quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Metamorfose

"Ele mudou da água para o vinho" é uma expressão que costumamos usar para pessoas que sofreram uma transformação profunda. Esta expressão remete ao primeiro milagre feito por Jesus nos seus três anos de ministério. Conta a Bíblia que o milagre deu-se durante uma festa de casamento em Caná, uma pequena cidade na Galileia. Em um certo momento da festa, o vinho acabou, o que era considerado um vexame para os anfitriões naquela época. Atendendo ao pedido de sua mãe, Jesus ordenou que enchessem alguns barris com água. Ao verificar o conteúdo do barril, o provador constatou que era vinho, e vinho da melhor qualidade.

O discípulo que contou esse milagre chamou-o de "sinal", ou seja, de um acontecimento que aponta para uma realidade no nível espiritual. A transformação da água para o vinho representava muito mais que uma mera mudança de substância, na qual um líquido quimicamente simples como a água transforma-se em um líquido escuro contendo inúmeros componentes químicos complexos. Ela representava a transformação de vida que Jesus era capaz de fazer, na vida de qualquer um que se entregasse a ele.

Eu realmente cria nesta verdade, pois eu via esta transformação acontecendo em minha própria vida. Cantava que "Jesus Cristo mudou o meu viver", e realmente via em mim a mudança que Jesus havia feito em minha vida. Ele havia preenchido um vazio enorme que havia em minha vida, que nada parecia ser capaz de preencher. Ele havia limpado o meu coração e tirado o peso do meu pecado. Ele havia me dado um projeto de vida, e um propósito além do meu próprio umbigo. Ele transformou uma pessoa feliz por fora e deprimido por dentro em uma pessoa que transbordava de alegria por pertencer a ele. Ele havia me dado uma nova vida, e as coisas velhas haviam ficado para trás.

O poder de Jesus para mudar a vida de qualquer um foi provavelmente a minha maior convicção nos meus primeiros anos de peregrinação. Talvez por causa desta convicção, eu ficava espantado ao notar a incredulidade de muitos que se diziam cristãos, mas não podiam acreditar que esta ou aquela pessoa poderia mudar. Se nem Jesus poderia mudar a vida deles, que esperança eles tinham? Eu observava as pessoas ao meu redor que os outros consideravam casos perdidos: moradores de rua, dependentes de drogas, crianças sem pais que viviam nas ruas, bandidos que cometeram os crimes mais hediondos, homens e mulheres que haviam entrado no caminho da prostituição. Será que Jesus conseguiria alcançar esses corações? Será que Jesus poderia transformá-los? A minha convicção era que sim, que Ele poderia fazê-lo.

Hoje, vinte e poucos anos depois, eu tenho a impressão que a minha convicção estava baseada mais em um romantismo dos meus tempos de jovem que em uma confiança inabalável no poder de Cristo. Quando eu concluí que a minha convicção não correspondia à realidade, a minha fé foi abalada.

Em primeiro lugar, eu observei as pessoas que davam o seu testemunho sobre o que Jesus havia feito na vida delas. Os seus testemunhos eram música para os meus ouvidos, e lágrimas saíam de meus olhos ao ouvir sobre como elas eram antes e no que se tornaram quando tiveram um encontro com Cristo. Com o tempo, comecei a questionar esses testemunhos: será que estavam falando toda a verdade? Será que eles estavam tentando ser mais dramáticos que a realidade? E, mais importante, será que a transformação era apenas de comportamento, como se tentassem produzir pera de uma macieira? Quanto mais eu investigava, mais decepcionado eu ficava. Mesmo que as histórias de conversão fossem verdadeiras, na maioria das vezes somente o comportamento mudava: a essência continuava intocada. Pessoas paravam de fumar e de beber, mas trocavam seus vícios por outros mais aceitáveis. Pessoas paravam de falar palavrões, mas continuavam usando a língua como um instrumento de destruição. A transformação parecia ter sido apenas superficial.

Em segundo lugar, eu observei as pessoas que aparentemente eram cristãs professas, envolvidas com a igreja por vários anos. Por certo, com tanto tempo de caminhada, eles provavelmente estariam mais próximas da santidade, seriam mais caridosas, mas altruístas e mais humildes. O que eu vi foi ainda mais decepcionante: na essência, não conseguia realmente ver nenhuma diferença com o ambiente fora da igreja: as mesmas disputas de poder, as mesmas dissimulações, o mesmo egoísmo, a mesma ganância, a mesma vida vazia e deprimente, tudo isso com o agravante de tentarem acobertar essas falhas com uma linguagem espiritual. Não encontrei ali muitos exemplos de pessoas que realmente haviam sido transformadas por Jesus para seguir.

Em terceiro lugar, eu tentei andar ao lado de algumas pessoas que diziam ter recebido a Cristo e queriam mudar de vida. De uma certa forma, eu dei a minha vida por alguns deles, convicto de que eu veria uma transformação verdadeira ali. Orei por eles e com eles, ensinei a Palavra de Deus e tentei da melhor forma dar um exemplo pessoal de como seria ser um discípulo de Jesus. Ao menos aparentemente, os meus esforços foram em vão: com o tempo, esses irmãos acabaram abandonando o caminho estreito e voltaram à vida que tinham anteriormente. A conversão parecia ter sido apenas "fogo de palha".

Finalmente, eu observei-me mais atentamente. Com todas as decepções que foram se acumulando ao longo da caminhada, percebi que eu mesmo estava voltando ao mesmo estado em que estava antes de ter me encontrado com Jesus. De repente, Cristo já não parecia mais tão poderoso, tão maravilhoso, e nem tão atraente assim. Estava voltando a ser a velha criatura, que buscava riqueza e poder deste mundo, que se sentia vazio e que ficava deprimido a maior parte do tempo.

Comecei a questionar o que havia acontecido comigo quando eu me encontrei com Cristo. No filme Tempo de Despertar,  o efeito milagroso de uma droga experimental capaz de despertar pacientes em estado vegetativo foi apenas temporário, e após alguns meses os pacientes voltaram ao estado original. Será que o mesmo estava acontecendo comigo? Seria Cristo apenas essa droga que produz uma transformação temporária? Será que tudo o que aconteceu comigo foi apenas uma esperança vazia, incapaz de sobreviver ao primeiro momento de adversidade?

Com todas essas observações, eu concluí que não posso me basear em evidências para dizer que Jesus tem o poder de transformar vidas. A minha personalidade crítica observa, investiga, analisa e julga até que ponto as evidências provam se existiu realmente uma transformação em cada caso. Não encontrei nenhuma evidência que provasse irrefutavelmente que Jesus tivesse o poder de transformar vidas, nem mesmo a minha própria.

Mesmo assim, eu ainda tenho essa convicção. Se alguém nesse universo é capaz de transformar vidas, esse alguém é Jesus. As outras opções não me parecem melhores: a educação, a disciplina, a atividade religiosa e os exercícios espirituais podem fazer muitas coisas, mas não são capazes de transformar água em vinho. Somente Jesus, com o seu amor incondicional e sacrificial, é capaz de transformar um homem miserável em seus pecados em um filho de Deus, que reflete em sua vida o caráter daquele que deu a sua vida por pecadores.

No entanto, eu vejo a transformação que ocorre em nossas vidas como um processo longo, que pode levar a vida toda. Provavelmente deve existir casos em que há uma transformação instantânea. No entanto, assim como no milagre das bodas de Caná, esses casos deveriam ser excepcionais. Na maioria dos casos, a nossa transformação é longa e penosa, assim como é o processo natural para a produção de vinho. A semente deve ser semeada em nosso coração. Essa semente deve morrer para poder germinar. Essa planta deve ser cuidada e nutrida para que ela possa crescer e dar frutos. Então, seremos arrancados da videira e colocados em um lagar, onde seremos pisoteados até que as virtudes de Cristo, cultivadas durante todo esse tempo na videira, possam ser liberadas e derramadas. No último estágio, passaremos por período na qual não faremos nada a não ser esperar, até que o nosso clamor por glória e reconhecimento seja transformado na verdadeira humildade. Enfim, a garrafa poderá ser aberta, revelando um vinho de qualidade rara, de aroma agradável e de sabor exuberante, contendo uma vida abundante diante da qual a melhor felicidade que o mundo oferece será apenas uma mera imitação barata.

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