Eu havia conhecido o evangelho de Cristo há menos de dois anos quando eu me formei na faculdade. Naquela época, enquanto meus colegas de trabalho estavam entusiasmados para finalmente encontrar um emprego na qual pudessem ganhar dinheiro, a minha preocupação era como a minha formação profissional poderia ser útil para o reino de Deus. Antes de procurar um emprego que me renumerasse bem, eu procurava uma oportunidade de fazer algo que fosse de valor eterno dentro da minha profissão. Talvez por causa disso, eu não corri atrás de um emprego que me pagasse melhor, nem quis seguir a carreira militar, nem quis um emprego na qual eu fosse jogar no lixo cinco anos de investimento dos cidadãos brasileiros. Contra a vontade de meus pais, recusei-me a participar do processo de seleção de uma empresa que fabricava cigarros.
Isso foi há 20 anos atrás. Desde então, eu trabalhei em três empresas, fiz todas as tarefas que me foram atribuídas com dedicação e da melhor maneira que eu consegui fazer, dentro das minhas limitações. Busquei ser um exemplo de profissional para as pessoas ao meu redor. Busquei a integridade e a honestidade, mesmo que eu saísse perdendo na maioria dos casos. Muitas vezes, eu comprei brigas com os meus superiores para fazer a coisa certa. Contra todos os meus instintos naturais, eu tentei compartilhar as boas novas para quem quis e para quem não quis ouvir.
Mesmo assim, um emprego normal em uma empresa normal nunca me realizou, por mais que eu gostasse do trabalho. O problema era que eu não conseguia ver como sentar em frente a um computador por oito a quatorze horas ao dia produzindo códigos de programação poderia fazer alguma diferença significativa na vida de alguém. Às vezes, eu questionava se as coisas que eu ajudava a produzir fariam mais mal do que bem às pessoas.
Vejamos: o meu primeiro emprego foi em uma empresa de brinquedos, e o meu trabalho foi o de ajudar na produção de jogos para videogame. Este é um tipo de emprego que seria cobiçado por muitas pessoas, principalmente por aqueles que gostam de videogames. O meu trabalho, em tese, proveria entretenimento. O problema era que entretenimento é apenas isso: algo sem muito significado para ser preenchido quando não temos nada de importante para fazer. Alguns poderiam argumentar que alguns jogos são educativos e positivos, mas eu nunca tive muita liberdade para escolher o que desenvolver. Finalmente, eu nunca concordei que os videogames tivessem contribuído para fazer este mundo melhor. Muito pelo contrário, os videogames tem ajudado as pessoas a alienarem-se, a engordarem, a tornarem-se insensíveis à violência, a isolarem-se do mundo e a adquirirem mais um vício na lista de vícios já existentes.
O meu segundo emprego é mais difícil para explicar para quem não entende de redes de computadores, mas eu basicamente programava em equipamentos utilizados para prover acesso à internet e em equipamentos para gerenciar computadores à distância. Muitos consideram a internet uma arma neutra, que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Não acho que seja tão simples assim: a internet tem mudado a forma como as pessoas vivem, pensam e se relacionam, e eu tenho as minhas dúvidas se esta mudança foi mais positiva que negativa. Mesmo que tenha sido positiva, eu ainda não conseguia ver a minha parte no trabalho para desenvolver a internet como uma inspiração para a minha vida. Talvez o desenvolvimento em uma plataforma de software livre (Linux) fosse uma inspiração para muitos engenheiros, mas eu nunca me entusiasmei muito por isso.
O meu terceiro emprego está sendo em um laboratório de TV digital patrocinado por um gigante de eletrônica. Ali, trabalhei em várias áreas de TV digital, o que tem sido em si bastante interessante. Mesmo assim, o meu questionamento continua: para que? O que o meu trabalho vai fazer de bom para alguém que vai comprar e assistir a TV, além de um pouco de comodidade? Eu deveria estar satisfeito simplesmente em prover comodidade? A TV também pode ser considerada como uma arma neutra, mas eu também questiono se ela tem trazido mais benefícios que malefícios para nós.
A minha análise pode parecer bastante crítica, e eu até aceito ser chamado de chato, mas o fato é que o meu conceito de realização profissional é talvez um pouco diferente dos outros. Eu não me sinto satisfeito simplesmente em estar fazendo um trabalho que é prazeroso e receber um bom salário no final do mês. Para mim, falta algo mais. Falta algo que me dê alegria em trabalhar todos os dias sabendo que o meu trabalho vai fazer diferença na vida dos outros. Falta uma vocação, um chamado.
Eu experimentei esta alegria sentando e emprestando os meus ouvidos aos moradores de rua no centro de São Paulo, mostrando que alguém se importava com eles, mesmo que o restante das pessoas os desprezassem. Eu experimentei esta alegria quando eu ensinava crianças largadas nos cortiços da cidade a fazer as coisas certas. Eu experimentei esta alegria cantando músicas natalinas a moradores de asilos de idosos e a enfermos em hospitais. Esta alegria eu nunca tive no meu emprego, trabalhando dia e noite em frente a um computador. É essa alegria que eu gostaria de ter.
Talvez por isso, eu nunca tenha realmente investido na minha carreira profissional. De uma certa forma, eu sei que, mesmo que eu progrida profissionalmente, conquiste novos cargos e ganhe mais dinheiro, eu nunca estarei realizado enquanto eu tiver dois chefes mandando em mim: o chefe que me dá ordens na empresa e o chefe que me lidera com o seu exemplo de vida.
Diria que em meu pensamento, o emprego (trabalho comum) te mantem vivo. Bem ou mal é necessário dinheiro para viver no mundo atual, nas condições em que vivemos, criando os filhos quando os temos. Ou a nós mesmos, claro. Isso é subsistência. Quando você tem esse emprego e ainda faz o que gosta, é sorte. Isso falando da dinamica de ganhar dinheiro em si. Acredito que o fato de o trabalho lhe ocupar com uma habilidade sua, tomando seu tempo e seus neuronios que não ficam inertes, lhe esquivando de atividades paralelas vazias ou negativas, isso por si já pode ser considerado um feito. Quando você está trabalhando e não roubando, não marginalizando, não depredando, você já está fazendo um bem ao mundo ou ao menos neutralizando o mal que poderia existir em você. Ainda, com essa subsistência, você tem suporte para continuar fazendo as atividades julgadas 'paralelas' de participar de grupos ou ações que estas sim, aos teus olhos lhe pareçam "fazendo bem a alguém". Pois morto de fome ou enterrado em maus pensamentos, você nada de bom seria, nada faria.
ResponderExcluirCreio que este é o pensamento da maioria das pessoas, e às vezes eu me sinto "do outro mundo" por pensar diferente.
ExcluirHá muito o que se comentar sobre o teu comentário, mas vou ater-me ao motivo pela qual trabalhamos. Pelo que entendi, resume-se em duas coisas: ganhar dinheiro e ocupar a nossa mente.
Em tese, até criminosos trabalham para ganhar dinheiro, ocupam as suas mentes, e muitos até fazem bem a alguém em atividades paralelas. A única diferença com o nosso trabalho está naquilo que fazem. Por isso, vejo a necessidade de se refletir por que nós fazemos o que fazemos.
Talvez a diferença entre os nossos pensamentos seja onde está o limite entre o que é válido e do que não é. O limite talvez seja a "lei dos homens" para a maioria das pessoas, mas eu creio que o limite devesse ser mais alto.
O meu ponto naquilo que escrevi foi que eu vejo a necessidade de buscar um sentido de propósito e de vocação naquilo que fazemos em metade do nosso tempo útil. Nem todos os professores trabalham com a vocação de preparar o futuro de seus alunos, nem todos os médicos tem a vocação para cuidar da saúde de seus pacientes, e nem todos os advogados desejam ser a voz daqueles que não podem falar. Mesmo assim, eu vejo que a nossa vida será muito mais pobre se não tivermos um motivo maior para trabalhar que o dinheiro que ele proporciona.