Na antiguidade, o vinho era considerado o símbolo de alegria. Ele era o componente essencial em qualquer festa, e o povo antigo cultuava o "deus do vinho" quando buscavam alegria para suportar a dureza de suas vidas. Pelo menos por alguns instantes, eles adoravam a esse deus participando de festas onde podia-se beber sem limites e deixar-se levar por todos os instintos naturais que geravam prazer.
Nos tempos modernos, eu vejo o feriado que acabamos de celebrar - o Carnaval - como o símbolo que tem sido celebrado pela sociedade e pela mídia como o símbolo da alegria. Ironicamente, o Carnaval faz parte do calendário religioso. No meu conhecimento limitado de religião, o Carnaval parece ter sido concebido como se fosse a última oportunidade para deixar-se controlar pela natureza humana (a carne) antes da quaresma, um período de 40 dias que inicia-se no dia seguinte ao Carnaval e vai até a Semana Santa.
Para mim, a ideia do Carnaval é algo parecido com dizer ao meu filho: "até amanhã você pode comer todos os doces que quiser, mas, depois disso, você não poderá mais comer nenhum doce por quarenta dias". Isso traz uma ideia de um Deus que não se alegra no nosso prazer, ou de um Deus que dá alguma concessão ao pecado, desde que nos arrependamos depois e jejuemos por algum tempo. O meu entendimento do Deus da Bíblia e a minha experiência como pai leva-me a discordar desse conceito de Deus.
Para começar, não consigo ver Deus como alguém que tem prazer na nossa privação. Como pai, nada me dá mais prazer do que ver um sorriso no rosto do meu filho. Da mesma forma, Deus alegra-se no nosso prazer. Ele não nos dá uma pedra se pedirmos pão, e nem uma serpente se pedirmos peixe. O desejo de Deus de dar-nos prazer está permeado em toda a criação. A beleza das paisagens naturais, o canto dos pássaros, o odor das flores, o sabor das frutas, o prazer do sexo, nada disso teria sentido se o único objetivo da criação fosse a funcionalidade. Ao contrário, Deus colocou tudo isso porque o prazer é muito importante para ele.
Obviamente, isso não quer dizer que o nosso prazer imediato seja a prioridade de Deus. Todos os que são ou que foram pais sabem que os filhos que tem todos os seus desejos satisfeitos tornam-se filhos mimados e egoístas. Muitas vezes, precisamos dizer não aos seus pedidos, precisamos impor a nossa autoridade, precisamos corrigir e disciplinar os nossos filhos, para que eles aprendam a ser adultos. Da mesma forma, a maior prioridade de Deus para nós é em relação ao tipo de pessoa que nos tornaremos. Ele quer trabalhar a nossa vida, para que transformemo-nos em pessoas cuja conduta é digna de sermos chamados de seus filhos.
Por isso, também não concordo como a noção de que Deus possa dar um período de concessão para o pecado. Deus considera o pecado destrutivo, mortífero e devastador. Da mesma forma que eu nunca permitiria que o meu filho fumasse crack, nem que fosse por um dia, Deus nunca daria um segundo sequer de trégua contra o pecado. Não vou entrar em detalhes sobre quais atos cometidos durante essa festa são pecados ou quais não são, mas eu creio que o efeito do pecado vai muito além das consequências imediatas: assim como um câncer, o pecado penetra na nossa alma, multiplica-se, alimenta-se da nossa força vital e cresce até tomar todo o nosso ser. O que seria um instante de prazer pode realmente destruir a nossa vida e fazer-nos miseráveis pela eternidade. Por isso, eu vejo os mandamentos de Deus mais como uma demonstração de seu amor do que como um conjunto de regras para impedir-nos de desfrutar das coisas boas dessa vida.
Para dizer a verdade, há muito tempo tenho percebido que estas coisas são apenas momentos de alegria, bons apenas àqueles que não tem alegria dentro de si mesmos. Em um dos milagres mais conhecidos de Jesus, ele participa de uma festa de casamento: como era de se esperar, eles serviram vinho. No meio da festa, constataram que o vinho tinha acabado, o que teria sido a desgraça dos noivos. Atendendo ao apelo de sua mãe, Jesus manda encher vários potes de água e levá-los ao encarregado da festa. Ao provar o vinho no qual a água havia se transformado, o encarregado comentou com o noivo que o melhor vinho tinha sido deixado para o final da festa.
Não cabe aqui discutir se o milagre realmente aconteceu ou não. No entanto, creio que esse milagre foi um sinal daquilo que Jesus veio para fazer nas nossas vidas. O vinho que este mundo oferece é bom, traz alegria e é uma boa companhia para a nossa vida: no entanto, um dia ela acaba. O vinho que Jesus oferece é fruto de um milagre: ele transforma a nossa vida insípida em uma vida cheia de alegria, com sabor e fragrância incomparável, que ninguém pode nos tirar. Para quem possui esta alegria, faz algum sentido buscar alguns instantes de prazer e satisfação em troca da alegria eterna? Não para mim ... afinal de contas, o vinho de Jesus é o melhor vinho.
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