domingo, 16 de dezembro de 2012

Reflexões sobre o idealismo


Suwon, 15 de dezembro de 2012

Eu me considero um idealista... e isso, para mim, é mais uma desvantagem do que uma vantagem.

O desejo de buscar algo maior, mais alto e além da realidade em que eu vivo sempre foi uma paixão minha. Talvez instintivamente, eu sempre soube que o mundo não é perfeito, mesmo que não soubesse claramente a definição de perfeição.

Algumas pessoas conseguem conviver com esta realidade sem ter conflitos internos, simplesmente aceitando que o mundo é assim mesmo, e que o jeito é tentar viver aqui da melhor maneira possível. Eu não sou assim: existe algo dentro de mim que deseja consertar as coisas, mudar o que está errado e transformar este mundo em um lugar melhor para se viver. Algo dentro de mim também não se contenta com uma melhoria aqui e ali, como se isso fosse somente uma maquiagem para dar a impressão de que o mundo é menos ruim que ele realmente é. Eu anseio por um mundo ideal.

Eu sei que o mundo ideal não existe, e provavelmente nunca vai existir. A própria essência do mundo está corrompida, e eu concordo quando o apóstolo João diz que "o mundo jaz no Maligno". Com isso não quero dizer que não existem coisas boas neste mundo: o que quero dizer é que tudo neste mundo está corrompido pelo mal, mesmo as coisas que são intrinsicamente boas. A riqueza transforma-se em ganância, o poder em tirania, o sexo em pornografia, o patriotismo em xenofobia, a religião em fanatismo.

Mesmo assim, não consigo me conformar com isso. Preciso fazer alguma coisa. Preciso mudar.

Antes, porém, eu preciso olhar-me no espelho. Eu sou parte desse mundo, e a mesma corrupção que existe neste mundo existe dentro de mim. Muitas coisas que eu sei que eu deveria fazer eu não faço, e muitas que eu sei que não deveria fazer eu faço. Há uma força irresistível dentro de mim que me compele a buscar somente satisfazer o meu ego. Mesmo os gestos mais nobres que eu tento fazer vêm misturados com um pouco de egoísmo e arrogância. O Hélio que existe dentro de mim me incomoda mais do que este mundo: não sou o que eu desejo ser, e não sei se um dia eu serei.

Eu entendo que, a não ser que eu me transforme, não há como transformar o mundo. Alguns filósofos tem argumentado que é a sociedade que corrompe o homem. Por isso, fizeram um trabalho de engenharia social que transformaria o homem a partir da mudança de regime econômico: entendo que foi o que tentaram fazer com o regime socialista, implementado em vários países no século passado. O problema foi que as pessoas não mudaram: homens no poder continuavam sendo homens corrompidos, que usaram o seu poder absoluto para tornar-se tiranos absolutos; homens que antes trabalhavam para ganhar dinheiro não ganharam uma motivação mais nobre para continuar trabalhando, e só trabalharam à força. O regime não gerou compaixão nem solidariedade entre os cidadãos. Os países que se inspiraram em uma utopia para tentar estabelecer o céu na terra tornaram-se mais semelhantes a um inferno na terra. Por mais que eu me simpatizasse com a idéia de uma sociedade igualitária, eu tive de deixar esta ideologia de lado.

Foi nesse contexto que eu encontrei em Jesus Cristo aquilo que eu buscava. É difícil explicar como um homem que viveu há mais de 2000 anos poderia causar um impacto tão grande em minha vida, ao ponto de satisfazer o meu anseio por significado. Mesmo assim, vou tentar.

A minha parte preferida na Bíblia é a dos evangelhos, onde se descreve o nascimento, a vida, os ensinamentos, a morte e a ressurreição de Jesus. Eu lia a Bíblia nos meus tempos de escola fundamental, mas eu tive uma percepção diferente quando eu comecei a ler os evangelhos na minha época de faculdade. A vida de Jesus era a vida que eu queria viver. Era Jesus a quem eu queria seguir. A minha vida não mais estaria realizada se eu fosse bem-sucedido profissionalmente, se eu tivesse um carro novo e uma casa grande, se eu viajasse para algum lugar exótico, se eu tivesse uma família perfeita, ou se eu ganhasse bastante dinheiro. A minha vida seria completa se eu vivesse como ele.

Na minha opinião, mesmo sem ter tido todas estas coisas que fariam a maioria das pessoas felizes, Jesus viveu a vida mais intensamente que qualquer homem que eu tenha conhecido. Ele riu, chorou, repreendeu, zangou-se e angustiou-se como nós, mas ele amou mais apaixonadamente que qualquer um de nós. Ele não viu se a pessoa era rica ou pobre, santa ou pecadora, respeitável ou rejeitada pela sociedade. Ele os amou simplesmente por serem pessoas. Ele expôs a hipocrisia dos que se diziam representantes de Deus, mas acolheu os que eram chamados de pecadores. Ele tocou na vida das pessoas e elas foram curadas, não só fisicamente, mas mentalmente e espiritualmente. Ele se convidou para jantar com um cobrador de impostos corrupto: o convite não só foi aceito, como também este cobrador mudou completamente de vida. Pessoas doentes tocavam-no, e ele não se tornava doente: elas é que ficavam saudáveis. O que ele ensinou a seus discípulos tem inspirado até homens que resolveram não segui-lo.

Paradoxalmente, Jesus é a antítese do que o mundo diz que é a boa vida. Creio que, se Jesus viesse neste mundo agora, seria considerado um idiota, que rejeitou uma proposta de receber todas as riquezas e reinos deste mundo, que fugiu da popularidade, que pregou que devíamos perdoar os inimigos, dar a outra face, andar mais uma milha, acumular tesouros no céu ao invés de juntar na terra, que chamou de felizes os que eram pobres, sofredores, sedentos e perseguidos. Para a maioria das pessoas, viver aquilo que Jesus pregou seria um insanidade.

Também, creio que Jesus não seria benvindo na maioria das igrejas: ele provavelmente se encheria de ira ao ver o que chamam de "casa de Deus" se transformar em um "covil de ladrões"; provavelmente começaria a desmascarar a nossa aparência de santidade e nos chamaria de "sepulcros caiados"; provavelmente diria que a prostituta que trabalha do outro lado da igreja estaria mais perto de Deus que os frequentadores dela; se fosse possível, nós o crucificaríamos também.

Olhando imparcialmente a vida de Jesus, veríamos mais como uma tragédia do que uma vida digna de ser vivida. Mesmo assim, foi ali que a minha alma encontrou a resposta. Ele era a perfeição. Esta ele a quem eu estava desejando. Era ele a quem eu deveria buscar o resto de minha vida.

A minha maior dificuldade não foi a de começar a viver seguindo este novo ideal. A dificuldade foi encontrar a pessoa de Jesus neste ideal. A diferença entre Jesus e qualquer outra religião ou ideologia é que Jesus é uma pessoa que nasceu, viveu, morreu e, segundo os cristãos, ressuscitou. Mais que seguidor, ele quer que eu seja um amigo dele. Na busca por um ideal, eu muitas vezes negligenciei o relacionamento, pois tenho mais facilidade de lidar com idéias do que com pessoas. Jesus viveu a vida perfeita, mas não desprezou os que não conseguiam viver como ele, nem rejeitou os que fracassaram em segui-lo. Ele estabeleceu um ideal para a sua igreja, que seria o corpo de Cristo enquanto ele não estivesse mais aqui, mas não a destruiu por estar fracassando em sua missão.

Havia um elemento na vida de Jesus que me faltava, por não ser algo que eu poderia adquirir com algum esforço: a graça, o amor incondicional que perdoa, que tolera, que dá o que os outros não merecem. Eu preciso de graça para que não seja rejeitado por ter o meu coração sujo; preciso de graça para continuar a buscar a perfeição sem esquecer das pessoas que estão ao meu redor; preciso de graça para amar os que não conseguem enxergar a vida da mesma maneira que eu; preciso de graça para começar a viver como Jesus viveu.

Hoje, eu vejo que, mais que tentar viver a vida perfeita, eu preciso viver na graça. Preciso ver tudo como um presente de alguém que me ama ao invés de simplesmente o fruto do meu próprio esforço. Preciso sentir a liberdade de não precisar ser perfeito para ser amado e acolhido. Preciso experimentar dia a dia a convivência com um amigo que me ama muito e ser transformado com esta convivência. É permanecendo nele, e não buscando a perfeiçao, que eu poderei chegar mais perto de uma vida plena e abundante.

Um comentário:

  1. Muito obrigada por compartilhar seus pensamentos. às vezes, com as palavras dos outros conseguimos entender e expressar coisas que também sentimos.
    Agradeço a Deus a oportunidade de ter conhecido vocês e de tê-los como amigos.
    Leonardo e Gisane

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