Eu li um livro muito interessante há dez anos atrás, chamado Blue Like Jazz, de Donald Miller (não sei se ele já foi traduzido para o português). Trata-se de um testemunho da vida espiritual do autor do livro, em uma linguagem incomum: os personagens fumavam, bebiam, drogavam-se e falavam palavrões, ao mesmo que abordavam profundamente vários aspectos da espiritualidade cristã.
Mesmo assim, este seria somente um dos muitos livros que eu já havia lido antes. Como poucos livros, porém, um trecho de seu testemunho chamou-me atenção a ponto de eu lembrar-me dele, mesmo dez anos depois. Estou traduzindo essa história abaixo:
"Um conhecido meu que se chamava Alan andou pelo país fazendo perguntas sobre líderes de ministérios. Ele visitou igrejas bem-sucedidas e perguntou aos pastores o que eles estavam fazendo, e por que o que eles estavam fazendo estava funcionando. Parecia tudo muito chato, exceto por uma visita que ele fez a um homem chamado Bill Bright, presidente de um grande ministério. Alan disse que ele era um homem grande, cheio de vida, que ouvia sem desviar os seus olhos. Alan fez algumas perguntas. Eu não sei quais eram, mas no final ele perguntou ao Dr. Bright o que Jesus significava para ele. Alan disse que o Dr. Bright não pôde responder a pergunta. Ele disse que o Dr. Bright simplesmente começou a chorar. Ele sentou em sua cadeira grande atrás de sua mesa grande e chorou.
Quando Alan contou essa história eu tentei imaginar como seria amar a Jesus daquela maneira. Honestamente, eu fiquei pensando se aquele tal de Bill Bright só estava louco, ou se ele realmente conhecia Jesus pessoalmente, tão bem que ele choraria só em mencionar o seu nome. Então, eu soube que eu gostaria de conhecer Jesus daquela maneira, com o meu coração, e não apenas com a minha mente. Eu senti que aquilo seria a chave para alguma coisa."
Eu também senti isso. Sempre achei que algo estava faltando em minha vida, algo que me fizesse chorar só em mencionar o nome de Jesus. Para dizer a verdade, eu já senti as lágrimas correrem dos meus olhos em alguns momentos especiais: ao ouvir uma cantata de páscoa ou assistir os sofrimentos de Cristo no filme A Paixão de Cristo, por exemplo. No entanto, se me perguntassem o que Jesus significava para mim e eu não estivesse assistindo a cenas fortes, eu provavelmente responderia calmamente, talvez até de uma forma descontraída.
O terceiro mandamento diz que não devemos tomar o nome de Deus em vão. Eu sempre interpretei esse mandamento como se o nome de Deus devesse ser guardado em um depósito, da qual só poderia ser retirado e utilizado nos momentos sagrados, em que estivéssemos realmente querendo clamar o seu nome. Pecado seria, por exemplo, se exclamássemos "Meu Deus!" ou "Jesus Cristo!" ao vermos o arroz queimado ou o pneu do nosso carro furado. Nos tempos antigos, a cada vez que o nome de Deus precisava ser mencionado, os judeus tinham de passar por um ritual complexo de purificação a fim de não profanar o seu nome. Era tão pouco pronunciado que não se sabe mais a sua pronúncia: somente as consoantes foram preservadas.
Hoje, eu vejo esse mandamento de outra forma. Eu creio que, quando Deus mencionou esse mandamento, ele queria que o seu povo fosse tão ligado a ele que a própria menção de seu nome movesse as suas entranhas. Ele queria que as lágrimas começassem a sair de seus olhos, que as suas vozes ficassem embargadas e que seus corpos tremessem, só de pronunciar o seu nome.
Afinal de contas, aquele povo era somente um punhado de homens desprezíveis, escravos de um poderoso império. De repente, o Deus de seus antepassados resolve agir e, espetacularmente, liberta esse povo da escravidão. Ele envia pragas para o império egípcios até dobrar a vontade do Faraó. Ele parte o mar ao meio e faz seu povo passar pelo mar, para depois afogar os seus perseguidores. Ele guia o seu povo no meio do deserto, suprindo-os com alimento e água. Ele adota esse povo para ser a menina dos seus olhos. O que fazer diante de um Deus desse, senão ser movido somente pela menção de seu nome?
No entanto, a ingratidão e a indiferença que Deus sofreu com o povo que ele amou é a mesma ingratidão e a mesmo indiferença que eu na maioria das vezes dispenso a Jesus. Eu já perdi as contas dos números de vezes em que eu cantava sobre Jesus em um minuto e esquecia o que havia cantado no minuto seguinte. Quantas vezes eu orei "em nome de Jesus" como se esse nome fosse uma palavra mágica que abriria as portas dos céus? Quantas vezes eu mencionei o nome de Jesus casualmente, como se esse nome não fizesse muita diferença na minha vida?
Talvez essa atitude seja simplesmente por eu ter vivido muito pouco com ele. Existe uma história bastante contada nos púlpitos das igrejas: um orador e um senhor idoso foram declamar o salmo do bom pastor. O orador, utilizando-se de todas as técnicas de oratória, declamou o salmo com tanta eloquência que arrancou aplausos da platéia. Já o senhor idoso declamou o mesmo salmo com a voz trêmula e baixa, como se estivesse se dirigindo a uma outra pessoa. No final do salmo, muitos ouvintes estavam com lágrimas nos olhos. O orador conhecia o salmo do bom pastor, mas o senhor idoso conhecia o bom pastor do salmo. Ao meu ver, não há como andar com ele, aprender com ele, conversar com ele e seguir os seus passos sem apreciá-lo, amá-lo e respeitá-lo profundamente.
Para dizer a verdade, talvez falte recordar o que Jesus já fez comigo e meditar sobre o que ele está fazendo comigo agora ...
Lembro-me da época em que eu estava estudando na faculdade, vazio por dentro por constatar que tudo o que eu persegui a minha vida toda não passava de um punhado de vento. Lembro-me de como Jesus me buscou e batalhou contra as minhas convicções, até que eu, vencido e derrotado, entreguei-me a ele, meio que a contragosto.
Lembro-me de como, estranhamente, brotou alegria e paz da minha derrota, de como o meu vazio foi preenchido e de como descobri nele um novo propósito na minha vida.
Lembro-me de como me eu apaixonei por Jesus, desejando tornar-me seu discípulo, aprender com ele, andar com ele e dar a minha vida por ele. Lembro-me da época em que eu desejei abrir mão da minha carreira profissional para servi-lo.
Lembro-me de quando eu senti-me frustrado quando os meus planos de servi-lo não deram certo, e de quando ouvi o eco das palavras de Jesus: "alegre-se não porque os demônios submetem-se a você, mas porque o seu nome está escrito no Livro da Vida". O seu amor por mim era mais importante que o meu serviço para ele.
Lembro-me dos momentos em que, como uma criança mimada, eu dei as costas para ele por não conseguir algo que eu desejava muito, quando ouvi mais uma vez a sua palavra: "a minha graça te basta". Eu já tinha tudo o que precisava.
Lembro-me de quando eu lutava dolorosamente contra uma tentação, e busquei em Jesus as forças para resistir. Muitas vezes eu caí, mas pude apoiar-me nele para levantar e continuar lutando.
Lembro-me dos momentos em que eu estive sozinho em uma terra estranha, sem amigos que pudessem me compreender, em que a minha única fonte de apoio e consolo estava em Jesus. A ele eu expunha a minha angústia, a minha dor, o meu sentimento de rejeição, e até mesmo a minha raiva.
Lembro-me de quando eu estive no limite das minhas forças por causa das pressões em casa e no trabalho, e de quando descobri que o poder de Deus se aperfeiçoa na minha fraqueza. Pois quando estou fraco, aí é que estou forte.
Lembro-me de quando eu, decepcionado com igrejas e com tudo o mais que dizia fazer as coisas em "nome de Cristo", afastei-me do convívio com outras pessoas que criam no mesmo Cristo, e de como Jesus, gentilmente, tem conduzindo-me de volta à sua casa.
Certamente, a minha história ainda não está completa. Há muitas experiências ainda a serem vividas, muitos capítulos a serem escritos e muitos quilômetros para andar com ele. Há ainda muitos lugares escuros que precisam ser iluminados pela sua luz, e sujeiras que precisam ser limpas. Há muito ainda para aprender a viver plenamente da sua graça, e há muito mais para aprender a confiar plenamente nele. Mesmo assim, o pouco que eu já vivi com ele deveria ser o suficiente para que o meu coração batesse mais forte, os meus pés tremessem, as lágrimas caíssem dos meus olhos e eu não conseguisse mais falar, só de mencionar o nome de Jesus.
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