terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Feliz 2015

Uma visão objetiva do ano que passou concluiria que este foi um ano para o Brasil esquecer. Ele começou com greves e manifestações que invariavelmente terminavam em quebra-quebra. A grande maioria das obras de infraestrutura para a Copa do Mundo não terminaram nem seis meses depois de a Copa ter terminado, e os próprios estádios ficaram por nossa conta. A seleção brasileira foi humilhada na Copa do Mundo, sofrendo a maior goleada de todos os tempos dentro de seu próprio quintal. As eleições foram uma das mais sujas de todos os tempos, e mostrou um país dividido ao meio, com a metade dos eleitores prevendo uma catástrofe para o país com a reeleição da atual presidente. Para terminar o ano, uma conjunção de má administração,  evidências de corrupções bilionárias e interferência política colocaram a maior empresa do Brasil de joelhos. A economia dá sinais de estagnação, e o custo de vida continua subindo. A região Sudeste está sofrendo com a falta d'água, e existe ainda o risco de falta de energia elétrica. A quantidade de notícias ruins é tão abundante que é difícil olhar para o ano que passou com algum saudosismo.

A minha vida particular também não foi muito tranquila, Eu comecei o ano perdendo a minha única avó viva, após passar vários meses acamada. Foi uma morte que causou alívio e tristeza ao mesmo tempo, pois eu tinha boas lembranças dela, principalmente durante a minha infância. Logo depois, meu pai teve de ser internado para retirar um tumor no estômago, e ali ficou por quase três meses por conta de complicações decorrentes da cirurgia, um período difícil e desgastante para ele e para toda a família, da qual ainda está se recuperando. Da mesma forma, a vida familiar foi bastante conturbada, fruto talvez de todo o desgaste que sofremos. Tantos foram os gastos inesperados que tivemos que chegamos ao final de ano sem condições de fazer uma festa nem de viajar para descansar.

Ainda assim, eu tenho muitos motivos para olhar com alegria o ano que passou, até mais que nos anos anteriores. Não houve nenhum ano em que eu não tenha passado por dificuldades de algum tipo. No entanto, no meu íntimo, eu considerava que eu poderia dar conta de todas elas, com a minha própria capacidade, com as minhas próprias forças. Este ano foi diferente, pois eu já havia chegado ao limite: vi-me afogado nos meus problemas e dificuldades. Eu havia visto a morte próxima de minha família, e sabia que deveria pensar o que eu deveria fazer se tivesse de enfrentar a minha própria morte. O cuidado que tivemos de dispensar ao meu pai me fez pensar o que eu faria se fosse eu o paciente. O ano de 2014 foi especial porque eu comecei a enxergar a minha vida de outro ângulo. Comecei a desistir de depender de minhas próprias forças e de descansar, sabendo que não preciso depender somente de mim. Comecei a desejar parar um pouco para refletir sobre o que estou fazendo com a minha vida.

Dizem que as dificuldades e provações que sofremos aproxima-nos mais de Deus. Isso pode não ser verdade em todos os casos, mas para o ano de 2014 foi isso exatamente o que me aconteceu. Após um longo período de isolamento, voltei a frequentar e a me envolver em uma igreja, embora ainda timidamente. Tive saudades daqueles dias em que eu cantava para Deus com toda a alegria, mesmo que ele fosse a única plateia. Desejei voltar aos momentos em que eu buscava na palavra de Deus a orientação, a inspiração e o consolo que eu precisava a cada dia. Voltei a sonhar com o dia em que eu teria uma única preocupação na vida: o de agradar e o de servir aquele que me salvou e que deu a sua vida por mim.

Uma das afirmações mais conhecidas da Bíblia é a de que "o justo viverá pela fé". Viver pela fé é olhar a vida e o mundo com um olhar que vai além da realidade descrita nos jornais e nos programas de televisão. Viver pela fé significa que podemos enfrentar as provações, as aflições e o sofrimento com confiança, sabendo que não estamos sozinhos.

Creio que vamos precisar viver pela fé no ano novo. Mais uma vez, uma análise objetiva do que 2015 nos espera não me traz uma conclusão muito animadora. Os preços já têm data marcada para aumentar, assim como os impostos. A economia continuará se encolhendo, e o número de desempregados continuará aumentando. Os problemas sociais continuarão a atormentar o país, e veremos mais pobreza nas ruas. O país entrará num processo de degradação da democracia, na qual o governo usará de todos o seu poder para calar os que se opõem a ele.

Olhar para este cenário pode ser desanimador, mas não para quem vive pela fé. Esta frase foi mencionada pela primeira vez em um cenário muito pior que esse. Um profeta havia recebido de Deus uma mensagem que revelava dias difíceis, e não paz e prosperidade para o seu povo. O povo de Judá estava se tornando um povo violento, que desprezava a justiça. Por isso, o reino de Judá seria sitiado pelo temível exército da Babilônia, seria derrotado por eles e seria destruído. Alguns seriam levados cativos para Babilônia, outros passariam fome na terra, a ponto de começarem a praticar canibalismo. Diante a angústia do profeta, Deus respondeu que "o justo viveria pela fé", e que os próprios babilônios estariam sujeitos à justiça de Deus pelas atrocidades que cometeriam. Diante do vislumbre da perfeição e da justiça de Deus, a angústia de profeta transformou-se em um belo cântico de fé:

"Mesmo não florescendo a figueira,
não havendo uvas nas videiras;
mesmo falhando a safra de azeitonas,
não havendo produção de alimento nas lavouras,
nem ovelhas no curral
nem bois nos estábulos,
ainda assim eu exultarei no Senhor
e me alegrarei no Deus de minha salvação."

De fato, saúde, dinheiro e tranquilidade são coisas que todos nós desejamos, para nós mesmos e para os nossos amigos. No entanto, encontrar a paz de Deus que permanece mesmo que tudo desmorone ao nosso redor é o melhor que eu posso desejar para o ano de 2015.

Que vocês tenham um Feliz Ano Novo.

Helio.

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