E o que a igreja tem a ver com isso?
Às vezes, a crise pode ser vista como uma prova. Quando explico ao meu filho sobre as provas, eu digo que elas são necessárias para que o professor saiba o quando daquilo que ele ensinou foi realmente aprendido. Da mesma forma, somente quando a crise chega é que sabemos se aquilo que Jesus tem nos ensinado realmente foi aprendido. Dizemos que Deus supre as nossas necessidades: nós realmente acreditamos nisso? Só saberemos quando estivermos em uma situação em que o nosso suor não for mais o suficiente para providenciar as nossas necessidades e as de nossa família, e realmente estivermos dependendo dele.
Semelhantemente, só saberemos se a igreja está sendo a luz do mundo quando o mundo estiver envolto na escuridão. Há um provérbio que diz que "só sabemos quem são os amigos quando estamos em dificuldades". Da mesma forma, eu creio que só conheceremos a verdadeira igreja nas horas de crise.
Naqueles dias alguns profetas desceram de Jerusalém para Antioquia.
Um deles, Ágabo, levantou-se e pelo Espírito predisse que uma grande fome sobreviria a todo o mundo romano, o que aconteceu durante o reinado de Cláudio.
Os discípulos, cada um segundo as suas possibilidades, decidiram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judéia.
E o fizeram, enviando suas ofertas aos presbíteros pelas mãos de Barnabé e Saulo.
Atos 11:27-30
Um fato que me chama atenção nessa história é que o Espirito Santo revela a um profeta que haveria um período de fome. Algumas vezes, Deus revela com antecedência que haverá dias difíceis. Em Gênesis 41, Deus usou a vida de José para revelar que haveria 7 anos de prosperidade seguido de 7 anos de fome. Por causa desta revelação, José governou o Egito com sabedoria, preparando-se durante os anos de fartura de carestia.
Em contraste, quando o Brasil passava por um período de prosperidade, a população aproveitou-se desta fase para gastar em carros, eletrodomésticos, eletrônicos, viagens para o exterior, como se esta fase fosse durar para sempre. Eu reparei também que muitos dos meus irmãos em Cristo fizeram o mesmo. Por isso, eu questiono: por algum acaso, não houve nas igrejas algum "profeta" que tenha acenado com um futuro sombrio para a economia do país enquanto tudo ia bem? Mesmo que consideremos que o dom da profecia esteja confinado ao período da formação da igreja, não houve nenhum homem de Deus com sabedoria para prever que a "bolha" iria um dia estourar? O povo de Deus foi orientado devidamente a se preparar para o período de vacas magras?
Observo também que a atitude da igreja diante da revelação não foi o de se preparar para benefício próprio. A igreja não começou a poupar para ter como se sustentar no período de fome. Ela se mobilizou para providenciar ajuda. A igreja não existe para se abençoar, mas para ser um instrumento de Deus para abençoar os outros.
Muitos de nós nos apegaríamos à frase "cada um segundo as suas possibilidades" para não participar de nenhuma ajuda. Afinal de contas, a situação está difícil para todos, e não podemos ajudar porque também estamos com dificuldades financeiras. A crise chega a todos, inclusive para nós.
Ainda assim, quando o amor de Cristo nos invade, nem as nossas dificuldades financeiras são empecilhos para cuidar de nossos irmãos. Poucos relatos de generosidade dos cristãos são tão tocantes, como o relato de Paulo sobre a igreja na Macedônia:
"Agora, irmãos, queremos que vocês tomem conhecimento da graça que Deus concedeu às igrejas da Macedônia.
No meio da mais severa tribulação, a grande alegria e a extrema pobreza deles transbordaram em rica generosidade.
Pois dou testemunho de que eles deram tudo quanto podiam, e até além do que podiam. Por iniciativa própria
eles nos suplicaram insistentemente o privilégio de participar da assistência aos santos.
E não somente fizeram o que esperávamos, mas entregaram-se primeiramente a si mesmos ao Senhor e, depois, a nós, pela vontade de Deus.2 Coríntios 8:1-5"
Ou seja, mesmo na extrema pobreza, os macedônios imploravam para fazer parte da ajuda: eles consideravam isso como privilégio e, por isso, faziam com profunda alegria. Eles não só deram o que podiam, mas deram até o que não podiam. Afinal de contas, eles já haviam dados a si mesmos antes.
A crise atual atinge principalmente as camadas mais baixas da população. Na viagem missionária do vale do Ribeira que eu fiz há um mês atrás, vejo o quanto a crise atingiu em cheio a região, que era quase totalmente dependente dos recursos do governo federal. Por causa da crise fiscal, os serviços públicos estão paralisados: as escolas, os hospitais, os transportes funcionam precariamente, e o povo daquela cidade agoniza. Vê-se pobreza extrema por toda parte.
Onde está Cristo em uma realidade como esta? Cristo se manifesta neste mundo através de seu corpo, que é a igreja. É a igreja de Cristo, e não o governo, que deve estar espalhada por todas as regiões, dando de comer, dando de beber, visitando e levando as boas-novas de salvação para os que necessitam. Dizemos que o governo é incompetente e corrupto para prover o bem-estar à população, mas o que dizer da igreja? O quanto ela tem sido fiel e diligente ao chamado de levar o amor de Cristo aos que mais precisam dele?
Sei que muitos de nós estamos desempregados, ou estamos em perigo de perder o emprego. Eu estou na segunda situação. Por isso, às vezes eu penso sobre o que eu deveria fazer quando eu perder o emprego. De vez em quando, vem à minha mente uma sugestão: "Ao invés de começar a procurar emprego de novo como um desesperado, por que não simplesmente dizer para Deus: 'Eis-me aqui, envia-me a mim'?" Se eu realmente levar a sério a palavra de Deus e a realidade deste mundo, não haveria razão para eu dizer 'não'. Se eu buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, tudo o que eu realmente preciso será acrescentado. Se eu passar por dificuldades, Deus me guiará no meio delas. Um bom emprego com um bom salário é lixo, comparado com o privilégio de servir a Cristo. Basta dar alguns passos fora da igreja que eu frequento para que eu veja a realidade sombria deste mundo e imagine Deus, ao olhar aquelas pessoas com compaixão, perguntando "Quem enviarei? Quem irá por nós?"
Eu tenho uma família para cuidar, e tomar uma decisão dessas requer que nós, como família, consideremos o custo e estejamos dispostos a pagar o preço. É possível, portanto, que eu termine por trabalhar novamente para servir a uma empresa em troca de um salário, como sempre tenho feito. Mesmo se isso acontecer, espero que eu aprenda a depender menos da mim mesmo e a confiar naquele que proverá, e que eu prove de uma maneira mais profunda que ele cuida de mim e de minha família. Também, se meu coração não for tão duro como eu imagino que seja, espero que eu experimente a alegria de fazer parte da obra de Deus, mesmo nos momentos em que eu menos tenha para dar.
Helio,
ResponderExcluirObrigado por compartilhar suas idéias, seus sentimentos.
Deus já está te usando através desse blog.
Parabéns! Que seu Blog continue glorificando a Deus!
Abçs