quinta-feira, 15 de maio de 2014

Radical

Há algumas semanas atrás, um pastor indiano veio pregar na igreja. Ele era de uma família de empresários, havia estudado em uma universidade renomada da Inglaterra e pastoreava uma igreja frequentada pela elite da Índia. Em um certo momento, ele sentiu-se chamado por Deus para viver dentro de uma favela, para anunciar o reino de Deus aos pobres e ver este reino transformando a vida da comunidade. Eu normalmente me incomodo com essas histórias de vida: sinto-me como se o meu "cristianismo" fosse medíocre, como se eu devesse fazer mais do que simplesmente trabalhar para sustentar a minha família, como se eu me sentisse compelido a abraçar a minha fé até as últimas consequências. No entanto, no final da pregação, um dos pastores da igreja fechou o culto dizendo que nem todos são chamados para viver no meio de uma favela. Respirei aliviado, pois poderia continuar na minha mediocridade até que Deus me chamasse para fazer algo parecido.

Um outro missionário teve uma trajetória de vida semelhante: em um certo momento de seu ministério, ele decidiu abrir mão de um bom emprego e vendeu o seu apartamento para alugar uma casa onde ele abrigaria as pessoas que ele veria nas ruas da cidade precisando de ajuda. Ele havia colocado sem-tetos, mendigos, drogados, prostitutas e travestis para dormir no mesmo teto que ele e sua família. Ao ouvir pela primeira vez a sua história, eu fiquei imaginando como seria viver dessa maneira. Ao notar a reação das pessoas da igreja, eu ouvi comentários sobre a sua coragem ou a sua linguagem incomum - própria de quem convive com pessoas desse tipo - mas nunca ouvi alguém dizendo que desejava viver como ele.

Em meados do século passado, um homem decidiu levar o mandamento de dar a outra face a sério. Ele ousou enfrentar um dos impérios mais poderosos de sua época somente através da força de seu espírito. Mahatma Gandhi lutou pela independência da Índia sem fazer uso de violência. Quando ele era agredido, ele não revidava: ao contrário, mostrava-se disponível para ser agredido novamente. Contra todas as possibilidades, a sua tática funcionou: a Índia tornou-se independente do Império Britânico. Eu pensava que a pregação do Sermão do Monte não se aplicava a nós até conhecer a biografia desse homem. No entanto, nem mesmo os cristãos tem nele um exemplo de vida: para muitos de nós, Gandhi é somente um homem que vai para o inferno porque rejeitou os dogmas do Cristianismo.

George Miller foi um missionário que trabalhou na Inglaterra no início do século 19. Ele fundou dezenas de escolas e orfanatos que abençoaram milhares de jovens e órfãos, além de contribuir com centenas de missionários por todo o mundo. No entanto, ele foi mais notável pela forma como ele sustentou o seu ministério. Ele não era sustentado por nenhuma igreja ou denominação. Ele nunca entrou em dívidas. Ele não compartilhava as suas necessidades materiais com ninguém, e nunca pediu dinheiro para ninguém: ele dependia exclusivamente da oração para obter o seu sustento. Muitas vezes, a resposta de suas orações vinha de alguém a quem Deus havia tocado para ofertar exatamente o que o missionário precisava para aquele dia. Ele nunca retinha o que recebia: tudo o que recebia e não era necessário para o seu ministério era repassado para outros missionários. Quando eu li a biografia de George Miller, imaginei se esse método realmente funcionava para qualquer um que tivesse a coragem de utilizá-lo. Certo dia, eu li uma reportagem sobre levantamento de sustento para os ministérios, e um líder foi questionado sobre os métodos de George Miller. "Isso simplesmente não funciona", foi a resposta deste líder.

Um das episódios mais tocantes na história das missões foi o lendário zelo missionário dos irmãos morávios, uma pequena denominação que, nos século 18 e 19 espalhou missionários por todo o mundo. Conta a história que alguns destes missionários se venderam como escravos para poder compartilhar o evangelho com os escravos. Ao ouvir essas histórias de desprendimento e coragem, eu tento imaginar o que significaria ser um missionário como eles foram. Hoje em dia, a realidade é muito diferente: o missionário só sai do país se tiver todo o sustento levantado. Quando ele se move para país pobre, vive um padrão de vida melhor que as pessoas a quem ele está servindo. Quando o país entra em guerra, eles normalmente são os primeiros a fugir para um local mais seguro. Histórias como aquelas dos irmãos morávios parecem coisas do passado.

Diz a Bíblia que, quando a igreja foi iniciada, ninguém considerava somente seu os bens que tinham, mas compartilhavam tudo o que possuíam. Ninguém tinha demais nem de menos, pois os que tinham muito dividiam o que tinham com o que tinham pouco. Alguns chegavam a vender as suas propriedades e colocar o valor da venda nas mãos dos apóstolos, para que fossem distribuídas entre os mais pobres. Esta comunidade seria o sonho de todo comunista, com a diferença de que ela foi possível não por causa de uma engenharia social, mas simplesmente pelo poder do Espírito de Deus, que colocou no coração de cada membro o poder de refletir o amor sacrificial de Cristo no modo como amavam uns aos outros. Quando eu lia esta história no livro de Atos dos Apóstolos, eu imaginava se isso poderia acontecer um dia. No entanto, um amigo colocou a minha expectativa por água abaixo. Segundo ele, ao vender as suas propriedades, estes cristãos perderam os meios de produção. Por isso, quando a fome veio, alguns anos depois, a igreja de Jerusalém empobreceu e precisou pedir ajuda a outras igrejas: em outras palavras, a comunidade da igreja primitiva faliu. Felizmente, a igreja recobrou o bom-senso e aperfeiçoou o seu sistema até chegar ao modelo que temos hoje: cada um considera somente seu o que tem, alguns tem demais, outros tem de menos, e as doações à igreja são mais semelhantes ao pagamento de condomínio que a uma real distribuição de renda.

As seis histórias acima são exemplos de um conflito que existe dentro do meu ser. Eu fico dividido entre dois valores aparentemente contraditórios, que competem pela minha atenção. Na maior parte do tempo, eu sou conservador e moderado. Gosto muito da palavra "bom-senso", e tento ser equilibrado em todas as minhas ações. Na dúvida, prefiro confiar naquilo que está funcionando do que tomar alguma atitude extrema. Dificilmente eu faria alguma coisa que os outros considerassem loucura.

Por outro lado, eu sou estranhamente atraído para o radicalismo. Tenho a impressão de que viver somente naquilo que é moderado significa ser uma pessoa morna e medíocre, que não tem opiniões fortes e que vive em cima do muro. Sinto que eu deveria abraçar uma causa até as últimas consequências se eu quisesse viver de verdade. Para dizer a verdade, foi o radicalismo de Jesus, e não o seu bom-senso, que me atraiu a ele e me compeliu a segui-lo.

Quando leio os evangelhos, eu não vejo um Jesus equilibrado e moderado. Eu vejo um Jesus radical. Ele deixou a sua glória para viver entre nós. Ele nunca teve nenhum bem, e em tudo dependia da provisão de seu Pai e da ajuda dos outros. Ele irou-se a ponto de acusar os fariseus publicamente de hipócritas e até mesmo de derrubar as barracas de vendas na frente do templo. Ele comeu com os piores tipos de pessoa. Ele nos amou até as últimas consequências, e deu a sua própria vida para nos salvar. Definitivamente, isso é viver radicalmente.

Os seus ensinamentos aos discípulos também não são exatamente regidos pelo bom-senso. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres. Se alguém amar mais o pai, a mãe, a mulher, os filhos, os irmãos e irmãs, e até a sua própria vida mais que a mim não pode ser meu discípulo. Deves perdoar teu irmão setenta vezes sete. Se chamar o seu irmão de "louco" estará condenado ao fogo do inferno. O caminho largo é o que leva à perdição e são muitos os que passam por ela. Se o teu olho te faz pecar, arranca-o e jogue fora. Se alguém te agredir em uma face, oferece-lhe a outra. Amem os seus inimigos e orem pelos que os perseguem. A minha impressão é que Jesus queria que os seus discípulos o seguissem também no seu radicalismo.

A biografia de muitos seguidores de Jesus refletiu exatamente esse radicalismo. Apesar de alguns deles serem aclamados como heróis da fé hoje, eram tidos como loucos e radicais na época em que viveram, até mesmo por seus "irmãos". Tenho a impressão de que, se vivessem hoje, também seriam vistos como exóticos, perturbadores e ameaçadores do status quo. Talvez até fossem perseguidos por aqueles que se dizem cristãos.

Para dizer a verdade, talvez o próprio Jesus não seria exatamente bem recebido em nossas igrejas. A presença de Jesus trouxe mais perturbação que paz para as instituições religiosas da época, e creio que causaria a mesma perturbação se ele viesse hoje. De uma certa forma, o Jesus descrito nos evangelhos traz perturbação para mim: a sua vida mostra a mediocridade, a escuridão e o vazio da minha vida, e isso me incomoda muito. A sua presença faz-me sentir um fariseu dos tempos modernos.

O que acontece, no entanto, é que eu tento domesticar esse Jesus radical. Eu tento manipulá-lo até que ele se torne o Jesus manso, suave, que não me confronta nem faz sentir-me desconfortável.

O Jesus domesticado pode dizer que temos de renunciar a tudo o que temos para segui-lo, mas não tem problema se continuarmos com aquilo que renunciamos. Podemos continuar com o nosso emprego, nossa casa, nosso carro e as nossas mordomias: provavelmente nunca precisaremos nos desfazer dele. Muito pelo contrário, Jesus até mesmo multiplicará o que temos.

O Jesus domesticado pode dizer que devemos amar a ele mais que a nossa família, mas nunca nos pedirá para escolhermos entre ele e a nossa família. Afinal de contas, a família é um projeto de Deus e sempre devemos amá-la.

O Jesus domesticado dirá que coloquemos diante de Deus as nossas necessidades, mas não há problema se dependermos primeiro do nosso trabalho ou de outras pessoas. Viver somente pela fé sem usar os recursos que nos estão disponíveis é fanatismo.

O Jesus domesticado dirá para não acumularmos tesouros na terra, mas ele não verá nenhum problema se tivermos uma caderneta de poupança ou pagarmos para ter uma aposentadoria. Afinal de contas, não poupar para o futuro seria uma irresponsabilidade.

O Jesus domesticado dirá para darmos a outra face, mas poderemos nos defender dos nossos inimigos. Não precisamos ser pisados pelos outros, e devemos lutar pelos nossos direitos.

O Jesus domesticado dirá que a sua graça pode dar perdão a qualquer pecador, mas podemos considerar alguns pecados mais aceitáveis que outros e acolher apenas os que tiverem cometido pecados mais aceitáveis.

O Jesus domesticado dirá que devemos amar uns aos outros como ele nos amou, mas não precisamos nos envolver demais com a vida e os problemas dos nossos irmãos: apenas um abraço e um aperto de mão de vez em quando já é o suficiente.

Seguir este Jesus domesticado é bastante confortável e faz-me sentir bem comigo mesmo ... mas de vez em quando eu questiono se esse Jesus é o mesmo que viveu há dois mil anos atrás, pregando e vivendo o evangelho da cruz. Não estaria seguindo e adorando um ídolo criado pela minha imaginação? Não estaria seguindo pelo caminho largo que leva à perdição? Não estaria vivendo como um cristão morno, nem frio nem quente? Não estaria Jesus a ponto de me vomitar?

Quando eu penso sobre isso, refugio-me na graça de Deus. Sei que, por mais que eu deseje tornar-me um discípulo de Jesus, há muitos obstáculos em meu coração para serem removidos. Preciso aprender a enxergar que tudo aquilo que eu tenho de valor neste mundo - meu emprego, meus títulos, meus bens, meu conhecimento, minha reputação, minha saúde, minha família e minha vida - são lixo diante do privilégio de seguir a Jesus e viver como ele. Como o homem que encontrou um tesouro em um terreno e depois deu tudo o que tinha para comprar o terreno, eu preciso ser convencido de que a recompensa de seguir a Cristo é tão valiosa que valeria a pena vender tudo o que eu tenho para ter essa honra. Mas isso não é fácil para uma pessoa orgulhosa e obstinada como eu. Mesmo que eu tente tornar-me radical, eu o faria com presunção, como se eu tentasse provar a mim mesmo daquilo que eu sou capaz de fazer. Jesus quer que eu trilhe um outro caminho. Ele quer primeiro me quebrantar, mostrando-me que, sem ele, eu nada posso fazer. Depois, ele quer mostrar-me sua graça, ensinando-me que, mesmo falhando, eu ainda assim sou amado e perdoado. Depois, ele quer mostrar-me que eu posso confiar nele: não preciso ter medo do que possa acontecer comigo, pois nada poderá me separar de seu amor. Finalmente, ele dirá: siga-me. Quando isso acontecer, eu saberei que o meu Deus é fiel e que nada neste mundo é mais importante que estar ao seu lado: por isso, eu porei a minha mão no arado, serei radical por amor a Cristo, e não mais olharei para trás.

Um comentário:

  1. acho que você acabou de descrever a morte como a conhecemos. porque quanto tudo isso ocorrer, quando você desapegar de emprego, posses, bens, teto, e tudo o mais (isso incluiria alimento presumo eu), desapegaria provavelmente de seu corpo fisico. iria ao céu. "faleceria" na linguagem fisica. achei muito bacana esta leitura. interessante dizer do "Jesus domesticado" - nunca havia pensado por este prisma. obrigada helio por seus textos.

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