quarta-feira, 5 de junho de 2013

O escândalo da graça

No discurso conhecido como o Sermão do Monte, Jesus diz que não se pode servir ao senhor Deus e ao senhor Dinheiro: ou você serve a um senhor ou serve a outro. O que me intrigava sobre esse sermão era por que ele fez esta afirmação em relação ao Dinheiro e não a qualquer outro deus que poderia concorrer com Deus como nosso Senhor. Hoje, eu estou convencido de que a razão desta oposição entre Deus e o Dinheiro, está em um dos mais controvertidos atributos de Deus: a graça.

Em um mundo regido pelo Dinheiro, não existe almoço de graça: tudo tem o seu preço. O trabalho é remunerado pela lógica do mérito: quem trabalha mais recebe mais e tem mais valor. Para conseguirmos o que precisamos ou queremos, devemos adquirir dinheiro para pagar pelo valor definido por aquele produto ou serviço. Se recebemos algo "de graça", sabemos que, de alguma forma, este favor terá de ser retribuído. Se pedirmos dinheiro para um banco, espera-se que paguemos a nossa dívida, na maioria das vezes com juros. O valor de uma pessoa é medido por aquilo que ela tem e por aquilo que ela pode fazer.

Nós tentamos usar a mesma lógica no âmbito espiritual. Imaginamos que, se nos esforçarmos o suficiente, conseguiremos comprar o nosso passaporte para o céu. As formas de pagamento para garantir a nossa alma na eternidade varia bastante de religião para religião, mas a lógica é a mesma: as coisas espirituais, como a salvação, o poder espiritual ou as recompensas no céu, tem o seu preço, e são muito caras. Nós temos de pagar com sacrifícios, com orações, com boas obras, ou até mesmo com dinheiro, para merecê-las. 

A lógica de Deus, no entanto, não funciona dessa maneira. O reino de Deus é regido pela graça, e nada ali é cobrado. A nossa salvação veio de graça, as nossas bênçãos vêm de graça e os nossos dons são o que o próprio nome diz: presentes dados por Deus. Nada que recebemos de Deus é fruto do nosso esforço, e tudo foi fruto da graça: só temos de recebê-lo. Uma bela ilustração de graça é a profecia descrita no livro de Isaías, na qual Deus faz um convite especial às pessoas que não tem o que comprar, para que possam comer de graça. Jesus expulsou os vendedores e derrubou as mesas dos cambistas nas dependências do templo não porque eles estavam sendo desonestos, mas porque as coisas de Deus devem ser regidas pela graça e não podem ser postas à venda.

Enquanto esteve aqui na terra, Jesus pregou a graça. A mensagem da graça era tão clara que foi um escândalo naquela época. A mensagem de Jesus atraía os pobres, os marginalizados, os doentes, as prostitutas, os cobradores de impostos e os "pecadores", enquanto irritava e afugentava os religiosos, homens de bem, os auto-suficientes, os ricos e os poderosos.

Para deixar claro o que Jesus quis dizer sobre o sistema regido pelo Dinheiro, ele contou uma história que ainda tenho dificuldades em aceitar: o dono de uma plantação de uvas contrata trabalhadores para trabalhar por um dia em sua vinha em troca de um denário. Desde a madrugada, ele vai recrutando gente para trabalhar, até que, quase no final do dia, ele contrata o último trabalhador. Na hora do pagamento, ele dá um denário para o trabalhador que foi recrutado por último, deixando os outros trabalhadores na expectativa de receber mais. No entanto, todos os trabalhadores recebem exatamente a mesma quantia pelo trabalho. Isso gerou revolta e indignação entre os que trabalharam no período mais difícil, quanto tinham de suportar a fadiga e o calor do dia. Ao ser questionado, o dono da vinha disse que ele não foi injusto: ele apenas pagou o que tinha sido acordado, e que ele tem o direito de ser generoso com quem ele quiser.

Habituado a um ambiente de trabalho competitivo que, a princípio, é gerido pela meritocracia, indignação seria exatamente a minha reação se o dono da empresa nos remunerasse da mesma maneira que o dono da vinha da história.  Afinal de contas, eu trabalhei duro o dia inteiro, enquanto o meu colega que começou a trabalhar no final do dia recebeu a mesma coisa que eu. Não seria isso uma injustiça?

Em um certo sentido, a graça é injusta. No mundo da graça, não recebemos por aquilo que produzimos. Também, não temos o nosso valor definido naquilo que produzimos, mas pelo que somos. Deus ama o filho que trabalha incansavelmente para agradá-lo da mesma forma que o filho pródigo que deu as costas ao pai e, após colher as consequências de sua rebeldia, retornou ao seu pai sem ter nada a oferecer. Jesus deu a mesma salvação para o homem de bem que o serviu durante a vida toda e para o malfeitor que se arrependeu no final de sua vida, quando estava sendo crucificado ao lado de seu Salvador.

Muitos acusam a doutrina de salvação pela graça de ser "fácil demais", pois é só questão de receber: nada é tão fácil quanto receber um presente. Eu discordo com esta acusação: pelo menos para mim, isso não é nem um pouco fácil.

A primeira razão é que eu vivi a minha vida toda me esforçando para fazer merecer aquilo que eu tenho: de uma certa forma, este é um ponto de honra e um motivo de orgulho. Inconscientemente, eu desprezo os que recebem o seu sustento sem trabalhar: eu os considero parasitas. Por mais nobre que esta atitude pareça. ela é uma barreira enorme para a graça. Eu não consigo imaginar como eu seria se, por algum motivo, eu não pudesse trabalhar e precisasse ser sustentado e cuidado por outras pessoas. Eu acho que consideraria essa situação difícil de aceitar, por me fazer sentir inútil e desmerecedor. Se eu não posso me imaginar recebendo de graça a minha sobrevivência, o que dizer, então, da minha vida eterna?

A segunda razão é a minha reação de indignação ao ver como a graça alcança os outros "pecadores". Na parábola do filho pródigo, eu identifico-me mais com o filho que obedeceu a seu pai a vida toda e ficou indignado e ressentido ao ver seu pai mandar preparar uma festa para celebrar o arrependimento do irmão que tinha se perdido. Não é muito difícil imaginar por que isso é tão difícil de aceitar. Um criminoso passa quase toda a sua vida cometendo assassinatos, estupros e outros crimes considerados hediondos. De uma hora para outra, ele se "converte" e abandona a sua carreira de crimes: Lá no céu, prepara-se um banquete e celebra-se uma grande festa. Enquanto isso, um "cidadão de bem" que nunca cometeu nenhum crime e se esforçou a vida toda para fazer tudo certo nunca foi motivo de celebração. No final, tanto um como o outro irão para o céu. Seria isso tão fácil de aceitar?

A terceira razão é que aceitar as leis da graça significa viver de acordo com essas leis. Da mesma forma que fomos perdoados, também devemos perdoar. Uma história de Jesus ilustra que a dívida que pensamos em cobrar dos outros é infinitamente menor que a dívida que nós tínhamos com Deus, e que foi perdoada. No reino de Deus, somos convidados a dar sem esperar nada em troca, a perdoar "setenta vezes sete", a amar os nossos inimigos e a orar pelos que nos perseguem. Jesus nos convida a não mais aplicar a lei do talião nos nossos relacionamentos, mas a dar a outra face quando ferem, a andar a segunda milha quando nos obrigam a andar a primeira, e a dar a túnica quando nos obrigam a dar a capa. Para mim, o mandamento de perdoar os outros é muito, muito difícil. O meu temperamento não me permite revidar quando alguém faz algo que me ofende, mas esta ofensa fica incrustada na minha mente como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Fico remoendo essa dívida que o meu próximo tem comigo, buscando formas de cobrá-la de alguma maneira. Não consigo perdoar facilmente, pois isso significaria para mim destruir o meu ego, como se o perdão me transformasse em um verme que os outros poderiam pisar à vontade.

Como um legítimo representante dos fariseus, eu considero que o evangelho de Jesus não parece ser tão atraente para mim quanto seria se eu fosse um homem pobre e marginalizado pela sociedade. Eu preciso lutar arduamente contra o meu orgulho para receber algo que eu não trabalhei para obter. Eu preciso lutar contra a minha auto-suficiência para aprender a não mais depender de mim mesmo para sustentar a minha família. Preciso lutar contra as aparências para me convencer de que tudo o que eu tenho não é mero fruto do meu esforço, mas da graça e da generosidade de Deus. Preciso lutar contra a minha formação familiar para aprender a confiar em alguém que não seja eu mesmo. Preciso lutar contra o meu temperamento para aprender a perdoar e não remoer as ofensas dos outros.

Mesmo com todas estas dificuldades, o evangelho da graça atrai-me como se, por trás da minha justiça própria, eu suspirasse por graça. Essa vida de auto-suficiência não é fácil: depender somente de mim mesmo para sustentar a minha família, para fazer tudo certo e ainda para merecer a vida eterna torna-se um esforço que suga todas as minhas forças, a ponto de eu sentir-me sobrecarregado e suplicar por algum alívio. No mundo do Dinheiro, eu não encontro esse alívio: tudo aqui tem o seu preço, até mesmo mercadorias abstratas como saúde, paz, direito, amor e amizade. No meu cansaço, eu suspiro por alguém que me diga: "Hélio, descanse e recupere as tuas forças: a partir de agora eu vou trabalhar por você". Eu suspiro pelo amor e pelo cuidado incondicional de Deus. Eu suspiro por graça. No fundo, eu sei que toda minha inteligência, o meu trabalho e o meu esforço não são suficientes para que eu seja um cidadão perfeito, um trabalhador perfeito, um filho perfeito, um esposo perfeito, um pai perfeito e um cristão perfeito. Em todos os momentos, eu dependo da graça. Mesmo que o mundo que me cerca seja tão carente de graça, eu posso encontrar em Jesus a fonte de graça superabundante que eu preciso para ser perdoado, recebido, cuidado e amado a cada dia.