-se mais importante que as pessoas. Como se tivesse adquirido uma paranoia, comecei a desconfiar das pessoas ao meu redor: provavelmente, a maioria das pessoas só estão interessados com o que eu posso dar a eles e são poucos os que realmente me amam. Eu tornei-me exatamente o oposto do que eu desejava ser.
Certa vez eu ouvi a história de um alpinista que, por causa de um acidente, ficou pendurado por uma corda e não conseguia enxergar nada do que estava abaixo dele por causa de uma nevasca. Ele ouviu uma voz dizendo para soltar a corda, mas não confiou nessa voz e continuou segurando firmemente a corda. Mais tarde, encontraram este alpinista congelado na corda, a um metro do chão. Eu sinto-me exatamente desta forma. Às vezes, eu tenho a impressão de que preciso realmente soltar as rédeas e deixar as coisas seguirem o seu curso, mesmo que aparentemente levem à falência (talvez desta forma eu realmente experimente a provisão de Deus). Na maioria das vezes, no entanto, eu tento desesperadamente obter o controle da situação, contendo as despesas, trabalhando mais e mais para conseguir pagar as contas, mesmo sabendo que o meu esforço é desgastante e inútil, pois será apenas uma questão de tempo até eu entrar em colapso.
Neste contexto, eu vejo que a recomendação de Jesus faz muito sentido. Tenho de aprender no meu coração (e não apenas na minha mente), que a minha devoção, a minha dependência, a minha confiança e o meu amor deve estar no Deus que me dá tudo o que eu tenho, inclusive os meios para providenciar as minhas necessidades materiais. Creio que Jesus deu este tratamento de choque ao jovem rico para libertá-lo de sua dependência do dinheiro, e provavelmente daria esse tratamento para mim também. A pergunta que eu faço a mim mesmo é: teria eu coragem para cumprir as ordens do meu médico? Por enquanto, isso parece loucura ... uma blasfêmia ao deus Mamom.
Uma das histórias da Bíblia mais impressionantes para mim foi a do jovem rico. Ao ser inquirido sobre o que era necessário para herdar a vida eterna, Jesus respondeu que o jovem deveria vender tudo o que tinha, dar aos pobres e segui-lo. Por ser rico, o jovem declinou ao convite de Jesus e perdeu a oportunidade de segui-lo.
Obviamente, a maioria de nós não tomaria uma atitude tão radical. Nunca ouvi um sermão sobre esta história na qual se pregava um desprendimento completo de suas posses: ouvi declarações menos radicais, como "se Jesus pedir isso para você" (como se ele provavelmente não fosse pedir tal coisa), ou "o importante é tornar disponível tudo o que você tem" (como se Jesus provavelmente não fosse provar se tudo o que você tem está realmente disponível ou não). Nenhuma interpretação desta passagem que eu li ou ouvi foi o suficiente para convencer-me. Afinal de contas, por que Jesus comparou a possibilidade de um rico entrar no reino dos céus com a possibilidade de um camelo entrar na ponta de uma agulha? A resposta de Jesus sempre foi um incômodo para mim, pois eu sabia que eu provavelmente agiria como o jovem rico, mesmo não sendo tão rico assim.
Em alguns aspectos, a educação financeira que recebi em casa esteve de acordo com a minha interpretação da Bíblia. O dinheiro é necessário para a sobrevivência, mas é sujo (meus pais até nos orientavam a lavar as mãos após manusear o dinheiro, talvez por não saber a procedência das cédulas, ou talvez como um simbolismo daquilo que eles tentavam nos ensinar). Deveríamos pensar a longo prazo, e não seguir os nossos impulsos de compra. Deveríamos guardar nos tempos de prosperidade para nos preparar nos tempos de adversidade. Deveríamos tomar cuidado com quem nos casamos, pois muitas mulheres casam por causa do dinheiro e não por amor. Não deveríamos confiar nos amigos que nos procuram quando estamos bem financeiramente, pois são os que nos abandonam quando não estamos bem. De uma certa forma, eles conheciam o poder que o dinheiro exercia no coração das pessoas, e tentavam nos proteger dele.
Quando comecei a frequentar a igreja, meus pais não fizeram distinção com os outros relacionamentos que eu tinha. Para eles, os meus irmãos da igreja estavam interessados no dízimo que eu daria à igreja e, se eu parasse de dar, estes mesmos irmão dariam as costas para mim. Desta vez eu discordei deles, pois achava que meus irmãos em Cristo eram diferentes. Além disso, eu não me importava muito com isso: o impacto dos ensinos de Jesus foi tão grande em mim que eu quis sinceramente desprender de tudo o que eu tinha. Desejei muito fazê-lo, embora não tivesse coragem para isso.
Nos meus tempos de "fé como o de uma criança", eu imaginava que, se eu simplesmente me ocupasse em trabalhar na obra de Deus, pregando o seu reino e promovendo a sua justiça, eu não mais precisaria me preocupar com o meu sustento pois, como num passe de mágica, Deus proveria aquilo que eu precisava. Na minha imaginação, não precisaria ter um emprego, não precisaria me submeter a patrões que tem outros interesses além do reino de Deus e não precisaria ficar preso a obrigações que aparentemente não tinham nada a ver com a justiça de Deus. Se eu simplesmente vagasse por aí, sem lenço nem documento, buscando uma oportunidade de ser usado por Deus para abençoar alguém, Deus enviaria corvos para me alimentar, multiplicaria os meus pães ou tocaria o coração de alguém que, no anonimato, daria exatamente aquilo que eu estava precisando.
Obviamente, eu nunca fui capaz de tomar uma atitude tão radical. Várias vezes eu ensaiei o salto de fé, mas no final eu voltava atrás, como um paraquedista de primeira viagem que trava de medo e não consegue saltar do avião ao ver que terá de confiar apenas no para-quedas. No final, eu nunca consegui dar este salto. Ao invés disso, eu tentei fazer pequenos saltos: quem sabe, eu provaria que a teoria funcionava na prática e eu teria mais confiança para fazer saltos maiores. Comecei tentando viver com o mínimo possível, eliminando desperdícios e aproveitando ao máximo o que eu já possuía. Usava as roupas até que se gastassem e não mais pudessem ser usadas. Deixava tudo o que eu tinha à disposição de quem precisasse delas. Atentava-me com os pedidos de ajuda, tanto de pessoas da igreja como de crianças de rua e mendigos, e pagava do meu bolso pela ajuda que fosse necessária.
De uma certa forma, eu lembro com satisfação desta época, pois este estilo de vida dava-me uma sensação de liberdade. Não tinha muito: na verdade, eu poderia até ter mais, mas eu simplesmente não me interessava em ter mais. Mesmo recebendo pouco por estar em início de carreira, eu sentia liberdade para escolher entre usar o fruto do meu trabalho para dar um presente para mim mesmo, ou para ajudar alguém que precisava mais que eu, e a segunda opção dava-me muito mais satisfação que a primeira. Esta experiência foi marcante para mim, e eu achei que estava pronto a dar um salto maior: o de abrir mão da minha fonte de sustento e talvez da minha carreira profissional.
Este passo foi bastante difícil, não porque eu não acreditasse que eu sobreviveria sem ter nenhuma fonte estável de dinheiro, mas porque eu tinha medo de a "experiência" não dar certo. Queria ter a certeza de que eu seria bem-sucedido. Além disso, eu não encontrei apoio em nenhum lugar, nem na minha família, nem mesmo na igreja que eu frequentava. Todos, inclusive eu, achavam que isso era loucura.
Felizmente (ou infelizmente), essa loucura não se concretizou. Fui rejeitado no seminário em que eu pedi admissão e, logo depois, veio o namoro, o casamento e o filho. Com isso, eu morri para o sonho de viver pela fé.
Aos poucos, voltei a ser uma pessoa normal, que dependia de um emprego estável, que teria de receber um bom salário, fazer um orçamento doméstico e discutir com a minha esposa quando os gastos passavam além do orçamento. Algo dentro de mim morreu nesse processo. Perdi a liberdade para sair do emprego, para abandonar a carreira profissional e para deixar que Deus me levasse onde ele quisesse que eu fosse. Perdi a alegria de poder dar de mim mesmo para ajudar os outros. A ansiedade com as finanças começou a tomar conta de mim. Ao invés de dar para a obra de Deus, eu passei a economizar para estar preparado para as novas necessidades que viriam, muito além das necessidades básicas de ter o que comer e o que vestir.
Hoje, eu vejo que as novas circunstâncias apenas fizeram-me perceber o quando eu ainda amava Mamom, mesmo tentando livrar-me dele durante toda a minha vida como cristão. Nas minhas discussões, eu sentia-me como um avarento do pior tipo, daquele que construiu celeiros para guardar a sua fortuna sem saber que Deus estaria pedindo a sua vida naquela noite. Eu percebi também como eu confiava no dinheiro. Eu notei o quanto eu sempre ficava alterado quando checava a conta bancária, mesmo que estivesse muito longe de estar no vermelho. Perder o controle das finanças era para mim como se eu perdesse a minha fonte de segurança. Dificilmente tinha alegria em dar de mim para responder a alguma necessidade da minha família: eu o fazia com uma certa amargura, como se tivesse sido obrigado a fazer isso. Finalmente, o dinheiro tornou-se mais importante que as pessoas. Como se tivesse adquirido uma paranoia, comecei a desconfiar das pessoas ao meu redor: provavelmente, a maioria das pessoas só estão interessados com o que eu posso dar a eles e são poucos os que realmente me amam. Eu tornei-me exatamente o oposto do que eu desejava ser.
Certa vez eu ouvi a história de um alpinista que, por causa de um acidente, ficou pendurado por uma corda e não conseguia enxergar nada do que estava abaixo dele por causa de uma nevasca. Ele ouviu uma voz dizendo para soltar a corda, mas não confiou nessa voz e continuou segurando firmemente a corda. Mais tarde, encontraram este alpinista congelado na corda, a um metro do chão. Eu sinto-me exatamente desta forma. Às vezes, eu tenho a impressão de que preciso realmente soltar as rédeas e deixar as coisas seguirem o seu curso, mesmo que aparentemente levem à falência (talvez desta forma eu realmente experimente a provisão de Deus). Na maioria das vezes, no entanto, eu tento desesperadamente obter o controle da situação, contendo as despesas, trabalhando mais e mais para conseguir pagar as contas, mesmo sabendo que o meu esforço é desgastante e inútil, pois será apenas uma questão de tempo até eu entrar em colapso.
Neste contexto, eu vejo que a recomendação de Jesus faz muito sentido. Tenho de aprender no meu coração (e não apenas na minha mente), que a minha devoção, a minha dependência, a minha confiança e o meu amor deve estar no Deus que me dá tudo o que eu tenho, inclusive os meios para providenciar as minhas necessidades materiais. Creio que Jesus deu este tratamento de choque ao jovem rico para libertá-lo de sua dependência do dinheiro, e provavelmente daria esse tratamento para mim também. A pergunta que eu faço a mim mesmo é: teria eu coragem para cumprir as ordens do meu médico? Por enquanto, isso parece loucura ... uma blasfêmia ao deus Mamom.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
A fé é para os fracos
Para muitas pessoas, a religião é uma muleta para as pessoas fracas que não podem andar com as suas próprias pernas. Essas pessoas precisariam acreditar em algum poder sobrenatural para poder aceitar e enfrentar os problemas da vida. De uma certa forma, Deus seria uma invenção dessas pessoas e, uma vez que essas pessoas aprendessem a lutar pelos seus direitos para melhorar as suas condições de vida sem a ajuda de uma crença, Deus estaria morto. Para eles, tudo o que não é material não seria real, e que aquilo que vivemos no dia-a-dia seria toda a realidade. Finalmente, eles acreditariam que todas as mazelas deste mundo serão superadas com alguma invenção humana, como a tecnologia, a engenharia social, ou a luta de classes.
Por muito tempo, essa era a minha opinião. Com uma boa dose de arrogância, eu acreditava ser capaz de viver sem precisar buscar força e consolo na religião, pois eu entendia que eu era forte, que eu suportaria qualquer coisa, e que poderia enfrentar a realidade como ela era, sem precisar acreditar em um Deus fictício, fruto da minha imaginação.
Isso foi há anos atrás, quando eu era jovem e acreditava que eu podia fazer tudo. Depois de algum tempo de vida, eu continuo com a mesma opinião sobre a religião, mesmo mudando radicalmente a minha posição em relação a esse assunto.
Por exemplo, hoje não olho mais com desprezo as pessoas que precisam de Deus: muito pelo contrário, eu admiro aqueles que tem a coragem de admitir que tem fraquezas e que precisam de ajuda de alguém maior que elas para superar seus problemas, algo que eu tenho dificuldades de admitir. Neste aspecto, eu concordo com a premissa do grupo dos Alcoólicos Anônimos de que o primeiro passo para combater um vício é admitir o fracasso em tentar combatê-la com as suas próprias forças.
Eu observo que, normalmente, as pessoas que afirmam a inexistência de Deus são bem-sucedidas, tem formação intelectual acima da média, têm vida confortável e não passam por necessidades extremas. O ateísmo é como um jantar em um restaurante de alto padrão, acessível apenas para os que tem condições de desfrutá-las, seja por terem um histórico privilegiado, seja por serem dotados de uma inteligência ou de uma força de vontade acima do normal. Para os meros mortais, sobra a opção mais barata, a de buscar esperança, força e consolo em algo que não podem ver, ouvir ou sentir. Enquanto vivermos em um mundo onde existe injustiça, sofrimento e doença, sempre haverá religião. É natural que alguém que não tenha condições de pagar para ter acesso ao melhor que a medicina possa oferecer recorra ao "médico dos médicos", e que alguém que não possa pagar um bom advogado para defender a sua causa clame ao Deus de justiça para julgar a sua causa, mesmo que Deus não prometa cura ou justiça instantânea.
Uma vida confortável nesse mundo pode dar-me a impressão de que Deus não existe, ou que pelo menos não é necessário para mim. Porém, existe um evento na nossa vida que expõe a fragilidade de todos nós, sem exceção: a morte. Por mais biologicamente natural que a morte seja, algo dentro de nós não vê a morte com naturalidade. Desejamos continuar vivendo, prolongar a nossa vida o máximo possível e nunca morrer. Temos o desejo de ser eternos, e este desejo nos coloca como pessoas indefesas diante da morte. Todo o dinheiro, inteligência ou vontade humana não serão nada diante do fato de que um dia pararemos de respirar, o coração parará de bater, e a vida deixará de existir. De uma certa forma, todos nós somos fracos.
Há também a afirmação de que Deus foi criação nossa. Eu vejo que esta afirmação tem fundamento, pois as pessoas tendem a escolher o deus que mais lhe convêm, como se tivessem criado um deus "à sua imagem e semelhança". Porém hoje eu vejo de uma outra maneira. Acho mais consistente crer que nós buscamos a um "deus" porque "o Deus" fez o homem "à sua imagem e semelhança", que deseja encontrar-se com algo além desse mundo, como um exilado que anseia por sua terra natal. Vejo também que o "deus" que cada um cria para si mesmo é uma projeção distorcida do Deus que nos criou, como uma lembrança vaga que eu tenho de um parente que morreu quando eu era pequeno. Prefiro crer que sofremos uma espécie de amnésia espiritual: sentimos falta de alguma coisa, mas não sabemos lembrar exatamente do quê.
Finalmente, juntei-me ao time dos fracos. Percebi que não conseguia lidar com as dificuldades e as tragédias da vida. Percebi que eu não conseguia vencer a timidez, o desânimo e a depressão. Percebi que eu precisava de ajuda. Percebi que precisava crer em alguém que fosse maior que a realidade que eu podia perceber pelos meus cinco sentidos. Tornei-me um aleijado e precisei de muletas para andar.
Por mais que isso tenha parecido uma tragédia, não foi. Em Jesus Cristo, encontrei muito mais que uma muleta: encontrei a parte que me faltava para tornar-me uma pessoa completa. Encontrei recursos que me permitiram fazer muito mais do que eu faria se eu andasse perfeitamente. Encontrei forças para combater a timidez, para encontrar ânimo em situações difíceis, para viver com alegria, para falar e escrever sobre coisas além da minha compreensão. De uma certa forma, eu ecoo as palavras de Paulo: "o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza ... quando estou fraco, então sou forte".
Isso foi há anos atrás, quando eu era jovem e acreditava que eu podia fazer tudo. Depois de algum tempo de vida, eu continuo com a mesma opinião sobre a religião, mesmo mudando radicalmente a minha posição em relação a esse assunto.
Por exemplo, hoje não olho mais com desprezo as pessoas que precisam de Deus: muito pelo contrário, eu admiro aqueles que tem a coragem de admitir que tem fraquezas e que precisam de ajuda de alguém maior que elas para superar seus problemas, algo que eu tenho dificuldades de admitir. Neste aspecto, eu concordo com a premissa do grupo dos Alcoólicos Anônimos de que o primeiro passo para combater um vício é admitir o fracasso em tentar combatê-la com as suas próprias forças.
Eu observo que, normalmente, as pessoas que afirmam a inexistência de Deus são bem-sucedidas, tem formação intelectual acima da média, têm vida confortável e não passam por necessidades extremas. O ateísmo é como um jantar em um restaurante de alto padrão, acessível apenas para os que tem condições de desfrutá-las, seja por terem um histórico privilegiado, seja por serem dotados de uma inteligência ou de uma força de vontade acima do normal. Para os meros mortais, sobra a opção mais barata, a de buscar esperança, força e consolo em algo que não podem ver, ouvir ou sentir. Enquanto vivermos em um mundo onde existe injustiça, sofrimento e doença, sempre haverá religião. É natural que alguém que não tenha condições de pagar para ter acesso ao melhor que a medicina possa oferecer recorra ao "médico dos médicos", e que alguém que não possa pagar um bom advogado para defender a sua causa clame ao Deus de justiça para julgar a sua causa, mesmo que Deus não prometa cura ou justiça instantânea.
Há também a afirmação de que Deus foi criação nossa. Eu vejo que esta afirmação tem fundamento, pois as pessoas tendem a escolher o deus que mais lhe convêm, como se tivessem criado um deus "à sua imagem e semelhança". Porém hoje eu vejo de uma outra maneira. Acho mais consistente crer que nós buscamos a um "deus" porque "o Deus" fez o homem "à sua imagem e semelhança", que deseja encontrar-se com algo além desse mundo, como um exilado que anseia por sua terra natal. Vejo também que o "deus" que cada um cria para si mesmo é uma projeção distorcida do Deus que nos criou, como uma lembrança vaga que eu tenho de um parente que morreu quando eu era pequeno. Prefiro crer que sofremos uma espécie de amnésia espiritual: sentimos falta de alguma coisa, mas não sabemos lembrar exatamente do quê.
Finalmente, juntei-me ao time dos fracos. Percebi que não conseguia lidar com as dificuldades e as tragédias da vida. Percebi que eu não conseguia vencer a timidez, o desânimo e a depressão. Percebi que eu precisava de ajuda. Percebi que precisava crer em alguém que fosse maior que a realidade que eu podia perceber pelos meus cinco sentidos. Tornei-me um aleijado e precisei de muletas para andar.
Por mais que isso tenha parecido uma tragédia, não foi. Em Jesus Cristo, encontrei muito mais que uma muleta: encontrei a parte que me faltava para tornar-me uma pessoa completa. Encontrei recursos que me permitiram fazer muito mais do que eu faria se eu andasse perfeitamente. Encontrei forças para combater a timidez, para encontrar ânimo em situações difíceis, para viver com alegria, para falar e escrever sobre coisas além da minha compreensão. De uma certa forma, eu ecoo as palavras de Paulo: "o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza ... quando estou fraco, então sou forte".
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Para que igreja?
Introdução
Com algum constrangimento, eu confesso que sou parte de um grupo que está crescendo bastante no Brasil ultimamente: o de pessoas que se consideram evangélicas sem estar filiadas a nenhuma igreja, conhecidas como "sem-igreja".
É difícil tentar explicar como eu cheguei a este ponto. Não acredito que eu não precise de igreja. Não acho que a minha peregrinação tenha de ser solitária. Creio que a convivência com pessoas que tenham o mesmo Deus e Pai seja indispensável para exercitar a maior virtude cristã: o amor. Não há como amar nem ser amado se não houver pessoas ao meu redor. Posso aprender tudo sobre a vida cristã lendo livros, louvar a Deus com as músicas gravadas no MP3 e dispensar os cultos da igreja, mas nunca poderei praticar o que eu aprendo se não estiver inserido em uma comunidade.
Nesse sentido, eu creio que a igreja seja indispensável. O meu problema tem sido associar a igreja que eu necessito àquela igreja que tem um prédio, um santuário, alguns cultos durante a semana e alguns membros. Admito que a igreja tem sido o aspecto mais difícil nesses anos de peregrinação. Após frequentar inúmeras igrejas e me envolver em algumas delas, chego à conclusão de que existe algo de muito errado comigo ou existe algo muito errado com as igrejas. Talvez as duas coisas.
A "igreja" ideal
Eu não nasci em lar evangélico e não fui frequentador de igreja na infância. Por isso, a minha primeira idéia do que era igreja era o que eu lia na Bíblia.
Eu via na igreja a possibilidade de revolucionar o mundo. De uma certa forma, a igreja era para mim uma utopia que poderia tornar-se realidade se ela compreendesse e exercesse o seu papel neste mundo. Afinal de contas, isso já aconteceu pelo menos em um momento da história. De acordo com o livros de Atos dos Apóstolos, cinquenta dias após a ressurreição de Jesus milhares de pessoas arrependeram-se de seus pecados e resolveram seguir a Cristo. Em uma demonstração nítida do caráter da pessoa que decidiram seguir, os que tinham muito voluntariamente venderam suas propriedades para que os seus "irmãos" pobres não passassem necessidade. Eles encontravam-se todos os dias para partir o pão e adorar a Deus. A igreja conquistava a admiração das pessoas de fora, pelo amor que demonstravam um pelo outro e por aquilo que Deus estava fazendo entre eles. Por isso, mesmo com as perseguições, o número de pessoas dispostas a seguir a Cristo crescia naturalmente, sem que a igreja precisasse se esforçar para convencer os outros a fazê-lo. A igreja não era perfeita, como atestam os incidentes registrados no mesmo livro; no entanto, ela abalou os alicerces do império mais poderoso daquela época a partir de um grupo de 40 pessoas.
A igreja também seria uma "família". Eu esperava que isso fosse mais do que um outro jargão. Em uma família de verdade, a palavra "compartilhar" tem um sentido muito mais profundo. Compartilhamos do mesmo teto, do mesmo banheiro, dos mesmos brinquedos, das mesmas refeições. Muitas vezes até bebemos do mesmo copo e enxugamos na mesma toalha. Se um de nós fica doente, normalmente os outros também acabam adquirindo a mesma doença. Quando um membro da família está mal, todos são afetados. Quando eu era sustentado pelos meus pais, não fazia muito sentido dizer que eu era mais rico ou mais pobre que o meu irmão: todos éramos igualmente ricos ou pobres, e eram os meus pais que decidiam como distribuir a renda da casa de forma a suprir a necessidade de todos. Esta era a ilustração de família que vinha à minha mente quando se falava de igreja como a família de Deus.
Finalmente, eu via a igreja como um grupo que tinha a "missão" de espalhar a mensagem de Cristo para todos os cantos da terra, e esta "missão" seria a razão da igreja existir. Enquanto tenho uma tarefa prioritária a cumprir no meu trabalho, eu tento me concentrar na tarefa e evito desperdiçar tempo e energia em qualquer outra coisa que me distraia do objetivo principal. Da mesma forma, em um batalhão do exército, todos os recursos e esforços devem estar focalizados no cumprimento da sua missão. Não faria sentido que somente uns "gatos pingados" fossem para a frente de batalha por iniciativa própria e sem nenhuma cobertura do restante da batalhão. Também não faria sentido gastar a maior parte do orçamento embelezando o prédio do quartel-general.
A "igreja" real
Mesmo tendo esta idéia de igreja, eu sabia que as igrejas não eram perfeitas. Na época em que eu iniciei a minha carreira na fé, muitas igrejas evangélicas já eram acusadas de charlatanismo, de lavagem cerebral, e de usarem a fé dos fiéis para ganho pessoal de seus líderes. Eu sabia, portanto, que nem todas as igrejas levavam as coisas de Deus "a sério", e que eu deveria escolher muito bem a igreja que eu frequentaria. Por outro lado, eu também, entendia que a igreja não era frequentada por pessoas perfeitas e que, portanto, não podia ser perfeita. Sabia também que a igreja era como um campo de trigo cheio de joios, em que pessoas que amavam a Deus e desejavam servi-lo misturavam-se com pessoas que estavam frequentando a igreja por motivos mais egoístas. Por isso, eu também não deveria ser muito exigente.
O contraste entre a minha idéia de igreja e a igreja real chocou-me no início: a igreja real não parecia ser nem sombra daquilo que eu imaginava que deveria ser. Eu a descrevia como uma versão religiosa dos clubes, das sociedades, das empresas e dos mercados que eu via no mundo que me cercava, nada capaz de virar o mundo de pernas para o ar. Às vezes, eu questionava se a igreja como descrita na Bíblia estava passando por um momento único, que nunca mais se repetiria; ou se a minha interpretação do livro de Atos dos Apóstolos tinha sido romântica e fora da realidade.
Mesmo assim, eu realmente acreditava que seria possível ver uma igreja ao menos um pouco mais parecida com o que eu imaginava que deveria ser, talvez estimulado pelos livros que falavam de "avivamento". Eu imaginava que, se eu jejuasse, orasse, buscasse, chorasse e pedisse que Deus mudasse a situação, o seu Espírito faria o seu trabalho, os crentes seriam despertados e voltaríamos a ser igreja de verdade. Obviamente, nada acontecia, mas eu também não tinha disciplina para fazer tudo o que eu achava que seria necessário para ser ouvido por Deus. Com isso, eu não sabia se eu não tinha me esforçado o suficiente ou se Deus não quis ouvir os meu clamores.
A minha busca por "igreja"
Em todas elas, a minha experiência na igreja era mais ou menos a mesma. Inicialmente, eu era um estranho que desejava entrar em um grupo de pessoas que, a princípio, eram meus "irmãos". Eu frequentava os cultos, tentava me envolver com as atividades da igreja, entregava-me de corpo e alma, e aprendia a amar as pessoas que estavam ali. Mesmo assim, eu sentia que algo muito importante estava faltando ali. Aquilo não era a igreja que eu imaginava que deveria ser. Depois de algum tempo tentando mudar alguma coisa, eu chegava à conclusão que o meu esforço era inútil e solitário. Diante desta constatação, eu ficava dividido entre continuar em uma igreja que nunca mudaria ou procurar outra onde eu tivesse alguma esperança. Às vezes eu tentava aceitar a situação, dizendo para mim mesmo que não existe igreja perfeita, mas isso não me consolava. Depois de algum tempo sentindo-me infeliz, eu saía da igreja pela porta dos fundos, frustrado.
Ainda preciso de igreja
Isso não quer dizer que eu não precise de igreja: eu creio que parte da minha frieza espiritual deve-se ao fato de não estar envolvido com alguma comunidade onde eu possa partir o pão, compartilhar a minha vida, adorar a Deus e aprender a ser mais humano.
O meu temperamento não me ajuda nesse processo. As pessoas normalmente vêem-me como uma pessoa fechada, de poucas palavras e de difícil aproximação, e eu concordo com eles. Por outro lado, provavelmente são essas pessoas "difíceis" que mais precisam de amor e aceitação. Enquanto uma parte de mim acha que é inútil frequentar a igreja, outra parte sabe que eu nunca serei plenamente feliz se não fizer parte de uma comunidade onde eu possa ver o amor de Cristo na prática.
Com algum constrangimento, eu confesso que sou parte de um grupo que está crescendo bastante no Brasil ultimamente: o de pessoas que se consideram evangélicas sem estar filiadas a nenhuma igreja, conhecidas como "sem-igreja".
É difícil tentar explicar como eu cheguei a este ponto. Não acredito que eu não precise de igreja. Não acho que a minha peregrinação tenha de ser solitária. Creio que a convivência com pessoas que tenham o mesmo Deus e Pai seja indispensável para exercitar a maior virtude cristã: o amor. Não há como amar nem ser amado se não houver pessoas ao meu redor. Posso aprender tudo sobre a vida cristã lendo livros, louvar a Deus com as músicas gravadas no MP3 e dispensar os cultos da igreja, mas nunca poderei praticar o que eu aprendo se não estiver inserido em uma comunidade.
Nesse sentido, eu creio que a igreja seja indispensável. O meu problema tem sido associar a igreja que eu necessito àquela igreja que tem um prédio, um santuário, alguns cultos durante a semana e alguns membros. Admito que a igreja tem sido o aspecto mais difícil nesses anos de peregrinação. Após frequentar inúmeras igrejas e me envolver em algumas delas, chego à conclusão de que existe algo de muito errado comigo ou existe algo muito errado com as igrejas. Talvez as duas coisas.
A "igreja" ideal
Eu não nasci em lar evangélico e não fui frequentador de igreja na infância. Por isso, a minha primeira idéia do que era igreja era o que eu lia na Bíblia.
Eu via na igreja a possibilidade de revolucionar o mundo. De uma certa forma, a igreja era para mim uma utopia que poderia tornar-se realidade se ela compreendesse e exercesse o seu papel neste mundo. Afinal de contas, isso já aconteceu pelo menos em um momento da história. De acordo com o livros de Atos dos Apóstolos, cinquenta dias após a ressurreição de Jesus milhares de pessoas arrependeram-se de seus pecados e resolveram seguir a Cristo. Em uma demonstração nítida do caráter da pessoa que decidiram seguir, os que tinham muito voluntariamente venderam suas propriedades para que os seus "irmãos" pobres não passassem necessidade. Eles encontravam-se todos os dias para partir o pão e adorar a Deus. A igreja conquistava a admiração das pessoas de fora, pelo amor que demonstravam um pelo outro e por aquilo que Deus estava fazendo entre eles. Por isso, mesmo com as perseguições, o número de pessoas dispostas a seguir a Cristo crescia naturalmente, sem que a igreja precisasse se esforçar para convencer os outros a fazê-lo. A igreja não era perfeita, como atestam os incidentes registrados no mesmo livro; no entanto, ela abalou os alicerces do império mais poderoso daquela época a partir de um grupo de 40 pessoas.
Eu também via a igreja como o "corpo de Cristo". Embora este termo tenha virado um jargão entre os evangélicos, eu costumava levar esta expressão a sério. A igreja era a boca, os pés, as mãos, o olhos e os ouvidos de Cristo. Se alguém quisesse saber como Cristo era, como ele se expressava e como ele acolhia as pessoas, deveria ir à igreja para ver isso em seus membros. Assim como acontecia com Jesus quando ele viveu entre nós, a igreja deveria atrair os "pecadores" que estavam cansados e sobrecarregados pelos seus pecados e ser odiada por religiosos que viam a sua hipocrisia sendo exposta por ela. Na igreja, pessoas rejeitadas pela sociedade seriam acolhidas e amadas; pessoas doentes seriam cuidadas e curadas; pessoas cansadas encontrariam repouso, assim como em Cristo.
Finalmente, eu via a igreja como um grupo que tinha a "missão" de espalhar a mensagem de Cristo para todos os cantos da terra, e esta "missão" seria a razão da igreja existir. Enquanto tenho uma tarefa prioritária a cumprir no meu trabalho, eu tento me concentrar na tarefa e evito desperdiçar tempo e energia em qualquer outra coisa que me distraia do objetivo principal. Da mesma forma, em um batalhão do exército, todos os recursos e esforços devem estar focalizados no cumprimento da sua missão. Não faria sentido que somente uns "gatos pingados" fossem para a frente de batalha por iniciativa própria e sem nenhuma cobertura do restante da batalhão. Também não faria sentido gastar a maior parte do orçamento embelezando o prédio do quartel-general.
A "igreja" real
Mesmo tendo esta idéia de igreja, eu sabia que as igrejas não eram perfeitas. Na época em que eu iniciei a minha carreira na fé, muitas igrejas evangélicas já eram acusadas de charlatanismo, de lavagem cerebral, e de usarem a fé dos fiéis para ganho pessoal de seus líderes. Eu sabia, portanto, que nem todas as igrejas levavam as coisas de Deus "a sério", e que eu deveria escolher muito bem a igreja que eu frequentaria. Por outro lado, eu também, entendia que a igreja não era frequentada por pessoas perfeitas e que, portanto, não podia ser perfeita. Sabia também que a igreja era como um campo de trigo cheio de joios, em que pessoas que amavam a Deus e desejavam servi-lo misturavam-se com pessoas que estavam frequentando a igreja por motivos mais egoístas. Por isso, eu também não deveria ser muito exigente.
O contraste entre a minha idéia de igreja e a igreja real chocou-me no início: a igreja real não parecia ser nem sombra daquilo que eu imaginava que deveria ser. Eu a descrevia como uma versão religiosa dos clubes, das sociedades, das empresas e dos mercados que eu via no mundo que me cercava, nada capaz de virar o mundo de pernas para o ar. Às vezes, eu questionava se a igreja como descrita na Bíblia estava passando por um momento único, que nunca mais se repetiria; ou se a minha interpretação do livro de Atos dos Apóstolos tinha sido romântica e fora da realidade.
Mesmo assim, eu realmente acreditava que seria possível ver uma igreja ao menos um pouco mais parecida com o que eu imaginava que deveria ser, talvez estimulado pelos livros que falavam de "avivamento". Eu imaginava que, se eu jejuasse, orasse, buscasse, chorasse e pedisse que Deus mudasse a situação, o seu Espírito faria o seu trabalho, os crentes seriam despertados e voltaríamos a ser igreja de verdade. Obviamente, nada acontecia, mas eu também não tinha disciplina para fazer tudo o que eu achava que seria necessário para ser ouvido por Deus. Com isso, eu não sabia se eu não tinha me esforçado o suficiente ou se Deus não quis ouvir os meu clamores.
A minha busca por "igreja"
Durante esses vinte e poucos anos, eu envolvi-me em igrejas de vários tipos. Frequentei igrejas minúsculas e igrejas gigantes; igrejas cujos cultos pareciam velório e igrejas cujos cultos pareciam concertos de rock; igrejas em que não se permitia bater palmas e igrejas onde todos gritavam ao mesmo tempo; igrejas que apresentavam mais citações de intelectuais que a Bíblia, e igrejas que abominavam qualquer outro livro que não fosse a Bíblia. Frequentei igrejas de alemães, de japoneses, de americanos brancos, de americanos negros e de brasileiros imigrantes.
Em todas elas, a minha experiência na igreja era mais ou menos a mesma. Inicialmente, eu era um estranho que desejava entrar em um grupo de pessoas que, a princípio, eram meus "irmãos". Eu frequentava os cultos, tentava me envolver com as atividades da igreja, entregava-me de corpo e alma, e aprendia a amar as pessoas que estavam ali. Mesmo assim, eu sentia que algo muito importante estava faltando ali. Aquilo não era a igreja que eu imaginava que deveria ser. Depois de algum tempo tentando mudar alguma coisa, eu chegava à conclusão que o meu esforço era inútil e solitário. Diante desta constatação, eu ficava dividido entre continuar em uma igreja que nunca mudaria ou procurar outra onde eu tivesse alguma esperança. Às vezes eu tentava aceitar a situação, dizendo para mim mesmo que não existe igreja perfeita, mas isso não me consolava. Depois de algum tempo sentindo-me infeliz, eu saía da igreja pela porta dos fundos, frustrado.
Após passar por isso igreja após igreja, a minha expectativa em relação à igreja também foi diminuindo aos poucos. No início, eu desejava uma igreja que abalasse os alicerces do mundo. Depois, eu me satisfazia com uma igreja "do meu estilo". Depois, eu me satisfazia em estar em uma comunidade onde eu pudesse amar e ser amado. Hoje, não espero muita coisa da igreja, qualquer uma serve. Como agora não tenho expectativa nenhuma, não há mais motivo para continuar desperdiçando meu tempo e recursos em atividades que não têm mais sentido para mim. Mesmo que, por insistência de minha esposa, eu vá à igreja de vez em quando, desapareceu em mim o desejo de participar, de pertencer, de amar, de me doar para a igreja.
Ainda preciso de igreja
O meu temperamento não me ajuda nesse processo. As pessoas normalmente vêem-me como uma pessoa fechada, de poucas palavras e de difícil aproximação, e eu concordo com eles. Por outro lado, provavelmente são essas pessoas "difíceis" que mais precisam de amor e aceitação. Enquanto uma parte de mim acha que é inútil frequentar a igreja, outra parte sabe que eu nunca serei plenamente feliz se não fizer parte de uma comunidade onde eu possa ver o amor de Cristo na prática.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Eu e o meu orgulho
Um dia, um amigo meu disse que ele tinha um problema muito sério com o seu orgulho e que, para combater este pecado, ele orou e jejuou muito até vencer esta fraqueza de caráter. Agora que este problema já estava superado, ele era perfeito...
Em um dos primeiro livros cristãos que eu li após a minha conversão, uma das afirmações que mais me chamou a atenção foi sobre o pior dos pecados. Ao contrário do que eu imaginava, não era nenhum daqueles pecados que a gente ensina para as crianças, como, por exemplo, roubar, mentir, matar ou fazer sexo fora do casamento. O pior pecado de todos era o orgulho (e, por consequência, a maior das virtudes cristãs era a humildade). Por isso, uma das minhas metas pessoais era o de tornar-me humilde.
Obviamente, o orgulho era um pecado difícil de combater. Muitas vezes, eu flagrava-me orgulhando-me por não ser tão arrogante como o fulano que estava conversando comigo. O orgulho era um pecado sutil, que podia se esconder sob a máscara da baixa auto-estima, da discrição, ou da falsa humildade. Mais cedo ou mais tarde, a máscara caía, e o meu orgulho era exposto.
Por exemplo, nos meus piores anos de baixa auto-estima, durante a época da faculdade, eu achava-me a mais incompetente das criaturas, pois não estava sendo bem-sucedido em nada, nem no único objetivo para a qual havia me preparado a vida toda. Este sentimento me consumia, a ponto de eu não conseguir ter a alegria em aprender a profissão para a qual eu havia me matriculado em uma das melhores faculdades do país. Mesmo assim, o meu orgulho berrava de dor quando a depreciação vinha de outras pessoas, e não de mim mesmo. De uma certa forma, ouvir outros dizerem mal de mim era muito, muito pior, do que ouvir a depreciação de mim mesmo.
Um outro exemplo era a minha discrição. Jesus contou uma história sobre um homem que se sentou em um dos melhores lugares da mesa e foi movido para um outro lugar menos nobre: com isso, ele quis ensinar que "aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado". Esta história coube como uma luva para o meu temperamento tímido e retraído. Eu sentia-me desconfortável em dizer onde eu havia estudado na faculdade. "Em uma faculdade do interior", eu respondia, sem dar muitos detalhes. Mesmo sabendo que eu tinha talentos que superavam os que estavam sendo exercidos na igreja, eu relutava em expressar isso, e preferia agir na clandestinidade, ocupando posições menos nobres e menos visíveis. Tentava ocupar os lugares menos importantes, pois "quem humilha a si mesmo será exaltado". O meu orgulho começou a reclamar quando eu percebi que o momento de ser exaltado nunca chegava, e talvez nunca chegaria durante esta vida. Por mais que eu tentasse conter a minha indignação e o meu pedido de justiça, finalmente o orgulho falou mais alto que a vontade de me humilhar: eu simplesmente afastei-me, sem nunca ter exercido plenamente os dons e talentos que Deus tinha me dado.
Um outro exemplo era o perdão. A Bíblia conta que o pecado que eu cometi contra Deus é uma dívida impagável, e que tudo o que fizerem contra mim é muito pouco em comparação a esta dívida. Por isso, deveria ser natural que eu perdoasse os que me ofenderam, uma vez que Deus havia perdoado uma dívida muito maior. Mesmo assim, não consigo perdoar "setenta vezes sete". Depois de um certo limite, o meu orgulho exige que se faça justiça, que os que me fizeram mal paguem pelo que fizeram. É como se, no fundo, eu me achasse melhor que eles, e que eu achasse que não mereceria todo o julgamento que eu exijo para eles.
Por mais que eu tentasse sufocar o meu orgulho, ele aparecia com toda a sua força nos momentos em que a minha pretensa humildade era posta à prova. Tenho dificuldades em perdoar a minha esposa e aceitá-la como ela é, por achar que o que ela fez comigo foi imperdoável. Tenho dificuldades em aceitar críticas dos outros, por achar que eu me critico o suficiente, embora eu saiba que estou longe de ser perfeito. Eu mesmo me coloco em uma posição inferior do que eu mereceria, mas a minha ira se acende quando os outros me mantêm nesta posição ou me colocam em uma posição ainda inferior. Em muitos aspectos, o exercício da humildade pareceu-me inútil, pois parecia gerar apenas uma humildade falsa e superficial.
Então, eu desisti de tentar ser humilde. Talvez o caminho da conquista sobre o pecado do orgulho não seja o de confrontá-lo diretamente, mas o de andar junto com alguém que seja genuinamente humilde, e adquirir esta virtude com a convivência. Talvez eu só possa tornar-me realmente humilde à medida em que eu seja humilhado, em que o meu orgulho seja exposto em todas as suas formas, em que eu sinta o peso da minha imperfeição, a limitação da minha capacidade intelectual, a gravidade dos meus pecados, e a minha necessidade de me apoiar em Deus e em outras pessoas para continuar caminhando.
Diz-se que os mais avançados na santificação vêem a si mesmos mais pecadores do que no início da vida com Deus, por terem adquirido uma maior sensibilidade ao pecado. Frequentemente eu sinto que, a cada dia eu estou piorando, e não melhorando, no meu caráter e nas minhas atitudes. Será que o que eu sinto reflete a realidade, ou será que estou no caminho certo para vencer o orgulho? Talvez eu não devesse nem mesmo fazer esta pergunta. Provavelmente, aqueles que são realmente humildes nem devem se dar conta de sua humildade.
Em um dos primeiro livros cristãos que eu li após a minha conversão, uma das afirmações que mais me chamou a atenção foi sobre o pior dos pecados. Ao contrário do que eu imaginava, não era nenhum daqueles pecados que a gente ensina para as crianças, como, por exemplo, roubar, mentir, matar ou fazer sexo fora do casamento. O pior pecado de todos era o orgulho (e, por consequência, a maior das virtudes cristãs era a humildade). Por isso, uma das minhas metas pessoais era o de tornar-me humilde.
Obviamente, o orgulho era um pecado difícil de combater. Muitas vezes, eu flagrava-me orgulhando-me por não ser tão arrogante como o fulano que estava conversando comigo. O orgulho era um pecado sutil, que podia se esconder sob a máscara da baixa auto-estima, da discrição, ou da falsa humildade. Mais cedo ou mais tarde, a máscara caía, e o meu orgulho era exposto.
Por exemplo, nos meus piores anos de baixa auto-estima, durante a época da faculdade, eu achava-me a mais incompetente das criaturas, pois não estava sendo bem-sucedido em nada, nem no único objetivo para a qual havia me preparado a vida toda. Este sentimento me consumia, a ponto de eu não conseguir ter a alegria em aprender a profissão para a qual eu havia me matriculado em uma das melhores faculdades do país. Mesmo assim, o meu orgulho berrava de dor quando a depreciação vinha de outras pessoas, e não de mim mesmo. De uma certa forma, ouvir outros dizerem mal de mim era muito, muito pior, do que ouvir a depreciação de mim mesmo.
Um outro exemplo era a minha discrição. Jesus contou uma história sobre um homem que se sentou em um dos melhores lugares da mesa e foi movido para um outro lugar menos nobre: com isso, ele quis ensinar que "aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado". Esta história coube como uma luva para o meu temperamento tímido e retraído. Eu sentia-me desconfortável em dizer onde eu havia estudado na faculdade. "Em uma faculdade do interior", eu respondia, sem dar muitos detalhes. Mesmo sabendo que eu tinha talentos que superavam os que estavam sendo exercidos na igreja, eu relutava em expressar isso, e preferia agir na clandestinidade, ocupando posições menos nobres e menos visíveis. Tentava ocupar os lugares menos importantes, pois "quem humilha a si mesmo será exaltado". O meu orgulho começou a reclamar quando eu percebi que o momento de ser exaltado nunca chegava, e talvez nunca chegaria durante esta vida. Por mais que eu tentasse conter a minha indignação e o meu pedido de justiça, finalmente o orgulho falou mais alto que a vontade de me humilhar: eu simplesmente afastei-me, sem nunca ter exercido plenamente os dons e talentos que Deus tinha me dado.
Um outro exemplo era o perdão. A Bíblia conta que o pecado que eu cometi contra Deus é uma dívida impagável, e que tudo o que fizerem contra mim é muito pouco em comparação a esta dívida. Por isso, deveria ser natural que eu perdoasse os que me ofenderam, uma vez que Deus havia perdoado uma dívida muito maior. Mesmo assim, não consigo perdoar "setenta vezes sete". Depois de um certo limite, o meu orgulho exige que se faça justiça, que os que me fizeram mal paguem pelo que fizeram. É como se, no fundo, eu me achasse melhor que eles, e que eu achasse que não mereceria todo o julgamento que eu exijo para eles.
Por mais que eu tentasse sufocar o meu orgulho, ele aparecia com toda a sua força nos momentos em que a minha pretensa humildade era posta à prova. Tenho dificuldades em perdoar a minha esposa e aceitá-la como ela é, por achar que o que ela fez comigo foi imperdoável. Tenho dificuldades em aceitar críticas dos outros, por achar que eu me critico o suficiente, embora eu saiba que estou longe de ser perfeito. Eu mesmo me coloco em uma posição inferior do que eu mereceria, mas a minha ira se acende quando os outros me mantêm nesta posição ou me colocam em uma posição ainda inferior. Em muitos aspectos, o exercício da humildade pareceu-me inútil, pois parecia gerar apenas uma humildade falsa e superficial.
Então, eu desisti de tentar ser humilde. Talvez o caminho da conquista sobre o pecado do orgulho não seja o de confrontá-lo diretamente, mas o de andar junto com alguém que seja genuinamente humilde, e adquirir esta virtude com a convivência. Talvez eu só possa tornar-me realmente humilde à medida em que eu seja humilhado, em que o meu orgulho seja exposto em todas as suas formas, em que eu sinta o peso da minha imperfeição, a limitação da minha capacidade intelectual, a gravidade dos meus pecados, e a minha necessidade de me apoiar em Deus e em outras pessoas para continuar caminhando.
Diz-se que os mais avançados na santificação vêem a si mesmos mais pecadores do que no início da vida com Deus, por terem adquirido uma maior sensibilidade ao pecado. Frequentemente eu sinto que, a cada dia eu estou piorando, e não melhorando, no meu caráter e nas minhas atitudes. Será que o que eu sinto reflete a realidade, ou será que estou no caminho certo para vencer o orgulho? Talvez eu não devesse nem mesmo fazer esta pergunta. Provavelmente, aqueles que são realmente humildes nem devem se dar conta de sua humildade.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Trabalho e vocação
Eu havia conhecido o evangelho de Cristo há menos de dois anos quando eu me formei na faculdade. Naquela época, enquanto meus colegas de trabalho estavam entusiasmados para finalmente encontrar um emprego na qual pudessem ganhar dinheiro, a minha preocupação era como a minha formação profissional poderia ser útil para o reino de Deus. Antes de procurar um emprego que me renumerasse bem, eu procurava uma oportunidade de fazer algo que fosse de valor eterno dentro da minha profissão. Talvez por causa disso, eu não corri atrás de um emprego que me pagasse melhor, nem quis seguir a carreira militar, nem quis um emprego na qual eu fosse jogar no lixo cinco anos de investimento dos cidadãos brasileiros. Contra a vontade de meus pais, recusei-me a participar do processo de seleção de uma empresa que fabricava cigarros.
Isso foi há 20 anos atrás. Desde então, eu trabalhei em três empresas, fiz todas as tarefas que me foram atribuídas com dedicação e da melhor maneira que eu consegui fazer, dentro das minhas limitações. Busquei ser um exemplo de profissional para as pessoas ao meu redor. Busquei a integridade e a honestidade, mesmo que eu saísse perdendo na maioria dos casos. Muitas vezes, eu comprei brigas com os meus superiores para fazer a coisa certa. Contra todos os meus instintos naturais, eu tentei compartilhar as boas novas para quem quis e para quem não quis ouvir.
Mesmo assim, um emprego normal em uma empresa normal nunca me realizou, por mais que eu gostasse do trabalho. O problema era que eu não conseguia ver como sentar em frente a um computador por oito a quatorze horas ao dia produzindo códigos de programação poderia fazer alguma diferença significativa na vida de alguém. Às vezes, eu questionava se as coisas que eu ajudava a produzir fariam mais mal do que bem às pessoas.
Vejamos: o meu primeiro emprego foi em uma empresa de brinquedos, e o meu trabalho foi o de ajudar na produção de jogos para videogame. Este é um tipo de emprego que seria cobiçado por muitas pessoas, principalmente por aqueles que gostam de videogames. O meu trabalho, em tese, proveria entretenimento. O problema era que entretenimento é apenas isso: algo sem muito significado para ser preenchido quando não temos nada de importante para fazer. Alguns poderiam argumentar que alguns jogos são educativos e positivos, mas eu nunca tive muita liberdade para escolher o que desenvolver. Finalmente, eu nunca concordei que os videogames tivessem contribuído para fazer este mundo melhor. Muito pelo contrário, os videogames tem ajudado as pessoas a alienarem-se, a engordarem, a tornarem-se insensíveis à violência, a isolarem-se do mundo e a adquirirem mais um vício na lista de vícios já existentes.
O meu segundo emprego é mais difícil para explicar para quem não entende de redes de computadores, mas eu basicamente programava em equipamentos utilizados para prover acesso à internet e em equipamentos para gerenciar computadores à distância. Muitos consideram a internet uma arma neutra, que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Não acho que seja tão simples assim: a internet tem mudado a forma como as pessoas vivem, pensam e se relacionam, e eu tenho as minhas dúvidas se esta mudança foi mais positiva que negativa. Mesmo que tenha sido positiva, eu ainda não conseguia ver a minha parte no trabalho para desenvolver a internet como uma inspiração para a minha vida. Talvez o desenvolvimento em uma plataforma de software livre (Linux) fosse uma inspiração para muitos engenheiros, mas eu nunca me entusiasmei muito por isso.
O meu terceiro emprego está sendo em um laboratório de TV digital patrocinado por um gigante de eletrônica. Ali, trabalhei em várias áreas de TV digital, o que tem sido em si bastante interessante. Mesmo assim, o meu questionamento continua: para que? O que o meu trabalho vai fazer de bom para alguém que vai comprar e assistir a TV, além de um pouco de comodidade? Eu deveria estar satisfeito simplesmente em prover comodidade? A TV também pode ser considerada como uma arma neutra, mas eu também questiono se ela tem trazido mais benefícios que malefícios para nós.
A minha análise pode parecer bastante crítica, e eu até aceito ser chamado de chato, mas o fato é que o meu conceito de realização profissional é talvez um pouco diferente dos outros. Eu não me sinto satisfeito simplesmente em estar fazendo um trabalho que é prazeroso e receber um bom salário no final do mês. Para mim, falta algo mais. Falta algo que me dê alegria em trabalhar todos os dias sabendo que o meu trabalho vai fazer diferença na vida dos outros. Falta uma vocação, um chamado.
Eu experimentei esta alegria sentando e emprestando os meus ouvidos aos moradores de rua no centro de São Paulo, mostrando que alguém se importava com eles, mesmo que o restante das pessoas os desprezassem. Eu experimentei esta alegria quando eu ensinava crianças largadas nos cortiços da cidade a fazer as coisas certas. Eu experimentei esta alegria cantando músicas natalinas a moradores de asilos de idosos e a enfermos em hospitais. Esta alegria eu nunca tive no meu emprego, trabalhando dia e noite em frente a um computador. É essa alegria que eu gostaria de ter.
Talvez por isso, eu nunca tenha realmente investido na minha carreira profissional. De uma certa forma, eu sei que, mesmo que eu progrida profissionalmente, conquiste novos cargos e ganhe mais dinheiro, eu nunca estarei realizado enquanto eu tiver dois chefes mandando em mim: o chefe que me dá ordens na empresa e o chefe que me lidera com o seu exemplo de vida.
Isso foi há 20 anos atrás. Desde então, eu trabalhei em três empresas, fiz todas as tarefas que me foram atribuídas com dedicação e da melhor maneira que eu consegui fazer, dentro das minhas limitações. Busquei ser um exemplo de profissional para as pessoas ao meu redor. Busquei a integridade e a honestidade, mesmo que eu saísse perdendo na maioria dos casos. Muitas vezes, eu comprei brigas com os meus superiores para fazer a coisa certa. Contra todos os meus instintos naturais, eu tentei compartilhar as boas novas para quem quis e para quem não quis ouvir.
Mesmo assim, um emprego normal em uma empresa normal nunca me realizou, por mais que eu gostasse do trabalho. O problema era que eu não conseguia ver como sentar em frente a um computador por oito a quatorze horas ao dia produzindo códigos de programação poderia fazer alguma diferença significativa na vida de alguém. Às vezes, eu questionava se as coisas que eu ajudava a produzir fariam mais mal do que bem às pessoas.
Vejamos: o meu primeiro emprego foi em uma empresa de brinquedos, e o meu trabalho foi o de ajudar na produção de jogos para videogame. Este é um tipo de emprego que seria cobiçado por muitas pessoas, principalmente por aqueles que gostam de videogames. O meu trabalho, em tese, proveria entretenimento. O problema era que entretenimento é apenas isso: algo sem muito significado para ser preenchido quando não temos nada de importante para fazer. Alguns poderiam argumentar que alguns jogos são educativos e positivos, mas eu nunca tive muita liberdade para escolher o que desenvolver. Finalmente, eu nunca concordei que os videogames tivessem contribuído para fazer este mundo melhor. Muito pelo contrário, os videogames tem ajudado as pessoas a alienarem-se, a engordarem, a tornarem-se insensíveis à violência, a isolarem-se do mundo e a adquirirem mais um vício na lista de vícios já existentes.
O meu segundo emprego é mais difícil para explicar para quem não entende de redes de computadores, mas eu basicamente programava em equipamentos utilizados para prover acesso à internet e em equipamentos para gerenciar computadores à distância. Muitos consideram a internet uma arma neutra, que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Não acho que seja tão simples assim: a internet tem mudado a forma como as pessoas vivem, pensam e se relacionam, e eu tenho as minhas dúvidas se esta mudança foi mais positiva que negativa. Mesmo que tenha sido positiva, eu ainda não conseguia ver a minha parte no trabalho para desenvolver a internet como uma inspiração para a minha vida. Talvez o desenvolvimento em uma plataforma de software livre (Linux) fosse uma inspiração para muitos engenheiros, mas eu nunca me entusiasmei muito por isso.
O meu terceiro emprego está sendo em um laboratório de TV digital patrocinado por um gigante de eletrônica. Ali, trabalhei em várias áreas de TV digital, o que tem sido em si bastante interessante. Mesmo assim, o meu questionamento continua: para que? O que o meu trabalho vai fazer de bom para alguém que vai comprar e assistir a TV, além de um pouco de comodidade? Eu deveria estar satisfeito simplesmente em prover comodidade? A TV também pode ser considerada como uma arma neutra, mas eu também questiono se ela tem trazido mais benefícios que malefícios para nós.
A minha análise pode parecer bastante crítica, e eu até aceito ser chamado de chato, mas o fato é que o meu conceito de realização profissional é talvez um pouco diferente dos outros. Eu não me sinto satisfeito simplesmente em estar fazendo um trabalho que é prazeroso e receber um bom salário no final do mês. Para mim, falta algo mais. Falta algo que me dê alegria em trabalhar todos os dias sabendo que o meu trabalho vai fazer diferença na vida dos outros. Falta uma vocação, um chamado.
Eu experimentei esta alegria sentando e emprestando os meus ouvidos aos moradores de rua no centro de São Paulo, mostrando que alguém se importava com eles, mesmo que o restante das pessoas os desprezassem. Eu experimentei esta alegria quando eu ensinava crianças largadas nos cortiços da cidade a fazer as coisas certas. Eu experimentei esta alegria cantando músicas natalinas a moradores de asilos de idosos e a enfermos em hospitais. Esta alegria eu nunca tive no meu emprego, trabalhando dia e noite em frente a um computador. É essa alegria que eu gostaria de ter.
Talvez por isso, eu nunca tenha realmente investido na minha carreira profissional. De uma certa forma, eu sei que, mesmo que eu progrida profissionalmente, conquiste novos cargos e ganhe mais dinheiro, eu nunca estarei realizado enquanto eu tiver dois chefes mandando em mim: o chefe que me dá ordens na empresa e o chefe que me lidera com o seu exemplo de vida.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A fé infantil e a fé madura
Eu sempre comparei a fé à confiança de uma criança em seus pais. Eu pensava que a fé perfeita era a fé infantil. Pensava que esta era a razão pela qual Jesus dizia que não veríamos o reino dos céus se não tivéssemos a fé de uma criança.
O tempo tem me mostrado que é necessária uma fé diferente para continuar caminhando, uma fé que transcende à de uma simples confiança infantil, uma fé que vou chamar de fé madura. Muitas das nossas expectativas em relação ao amor, ao cuidado e à proteção de Deus na nossa vida acabam não se concretizando e, às vezes, somos obrigados a decidir o que fazemos com essa decepção: continuaremos crendo em Deus, ou não?
Uma fé infantil diz "O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará". Um fé madura diz: "ainda que o campo não floresça e a videira não dê mais seu fruto, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação".
Uma fé infantil diz: "O Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei". Uma fé madura diz: "Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer".
Uma fé infantil diz: "Mil poderão cair ao seu lado e dez mil à tua direita, mas nada o atingirá". Uma fé madura diz: "ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo".
Uma fé infantil diz que "nunca viu um justo mendigar o pão". Uma fé madura diz que "nem a fome nos separará do amor de Deus".
Uma fé infantil diz que Deus "irá abrir as comportas do céu e derramar sobre nós tantas bênçãos que nem teremos onde guardá-las". Uma fé madura diz que "a graça de Deus nos basta".
Uma fé infantil pergunta: "qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir peixe, lhe dará uma cobra?" A fé madura pergunta: "aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?"
De fato, nem sempre compreendemos como Deus opera em todas as coisas pelo nosso bem. Muitas vezes, Deus nos parece distante, indiferente, ou mesmo sádico diante dos nosso problemas, das nossas dificuldades e dos nossos fardos. Às vezes, sentimo-nos desprotegidos, desorientados e sozinhos neste mundo. É nesses momentos que temos de decidir o que fazer com esse Deus que diz ser o nosso Pai e que promete estar conosco sempre. Daremos nós as costas a Ele por ter-nos decepcionado, ou continuaremos confiando nele, servindo-o e adorando-o, mesmo não compreendendo os seus caminhos? A fé madura diz que continuaremos crendo.
O tempo tem me mostrado que é necessária uma fé diferente para continuar caminhando, uma fé que transcende à de uma simples confiança infantil, uma fé que vou chamar de fé madura. Muitas das nossas expectativas em relação ao amor, ao cuidado e à proteção de Deus na nossa vida acabam não se concretizando e, às vezes, somos obrigados a decidir o que fazemos com essa decepção: continuaremos crendo em Deus, ou não?
Uma fé infantil diz "O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará". Um fé madura diz: "ainda que o campo não floresça e a videira não dê mais seu fruto, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação".
Uma fé infantil diz: "O Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei". Uma fé madura diz: "Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer".
Uma fé infantil diz: "Mil poderão cair ao seu lado e dez mil à tua direita, mas nada o atingirá". Uma fé madura diz: "ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois tu estás comigo".
Uma fé infantil diz que "nunca viu um justo mendigar o pão". Uma fé madura diz que "nem a fome nos separará do amor de Deus".
Uma fé infantil diz que Deus "irá abrir as comportas do céu e derramar sobre nós tantas bênçãos que nem teremos onde guardá-las". Uma fé madura diz que "a graça de Deus nos basta".
Uma fé infantil pergunta: "qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se pedir peixe, lhe dará uma cobra?" A fé madura pergunta: "aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?"
De fato, nem sempre compreendemos como Deus opera em todas as coisas pelo nosso bem. Muitas vezes, Deus nos parece distante, indiferente, ou mesmo sádico diante dos nosso problemas, das nossas dificuldades e dos nossos fardos. Às vezes, sentimo-nos desprotegidos, desorientados e sozinhos neste mundo. É nesses momentos que temos de decidir o que fazer com esse Deus que diz ser o nosso Pai e que promete estar conosco sempre. Daremos nós as costas a Ele por ter-nos decepcionado, ou continuaremos confiando nele, servindo-o e adorando-o, mesmo não compreendendo os seus caminhos? A fé madura diz que continuaremos crendo.
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