sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Reflexôes de 2002 [parte 1}


Há alguns meses eu estava arrumando o meu apartamento quando eu encontrei um caderno que eu usava para escrever as minhas reflexões sobre as minhas experiências pessoais. Eu fiquei admirado pela pessoa que havia escrito tudo aquilo: ele simplesmente não parecia ser eu mesmo, há dez anos atrás. O que ele escreveu tem sido uma inspiração para mim que, durante estes dez anos, parece ter perdido o rumo e está andando a esmo, sem saber para onde e para que.

Muitas coisas aconteceram desde que eu recebi a Cristo, em 1992, até a época em que eu escrevi estas reflexões. Entre os crentes, diz-se que o fato de eu ter recebido a Cristo em algum dia da minha vida já faz de mim uma pessoa salva, que irá para o céu quando sair desse mundo. Eu também cria desta forma, mas hoje eu vejo que a minha decisão em 1992 foi apenas um começo de uma jornada por um caminho estreito e difícil, cheio de perigos, seduções e dificuldades além da nossa capacidade de transpor. Muitas vezes, nós tropeçamos, os amigos e irmãos nos decepcionam, as promessas de Deus às vezes parecem não ter sentido, e os nossos sonhos são frustrados. A cada dia, um pouco de nós morre e vemos o quanto é vazia a nossa auto-confiança. Por outro lado, esta jornada revela surpresas que não esperamos: mesmo não estando conscientes disso, somos cuidados por Deus. Nos momentos difíceis, amigos andam ao nosso lado e ajudam a carregar o nosso fardo. Quando estamos feridos e cansados demais para continuar, um desconhecido aparece inesperadamente para nos acudir. Quando os nossos sonhos morrem, Deus coloca outros, mais altos, mais sublimes, para sonharmos.

Creio que a nossa atitude perante as dificuldades da vida está relacionada com a nossa essência. Para a maioria das pessoas, as dificuldades da vida endurecem o coração assim como a terra batida é dura por ter sido muito pisada. No entanto, algumas pessoas possuem uma "fragrância" dentro de si que só é exalada quando é quebrada, assim como um vidro de perfume: tornam-se doces, amáveis e compassivas. Creio também que essa essência é a própria vida nova que recebemos de Deus, que irá se manifestar no momento certo se cuidarmos bem dela. Muitas vezes eu me pergunto o que as dificuldades que eu tenho passado tem feito comigo, e estou chegando à conclusão de que está endurecendo o meu coração, pois essa nova vida parece estar definhando.

Por isso, relembrar de como eu pensava há dez anos atrás é tão importante para mim agora. Apesar de estar desorientado, eu ainda podia vislumbrar uma esperança à minha frente para continuar seguindo em frente. Esta esperança parece perdida hoje, e eu preciso desesperadamente reencontrá-la, para que a minha vida deixe de ser vazia e sem nada para oferecer a este mundo carente de esperança.

Boa leitura.

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Até agora, não sei dizer se a transformação que ocorreu em minha vida desde que eu fui morar nos Estados Unidos em 1997 foi para melhor ou para pior.

É verdade que eu amadureci: aprendi a viver sozinho, a lidar melhor com a rejeição, a não acreditar em tudo o que os outros falam, a ser mais assertivo e a ter opiniões mais fortes.

Mas eu sinto que algo essencial no meu relacionamento com Deus foi perdido nesse processo. Depois de experiências amargas que tive com pessoas e com igrejas, Deus passou a parecer menos poderoso, menos sábio ou, pior, menos amoroso e gracioso do que eu imaginava que ele fosse.

A minha mente ainda crê em um Deus que é tudo o que a sua palavra diz, e que é muito mais do que eu possa imaginar. Já no meu coração, eu sei que há um limite para a confiança. Se não, por que eu tremo de medo e evito qualquer um que se dirige a mim para pedir alguma coisa? Não é Deus quem me protege? Eu realmente acredito nisso, ou não? Por que eu não consigo mais romper essa barreira e alcançar estas pessoas com o amor de Cristo?

Seria isso o que as pessoas chamam de "maturidade cristã"? Isso, para mim, é o simples abandono do primeiro amor: eu era criança, tornei-me adulto e independente, e preciso tornar-me uma criança novamente.

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O meu propósito de vida era o de fazer diferença na vida dos que estão ao meu redor. Queria que a minha vida os inspirasse a buscar a Deus e preencher o vazio que eles tinham. Queria fazer discípulos e colocar neles um desejo de seguir o Senhor a qualquer custo.

Tive experiências amargas ao tentar cumprir este propósito. Algumas pessoas em quem "investi" o meu tempo, o meu dinheiro, as minhas orações e até alguns fios de cabelo não permaneceram: a maioria abandonou a igreja, e outros preferiram continuar a viver as suas vidas como se Deus não existisse. Enfim, o resultado foi zero.

Após sofrer com essa decepção, eu cheguei à conclusão de que o problema era que a minha atitude que estava errada. Via-me como alguém que iria ser "usado por Deus" para transformar outras vidas. Só não via os outros como pessoas que também poderiam edificar a minha vida, que também poderiam inspirar-me a buscar a Deus. Eu via-me como um "salvador da pátria" para eles e eles rejeitaram.

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De uma certa forma, as minhas "obras de misericórdia" tinham sido um movimento de cima para baixo. Eu via-me como um "homem decente" que estava com pena daqueles mendigos de meninos de rua. Então, eu ia, comprava comida, conversava com eles, e saía de lá "orgulhoso" por ter sido misericordioso com eles. Acho que está na hora de eu fazer estas obras com outra atitude.

Certa vez, Cristo afirmou que "todas as vezes que fizerdes a um desses pequeninos, a mim estarão fazendo". A Madre Teresa interpretava esta afirmação literalmente. Ela via Jesus em todos os mendigos, leprosos e moradores de rua, e servir ao Rei dos Reis significava servi-los com amor e alegria. Somos simples servos destas pessoas, e eu não estou simplesmente demostrar minha bondade para com eles. Ao servi-los, estamos fazendo aquilo que é o nosso maior privilégio: servir o meu Senhor.

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Quando eu era criança, eu sonhava em ser lembrado por ter feito algo grandioso para a humanidade. Acho que eu tinha alguma mania de grandeza.

Hoje, no dia em que eu morrer, quero ser lembrado não como alguém que fez uma fortuna, que construiu impérios, que fez grandes coisas, que levou multidões para Cristo, e nem mesmo como alguém que foi um bom empregado, um bom filho, um bom marido, um bom pai ou um bom membro de igreja.

Eu quero simplesmente ser lembrado como o "discípulo a quem Jesus amou", e que foi profundamente transformado por esse amor.

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Por muito tempo, eu tenho crido que o "amor ao dinheiro é a raiz de todos os males". O amor ao dinheiro, não o dinheiro em si, é a raiz de todos os males. Eu ainda penso assim, mas creio que há mais um detalhe.

Assim como dizem que o poder corrompe o homem, creio que o dinheiro também corrompe. As pessoas que (como eu?) têm demais tem a tendência de confiar naquilo que elas tem, e também de ficar dependentes dele. Um bom exemplo disso é a tecnologia: muitos já não conseguem viver sem um telefone celular, algo que não fazia nenhuma falta às pessoas que viviam há dez anos atrás sem ele. Ao invés de simplificar as nossas vidas, ela está complicando e fazendo-nos dependentes delas.

Tenho a impressão de que, quanto mais eu tenho, mais complicada a minha vida fica. Tenho de gastar vários dias para declarar o imposto de renda e alguns cabelos brancos preocupando-me com as aplicações que tenho no banco. Mas o que mais tem-me afetado é que a distância com as pessoas também aumentou. O medo de ser assaltado, de ser enganado e de tomarem aquilo que eu tenho tem afetado até mesmo o meu relacionamento com a minha esposa. Dentro de mim, eu sinto o "deus dinheiro" ocupando uma posição cada vez maior na minha lista de prioridades.

Com tudo isso que está acontecendo comigo, eu tenho visto com outros olhos o que Jesus disse ao jovem rico: "Venda tudo o que você tem, dê aos pobres, e terás um tesouro no céu". Talvez, para o meu próprio bem, eu devesse eliminar de vez esse ídolo da minha vida, se é que isso é possível. De uma certa forma, eu anseio por uma vida mais simples, com a única preocupação de "buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça". Afinal de contas, esta é a única coisa que vai durar eternamente.

Muitos amigos consideram-me avarento, "pão-duro", e muitas vezes a minha esposa reclama que eu sou muito pouco generoso comigo mesmo (por outro lado, muitas vezes eu exijo dela a minha frugalidade).  Eu concordo com os meus amigos em parte: o que eu tenho é um presente de Deus, que eu deveria desfrutar e, de vez em quando, usá-lo para acudir as pessoas ao meu redor. Alguns corrigir-me-iam, dizendo que 90% é meu. No entanto, eu tenho um grande problema com isso: não acho que o consumismo é o remédio para a minha avareza. Que direito tenho eu de ter um monte de coisas que eu mal uso, de pagar para que os outros me sirvam, e viver com extravagância, enquanto a maioria da população mundial tem dificuldades para ter o que comer? Creio que, mesmo sendo avarento, se cada um dos bilhões de habitantes que vivem nesse planeta consumissem a mesma quantidade de coisas que eu consumo, os recursos deste planeta se esgotariam em poucos anos.

Gostaria de não ter a consciência me acusando quando eu me dou um presente com o fruto do meu trabalho, mas no momento eu tenho problemas com isso.

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