Eu comecei a assistir o programa por curiosidade: gostaria de saber o que fazia essa série ter tantos admiradores. Ao assisti-la, comecei a incomodar-me com o modo como eu estava me envolvendo com a história: de fato, eu estava torcendo pelo protagonista. Eu estava tão envolvido com o drama do "cozinheiro" que algo dentro de mim aplaudia quando ele acumulava dinheiro com a fabricação das drogas, festejava quando ele assassinava um traficante, respirava aliviado quando ele escapava de uma armadilha e alegrava-me quando ele conseguia enganar um policial. Eu percebia que, à medida em que a série progredia, o professor de química tornava-se cada vez mais vingativo, violento, avarento, arrogante e manipulador. No entanto, eu estava tão envolvido com a história que eu já não me importava mais com a justiça nem com as vítimas que eram afetadas pelos seus crimes.
Após terminar de assistir a série, parei para pensar no quão diabólico eu era. Provavelmente, se eu estivesse na situação do personagem da história, eu não seria capaz de fazer o que ele fez ... ou seria? Teria eu algum potencial para o mal, que poderia ser ativado por alguma circunstância em que eu já não teria mais nada a ganhar sendo uma pessoa de bem?
Creio que um dos encantos da série tem a ver com o modo como o mal é retratado. Na série, o mal tem história, tem rosto, tem dramas pessoais e tem motivações, e isso faz com que nos identifiquemos profundamente com ele. O mal na vida real nunca é retratado inicialmente como um ser horripilante de cor vermelha com chifres na cabeça. O personagem da série iniciou a sua carreira de crimes com uma causa nobre: prover condições para a sua família se sustentar após a sua morte. Nós também racionalizamos o mal que cometemos para aplacar a nossa consciência: depredamos lojas e bancos porque lutamos pela justiça social, traímos o nosso cônjuge porque a nossa vida sexual está insatisfatória, aceitamos subornos porque todo o mundo faz isso, roubamos porque somos vítimas de uma sociedade injusta.
Na verdade, se realmente investigarmos a nossa consciência, chegaremos à conclusão de que o mal nos é atraente e sedutor. No final da história, o personagem reconhece que ele não cometeu todos aqueles crimes por causa da família: ele estava realmente gostando de praticar o mal. Da mesma forma, conheço amigos que confessaram ter roubado coisas em supermercados e bares que eles teriam perfeitas condições de pagar: eles roubavam simplesmente pelo prazer de roubar. O mal faz-nos sentir vivos e poderosos, acima dos mortais que são impedidos, pela consciência ou pelo medo, de fazê-lo. Aparentemente, a vida de uma pessoa honesta definhando para a morte é mais entediante e desinteressante que a de um indivíduo que "chuta o balde", resolve entrar na carreira do crime e envolve-se em uma vida cheia de aventuras e perigos.
Mesmo assim, recusamos a admitir para nós mesmos e para os outros que fazemos o mal. Temos a tendência de esconder o mal que existe em nós, como se o nosso subconsciente tivesse uma fossa onde depositamos tudo o que existe de errado dentro de nós e lacramos para que nunca mais seja aberta. Adão e Eva cobriram a sua vergonha com folhas de figos: com o tempo, as nossas táticas para esconder a nossa parte podre tornaram-se muito mais sofisticadas. Escondemo-nos por trás de máscaras que tentam mostrar a outras pessoas somente aquilo que queremos que elas vejam em nós. Transformamo-nos sepulcros caiados: brancos e impecáveis por fora e podres por dentro. Amamos mais a escuridão que a luz, pois a escuridão permite-nos esconder aquilo que não queremos mostrar aos outros.
No entanto, cobrir o mal não nos faz pessoas boas. Muito pelo contrário, o mal é uma doença degenerativa que se alastra pela nossa alma e contamina todas as áreas da nossa vida se não for tratada a tempo. Eu compararia o pecado com o câncer: o pecado que é iniciado com um pequeno "malfeito" pode transformar-se em crime hediondo, se não for tratado e removido. O professor que começou fabricando drogas matou um traficante pela primeira vez para se defender; mais tarde, atropelou dois outros traficantes para salvar seu companheiro; após mais alguns capítulos, explodiu um quarto onde estava um chefe do tráfico de drogas, mandou matar um punhado de traficantes de dentro das prisões para queima de arquivo e, finalmente, dizimou uma quadrilha inteira. Não só os crimes tornaram-se cada vez mais graves: à medida em que a série progredia, notava-se uma mudança progressiva no caráter do protagonista. um trabalhador simples, honesto e altruísta estava, aos poucos, sendo transformado em um traficante egoísta, cruel, vingativo, ganancioso, insaciável e presunçoso: ele estava tornando-se o próprio filho do diabo. Da mesma forma, vejo-me obrigado a combater o mal dentro de mim constantemente. Quando eu percebo, por exemplo, que fiz um comentário maldoso sobre uma pessoa que me fez algum mal, sei que esse comentário "inocente" pode transformar-me em um sádico que tem prazer em destruir a vida de outras pessoas através do veneno que eu injeto através das minhas palavras. O pecado cometido no Jardim do Éden não foi meramente um pequeno ato de desobediência a Deus: ele foi uma pequena semente que germinou, cresceu e transformou-se no mal como conhecemos neste mundo.
A maior tragédia do mal é que ela sempre cobra a sua fatura. O preço de se fazer o mal não está explícito no contrato que assinamos ao vender a nossa alma, mas ele existe. Na série, os crimes cometidos pelo químico afetaram não só a vida dele, mas também a de todas as pessoas ao seu redor. A sua esposa envolveu-se em um esquema de lavagem de dinheiro, o seu cunhado foi morto pela quadrilha que trabalhava para ele, e o seu filho denunciou-o à polícia. A família pela qual ele estava cometendo crimes foi destruída como consequência de seus atos. Mais grave e doloroso que o câncer de pulmão que ele tinha em seu corpo foi o câncer do pecado que ele deixou tomar conta de sua alma.
De fato, o apóstolo Paulo escreveu que o mal realmente tem um preço: a morte. Eu já havia escrito anteriormente que nós não fomos criados para morrer; portanto, a morte foi o preço cobrado pelo mal que escolhemos fazer. Mesmo assim, creio que a morte é muito mais que o cessar das nossas atividades vitais: nos textos bíblicos, a vida e a morte têm mais a ver com o nosso destino na eternidade. Existem várias formas de se ver a morte eterna, mais conhecida como o inferno. Com o risco de ser simplista demais, a minha visão de inferno é a de um estado onde as pessoas sofrem por estarem consumidas pelo desejo de fazer o mal, mas sem a alegria, o entusiasmo e a sensação de poder que ele trazia. Assim como os dependentes de drogas, elas tornaram-se reféns do mal que, lentamente, foi atraindo-os a uma armadilha da qual não podem mais escapar.
A Bíblia conta uma história de um personagem que também envolveu-se profundamente com o mal. Um rei, no ponto mais alto de seu reinado, vê uma mulher pela sacada e, mesmo sabendo que é a esposa de um dos seus mais leais soldados, resolve adulterá-la. Quando ela engravida, o rei tenta de todas as formas fazer com que o soldado deite-se com ela para encobrir o motivo da gravidez. Quando essa tentativa falha, ele envia o soldado para a frente de batalha, à mercê de seus inimigos, para que morresse. Com o assassinato do marido, a mulher casou-se com o rei.
O nome desse rei era Davi, o homem segundo o coração de Deus. Eu imagino que, se ele foi capaz de cometer uma atrocidade dessas, por que eu, que estou tão longe de ser "segundo o coração de Deus", poderia pensar que isso nunca aconteceria comigo? De qualquer forma, um dia ele foi confrontado pelo seu pecado e arrependeu-se amargamente pelo que havia feito. Mais tarde, ele confessou em um de seus salmos que o mal não era mesmo tão prazeroso como se imaginava:
"Enquanto escondi os meus pecados,
o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite
a tua mão pesava sobre mim;
minha força foi se esgotando
como em tempo de seca."
Na minha caminhada, eu aprendi que o peso da mão de Deus sobre mim quando eu faço o mal é a maior prova do seu cuidado e do seu amor por mim. Quando o meu corpo geme e a minha alma se desfalece quando eu cometo algum pecado, há esperança para mim de escapar das armadilhas do inferno. Através da dor, eu posso voltar atrás, confessar o mal que estava fazendo, confiar no perdão de Deus e recomeçar a caminhada de onde e me desviei.
Dessa forma, aos trancos e barrancos, chamuscado por todos os lados por causa dos pecados que cometi, mancando de tanto tropeçar nas decisões tolas que eu tomei, e atingido por várias setas inflamadas do inimigo por não preparar-me o suficiente para proteger-me dos perigos, eu pretendo chegar até o meu destino final carregando aquilo que eu tenho de mais precioso: a vida de Cristo em mim. Foi Cristo que fez-me ver que há muito mais encanto, alegria, poder e plenitude em fazer o bem do que viver em uma vida de pecados. Por isso, creio que esta esperança é o que irá conduzir-me à eternidade, mesmo tendo eu o mal dentro de mim.
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